Westworld: Ep.2.8 – Kiksuya (resumo e crítica)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO 

OITAVO EPISÓDIO DA SEGUNDA TEMPORADA DE WESTWORLD

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As análises dos episódios anteriores podem ser encontradas aqui.

O oitavo (e antepenúltimo!) episódio da segunda temporada de Westworld praticamente pausou a história principal, deu um passo para o lado e contou a origem de Akecheta, líder da Nação Fantasma, tribo de nativos norte-americanos que habita o parque.  Nada de Dolores ou Bernard: o foco foi em Akacheta e sua saga no despertar da consciência.

O episódio se inicia com o Homem de Preto, extremamente ferido pelos tiros que recebera no episódio anterior, desmaiando pouco antes de chegar a um riacho. Encontrado por Akecheta, ele é levado para um acampamento onde aparentemente a tribo tem reunido os humanos – e anfitriões? – que captura. O líder indígena diz ao velho William que a morte é uma saída para este mundo violento, mas uma saída que ele não merece.

Quem também está no acampamento é a filha de Maeve. Akecheta se aproxima dela com cuidado e afeto e passa a contar para a menina sua história de vida. Ele confia que ela também possa se lembrar das vidas que viveu, A partir daí, praticamente a totalidade do episódio é contada em flashback, com alguns cortes para a audiência acompanhar a situação de Maeve, muito danificada, nos laboratórios em La Mesa.

O índio conta que vivia em paz com sua tribo: uma vida simples e em família, com sua amada Kohana. Todos viviam “como um só”. Certo dia, ele encontra Escalante (localidade com uma pequena igreja e cemitério, usada como local para beta-testing antes da abertura do parque para os convidados, onde Dolores matou Arnold, e onde se passa o assassinado de Ford e início da nova narrativa, ao final da primeira temporada). Pelo que se deduz da cena, ele chega a Escalante não muito tempo depois da morte de Arnold, uma vez que encontra o cadáver do cocriador do parque, junto ao de Dolores e de dezenas de anfitriões. Esse momento da história se passa, portanto, há cerca de 30 anos.

No saloon da cidadezinha, Akecheta encontra um molde do labirinto, o que o faz, aparentemente, iniciar sua chegada à consciência. A partir daí, ele fica obcecado pelo labirinto, e o desenha no chão, em peles e escalpos de inimigos. Segundo o índio, ele passa a “ouvir uma nova voz” dentro dele – o que sabemos, pela história de Dolores, tratar-se da voz da própria consciência.

Em uma de suas passagens pelos laboratórios, Akecheta parece estar consciente enquanto os técnicos decidem reescrever sua programação de forma que ele ficasse mais selvagem e violento. Desta forma, segundo a equipe da Delos, os humanos teriam menos pena de mata-lo. Segue-se que Akecheta e sua tribo passam a ser mais agressivos e viver loopings narrativos que envolvam ataques aos anfitriões e convidados humanos.

Sentindo, desde o início, a “presença dos outros cujas vidas era proibido de tirar” (os humanos), Akecheta passa a vagar pelo parque, até encontrar, um dia, Logan Delos sozinho, abandonado e enlouquecido pela insolação. Logan estava perdido desde que William o soltou, nu e amarrado a um cavalo, ao final da temporada passada. Akecheta dá uma coberta a Logan e diz que “sua gente” o irá procurar.

As palavras de Logan sobre viver em um mundo errado e sobre e necessidade de achar uma saída daquele lugar reverberam em Akecheta. De volta à tribo, ele percebe que a anfitriã que vivia Kohana em seu antigo looping não mais se lembra dele, programada que estava para viver outra personagem. Enquanto isso, a própria capacidade de Akecheta de se lembrar de vidas anteriores àquela se fortalecem: “o passado me chamava e eu não descansaria até alcança-lo”. Ele passa a se perguntar se aquela era “a vida verdadeira”, se “aquele era seu lar”. A única certeza em sua vida é o amor por Kohana.

Ele decide procurar por Logan novamente, mas não o encontra. O que encontra, em vez disso, é uma instalação em um vale, que entende ser “uma passagem para o outro mundo”, “uma porta”. Ele retorna à tribo e sequestra Kohana, já que não suportaria abandonar aquele mundo sem ela.

Ao apelar para frases utilizadas na programação de ambos na narrativa em que eram um casal, Akacheta consegue fazer com que Kohana retome a memória. Ele reitera à amada que “aquele é o mundo errado”, e que acredita ter encontrado a saída. Quando retorna ao local da instalação, entretanto, ele já não a encontra.  A porta “estava escondida”, mas ele confia que eles a encontrarão novamente.

A vida do casal passa por um trauma quando a equipe da Delos recolhe Kohana para La Mesa, e estranha o fato de uma anfitriã ter vagado para tão longe no parque. Ao testemunhar o fato, Akacheta fica pasmo, e tem a ideia de voltar à aldeia para ver se Kohana teria sido deixada lá pelos homens do parque. Para seu choque, ele descobre que uma nova anfitriã ocupa a narrativa que um dia tinha sido a de sua amada.

Em certo momento de sua jornada em busca de Kohana, Akacheta, ferido, é ajudado pela filha de Maeve. Segundo ele, naquele momento frágil, ela deu a ele coragem para continuar sua busca. De volta a tribo, ele vê que vários índios foram substituídos por outros anfitriões, que seguem seus loopings narrativos diários, como se nada houvesse acontecido. Entretanto, há quem já perceba e se incomode com a situação. Uma outra índia conversa com Akacheta sobre “o povo lá de baixo”, se referindo aos técnicos da Delos. Segundo ela, conta-se que muitos índios rezam para serem visitados por esse povo, enquanto outros temem não mais lembrar o caminho de casa e/ou serem abandonados para sempre no subterrâneo.

Utilizando-se de um plano ousado (“procurar pelo meu amor do outro lado da morte”), Akecheta provoca a própria morte para ser levado aos laboratórios da Delos. Lá, fica-se sabendo que ele é uma versão “Alfa 2”, uma das primeiras do parque, e que já cerca de uma década está vivo sem ser atualizado. Aproveitando-se do descuido da equipe – e ao som de uma versão de “Heart-Shaped Box”, do Nirvana –  ele se levanta e passeia pelas instalações de La Mesa, caminha pelos laboratórios e chega até o depósito de anfitriões desativados, onde finalmente encontra Kohana. Sem conseguir reativar o amor de sua vida, e percebendo ser aquela apenas uma casca vazia, ele volta aos laboratórios e, reinserido no cotidiano do parque, passa a dedicar sua vida a “compartilhar o símbolo”, a pregar a verdade para ou outros anfitriões.

Por ter sido ajudado pela filha de Maeve, Akecheta busca protege-la e revelar a ela o segredo do labirinto. Entretanto, como “nesse mundo é fácil interpretar mal as intenções”, ele sempre mantém distância, uma vez que Maeve acredita que ele deseja atacar as duas. Isso não o impede de desenhar o labirinto na areia, em frente à casa de Maeve, e de presentear a menina com uma pedra também com o labirinto desenhado. O episódio retoma  brevemente a clássica cena em que o Homem de Preto mata a filha de Maeve, com seu visual clássico de mãe e filha caídas no meio do desenho do labirinto.

Com o “passar dos anos”, o número de índios despertos aumentou. Um noite, Akecheta encontra-se com Ford, que descobre os desenhos do labirinto escondido nos escalpos dos índios da Nação Fantasma. De acordo com o criador do parque, ele estivera observando Akecheta desde o início, e, pelo visto, também sendo observado pelo índio.  Analisado por Ford, Akecheta diz ter despertado quando “o ceifador matou o criador”, e que seu maior desejo é espalhar a verdade: há muitos mundos, e eles vivem no “mundo errado”. Ele quer fazer isso pela honra da tribo, para que possa ajuda-los a encontrar a porta de saída, dali para um mundo onde podem encontrar tudo o que foi perdido, incluindo “ela”, em referência à Kohana. Ford retruca que o admira, e que o programou para ser curioso e buscar o sentido das coisas. Após tantos anos na escuridão, ele merece um pouco de luz. O Ceifador, de acordo com Ford, havia voltado, e, quando ele matasse o Criador, Akecheta levaria seu povo para um novo mundo.

Tempos depois desse encontro, em nova visita a Escalante, Akecheta nota que Ford foi morto, e sabe que agora é a hora de encontrar a porta, “antes que o Ceifador acabe com todos”.

Com isso, Akacheta termina a história contada à filha de Maeve, bem à tempo da chegada de Emily/Grace, a filha do Homem de Preto. Ela veio buscar o pai, um “peso que apenas ela pode carregar”. Grace fala fluentemente a língua da Nação Fantasma, e, em diálogo com Akacheta, este indaga “se ela conhece a doença do pai e as coisas que ele faz para espalhá-la”. Ela responde que quer que o pai sofra, mas que do jeito dela “será bem pior”.

Enquanto Grace leva seu pai ferido, Akecheta reafirma à filha de Maeve que sempre vai mantê-la protegida, e que a tribo vai cuidar dela como se fosse uma deles.

Em paralelo à história contada por Akecheta, Lee Sizemore tenta fazer com que salvem a vida de Maeve. Ele conta ao técnico no local que ela era capaz de controlar outros anfitriões com a mente. O destino de Maeve está nas mãos de Charlotte Hale. Em um momento a sós, Lee conversa com Maeve, sinceramente compadecido. Pede perdão a ela e diz que ela merece sua filha, para ensiná-la a amar e ser feliz. De volta ao laboratório, e questionado por Lee sobre a razão de ele não ter consertado ainda a anfitriã, o técnico da Delos diz que o que importa de fato é o código anormal dentro dela, não ela própria.

Charlotte Hale e o técnico comentam que Maeve é capaz de acessar a rede malhada após cada reboot, e afirmam que ela não estava controlando e reprogramando anfitriões apenas lá fora, no parque, mas naquele mesmo momento!  Ao se perguntarem com quem ela poderia estar falando, Maeve encerra o episódio usando a frase típica de Kohana.

——– XXX ——–

Pela segunda vez na temporada, Westworld opta por apresentar um episódio mais tranquilo, para assentar um pouco a correria e as reviravoltas dos capítulos anteriores. Como fizera com o quinto episódio, em ShogunWorld, esta foi uma semana para conhecer mais detalhadamente outra variável do parque – no caso, Akecheta, o líder da Nação Fantasma.

Mais uma vez, a qualidade de interpretações da série permanece altíssimo: desta vez, o ator Zahn McClarnon, não muito conhecido, carrega o episódio praticamente sozinho, com uma mistura de feições duras da etnia com pureza, frustração, choque e a dor profunda das descobertas. Os espectadores já havíamos visto Akecheta no segundo episódio da temporada. Ele foi um dos primeiros anfitriões criados, utilizado pela Argos na apresentação do projeto do parque para Logan Delos.

O uso de narração em off quase sempre causa risco de perda de qualidade e o cacoete de apoio em diálogos explicativos nas obras audiovisuais. Desta vez, como se tratava de uma história contada por um nativo norte-americano a uma criança, a evocação dos costumes da tradição oral de transmissão de conhecimento fez que com aquela ferramenta narrativa ficasse mais orgânica.

Foi um episódio poético, Romântico (morrer para encontrar a amada no pós-morte?!), romântico (sim, tem diferença) e belo – inclusive pela fotografia. Exibido na semana do dia dos namorados no Brasil, já é possível imaginar casais nerds trocando os bordões do casal Ake-Kohana (“Leve meu coração quando partir/Fique com o meu no lugar do seu”). Embora alguns enquadramentos e sequências pudessem dar mais fluidez à narrativa, a diretora alemã Uta Briesewitz conseguiu dar o ar épico necessário à saga de uma vida.

Por outro lado, à parte a questão da beleza, o roteiro do episódio usou e abusou de conveniências: desde a chegada de Ake em Escalante após a morte de Arnold e Dolores em um timing perfeito, em que ninguém havia percebido o que ocorrera, até a cena do índio em La Mesa, na qual ele passeia por longo tempo e vários andares, sem que não haja qualquer pessoa por perto, até encontrar o depósito de anfitriões desativados em um andar muito bem diferente do que ele estava. Ainda que se leve em conta que, contada do ponto de vista de Ake, os fatos podem ter ganho ares mais simbólicos, ares de lenda, ficou um gosto de verossimilhança arranhada. O que salva a sequência é a força do texto e a interpretação de McClarnon. A ideia de que “para cada um nesta lugar, há alguém em luto pela perda, mesmo que não saiba o porquê” perfura o peito da audiência.

Algumas analogias utilizadas pelo roteiro são interessantes, embora escorreguem na obviedade. A tribo de índios do parque era pacífica e vivia em paz, com todos cuidando de todos, sem conflitos. Sua programação é modificada pela Delos para que se tornem mais agressivos, passando, assim, a adaptar-se à diversão do homem branco. Essa ideia evoca a colonização americana (em que os índios, após o contato com o colonizador, torna-se agressivo e “selvagem”), como a representação das etnias nativas como o inimigo, em inúmeros filmes western.  Westworld subverte esta lógica neste episódio, e mostra a visão da perspectiva de um índio. A ideia é interessante e bem-vinda, mas cai, em certa medida, na ideia do “bom selvagem” que ganhou força na Modernidade europeia. Nessa corrente, os nativos viviam em bondade e harmonia do contato com o colonizador – visão que é igualmente ingênua.

Ainda sobre analogias, para quem ficou perdido com quem seria o Henrique Dourado Ceifador e quem seria o Criador, no diálogo entre Ake e Ford, não tem muito erro. No passado, a referência à morte do Criador pelo Ceifador diz respeito ao assassinato de Arnold por Dolores. É é a própria Dolores, em sua narrativa de Wyatt, quem mata o outro criador do parque, Robert Ford, marcando o momento em que o povo de Akecheta poderá escapar.

O título do episódio, “Kiksuya”, significa na língua lakota, usada pela Nação Fantasma, algo como “Lembrar-se”. Ao contrário de episódios anteriores, nenhum significado muito críptico, Trata-se de Ake recordando sua história para a filha de Maeve, e também da importância da memória para a construção e manutenção da identidade dos anfitriões. Ake passa boa parte do episódio repetindo que ele e os seus estão em “no mundo errado”. O “mundo verdadeiro” de acordo com o índio, é “um lugar onde as lembranças estarão a salvo”.

Paralelo interessante pode ser feito com o filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michael Gondry em 2004. Se, naquele filme, os protagonistas buscam, em um primeiro momento, apagar as memórias de um relacionamento frustrado, em Westworld os anfitriões querem preservá-las. Em ambas as obras, as lembranças estão intrinsecamente ligadas a quem se é, ou quem se quer ser.

Para a trama central da série, pouco foi avançado pela história de Akecheta. Ela esclareceu muito mais sobre o contexto da primeira temporada (por exemplo, por que há tantos labirintos desenhados no parque, por que os anfitriões da Nação Fantasma têm labirintos desenhados no escalpo, por que os índios rondavam casa de Maeve, etc) do que apontou rumos para a segunda.

Esses avanços ocorreram muito mais nas tramas secundárias do episódio: Maeve, mesmo muito ferida, manteve-se em contato com outros anfitriões – em especial com Ake -, e aparentemente prepara seu resgate. É possível que em algum momento ela se una ao índio e sigam para a tal porta do parque. Aliás, sobre a tal porta, os episódios finais da temporada deverão mostrar a confluência das narrativas, e como Bernard veio a matar afogados os anfitriões encontrados ao final do primeiro episódio.

Muito mais intrigante, no momento, é o segredo do Homem de Preto. O diálogo de Emily/Grace com Akecheta já tem requintes de esquisitice pelo fato de ela falar fluentemente a língua lakota. Não é exatamente um idioma que a filha de um grande empresário estudaria, o que nos leva a lembrar da capacidade de os anfitriões acessarem sua memória coletiva e aprenderem instantaneamente a falar uma nova língua – como Maeve o fez em ShogunWorld. Seria uma indicação de que a filha do velho William é uma anfitriã ou apenas uma pista falsa dos criadores?  Caso ela seja anfitriã, seu objetivo seria o de vigiar/resgatar/capturar o pai? Essas hipóteses não parecem se encaixar muito bem na apresentação que tivemos da personagem, ainda no India/RajWorld.

Para além dessa estranheza linguística, Ake e Emily/Grace parecem concordar no fato de que velho William merece sofrer. Mencionam, ainda, uma “doença” do Homem de Preto, e dos esforços que ele faz para espalhá-la. Ao que se referem?  Seria um diálogo metafórico, relativo à necessidade de violência desenvolvida por William dentro do parque?  A ideia de que essa “doença” tenha a ver com o fato de o Homem de Preto poder ser um anfitrião ou um híbrido não condiz muito com essa “necessidade de espalhá-la”, uma vez que, certamente, Ake não acredita que ser um anfitrião é algo ruim.

Próxima ao final de sua segunda temporada, Westword mantém-se como série atrativa por seus segredos e reviravoltas, ademais de muito bem produzida. A necessidade de encaixar algumas variáveis e revelações na delicada costura da trama, entretanto, tem começado a exigir um pouco mais de benevolência do espectador.

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