Westworld: Ep.2.6 – Phase Space (resumo e crítica)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

SEXTO EPISÓDIO DA SEGUNDA TEMPORADA DE WESTWORLD

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As análises dos episódios anteriores podem ser encontradas aqui

Após o episódio da semana anterior, mais voltado à apresentação de um novo cenário, e de ritmo mais reduzido, esta semana Westworld trouxe uma trama que arrancou os cérebros dos espectadores de suas cabeças!   Desde a primeira cena, todos os núcleos tiveram avanços significativos e interessantes, que conduziram a uma cena final de arrepiar os fãs.

O episódio se inicia com uma cena análoga à primeira cena da segunda temporada. Dolores e Um-Anfitrião-Que-Parece-Ser-Bernard-ou-Arnold conversam, espelhando também vários momentos semelhantes da primeira temporada.  A primeira grande reviravolta se dá quando é Dolores quem congela as funções motoras do interlocutor. Aparentemente, Dolores está treinando aquele anfitrião para ter as mesmas reações e respostas do Arnold original. Mais do que isso, ela afirma estar fazendo um teste de fidelidade – a mesma expressão usada por William ao testar a adaptação da mente de James Delos a um corpo sintético. Dois outros detalhes chamam a atenção: a cena não se passa em um laboratório da Delos, mas em um ambiente diferente, de paredes brancas e com aparatos menos tecnológicos; além disso, a razão de aspecto (a-há!i) da cena muda, ficando mais semelhante ao widescreen. Após esta cena, cuja localização temporal ainda é difícil precisar, todo o episódio se passa na mesma linha temporal – localizada entre a morte de Ford e o despertar de Bernard na praia –  alinhavando narrativas que corriam paralelas até então.

Em Shogunworld, Maeve e seu grupo parecem ter liquidado completamente o grupo de homens do Shogun cujo ataque era eminente ao final do episódio anterior. Akane cuida do cadáver da filha e retira seu coração, que posteriormente deixará em um santuário próximo ao Lago de Neve, citado por ela própria no episódio anterior. Ao retornar à versão japonesa da vila de Sweetwater, Maeve, Lee e Akane encontram seus amigos prisioneiros de Tanaka. Quando Maeve  está prestes a usar sua “voz” para controlar Tanaka, Musashi propõe um duelo entre os dois samurais. Maeve decide não utilizar sua capacidade de influenciar o comportamento de anfitriões para interferir no combate, alegando que todos devem escolher o próprio destino. Após uma belíssima cena, em que Hiroyuki Sanada mostra ser o herdeiro do espírito samurai no audiovisual, Musahi derrota Tanaka e oferece a ele a opção do suicídio de honra, o seppuku [e detalhes para os fãs de cultura japonesa e de filmes de samurai:  foi Miyamoto Musashi, peregrino japonês nascido na segunda metade do século XVI, e de quem o personagem de Westworld empresta o nome, quem criou estilo de luta com duas espadas chamado Niten Ichi Ryu, usado durante parte do duelo].

Após o duelo, o grupo segue até o santurário do Lago da Neve. Akane e Musashi decidem permanecer em Shogunworld: seu espírito e sua honra pertencem ao lugar. Maeve aceita a decisão de seus companheiros, e apenas Hanaryo opta por seguir com o grupo, que retorna a Westworld utilizando os bastidores do complexo do parque. Curioso notar que, tanto do lado de fora da tubulação escondida no santuário quanto nos bastidores do parque, há vários pedaços de corpos mutilados – dando a entender que algum confronto relevante aconteceu naquele cenário.  O grupo se aproxima do rancho onde Maeve viveu a narrativa com sua “filha”, e agradece a Lee (outro sinal de humanização?) por tê-la conduzido até ali. Como era de se esperar, a anfitriã-criança não a identifica como mãe, embora pareça guardar lembranças de sua narrativa anterior, que acaba por projetar nas histórias de suas bonecas. A Nação Fantasma se aproxima, e Maeve foge com sua “filha”, deixando a anfitriã que ocupa atualmente o papel de mãe para trás.  Interessante é notar que o líder dos índios não parece querer atacar ou machucar Maeve, e sim convencê-la de que ambos devem seguir o mesmo caminho. Enquanto Maeve retruca que o caminho na Nação Fantasma “leva ao inferno”, Lee usa o comunicador que encontrara no episódio passado para pedir ajuda.

Enquanto isso, o reencontro do Homem de Preto com sua filha Grace é intenso e emocionante. Em princípio, o velho William acredita que ela não passa de um anfitrião criado por Ford para afetá-lo durante o jogo. Após evitar uma emboscada, Grace conversa com seu pai e diz que é muito triste vê-lo ainda obcecado com o jogo.  Sua mãe teria “pagou” pelo fato de ter percebido que William não era o homem bom que todos acreditavam fora do parque. Ela pede desculpas por tê-lo acusado da culpa pela morte da mãe, e diz estar ali para resgatá-lo dessa brincadeira de buscar uma morte gloriosa dentro do parque. Emocionado pela conversa com a filha, o Homem de Preto parece concordar em buscar, ao lado dela, a saída o parque. Entretanto, no dia seguinte Grace desperta e descobre ter sido novamente abandonada pelo pai.  Há detalhes intrigantes nesse núcleo:  em primeiro lugar, Grace tem de provocar a interação com o pai, sob pena de continuar sendo ignorada;  há, ainda, a diferença de comportamento de William dentro e fora do parque em relação à bebida;  por fim, a lembrança do Homem de Preto sobre o medo que a filha tinha de elefantes estava imprecisa.

No núcleo de Dolores, o episódio usa uma falsa rima visual para mostrar a mudança de personalidade de Teddy. Passeando por uma Sweetwater cheia de cadáveres, ele se abaixa, como tantas vezes fizera em seu loop de narrativa tradicional. Desta vez, entretanto, ele apanha uma bala no chão, e não uma lata para devolver a sua amada Dolores. Esta, por sua vez, é por ele criticada por estar perdendo tempo. Seu novo jeito determinado e obstinado parece surpreender – ou incomodar?  ou intrigar? – Dolores, que toca piano no cabaré. A nova personalidade de Teddy é novamente demonstrada na falta de paciência com um técnico do parque sendo interrogado por Dolores. Teddy não perde as oportunidades de dizer que ela “consertou” o que considerava defeitos no comportamento do parceiro. Já rumo à La Mesa, base central do parque, Dolores manda Teddy prender Phil em um vagão cheio de nitroglicerina e o envia em direção ao túnel de acesso do complexo…

Charlotte Hale retorna com Abernathy até a base central do parque e reclama de que passada um semana tudo ainda está muito bagunçado. Ela se comunica com seus contatos de fora e informa que “o pacote” já está seguro. O “pacote”, como sabemos, é o anfitrião Abernathy, que possui em seu cérebro artificial alguma informação que a Delos deseja fortemente.  Também forte é a cena em que Abernathy é pregado em uma das cadeiras do complexo do parque, para desconforto de Stubbs. Chega à base um grupo de técnicos e/ou seguranças da Delos, liderados pelo bigodudíssimo McCoghlin. A terminologia que ele usa ao conversar com Stubbs (“mande seus técnicos tirarem a mão do meu sistema”) pode ser apenas um reflexo de sua forma arrogante de se expressar, ou indicar que ele tenha um conhecimento sobre os controles do parque mais apurado do que os outros personagens. Após um diagnóstico inicial, descobre-se que o sistema está operante, mas que está bloqueando protocolos de acesso. É como se alguém (e logo descobriremos quem…) estivesse impedindo a Delos de voltar a ter controle sobre o parque. Aos poucos, sistemas como o mapa são recuperados…  aliás, o mapa mostra um trem rapidamente se deslocando em direção à base…

Por fim, e talvez mais importante e intrigante, o núcleo de Bernard. Eles retornam à base central de Westworld e descobrem várias pessoas mortas ali – pelo que Elsie credita o controle de qualidade. Ela tenta acessar o sistema e percebe algo no Berço tem bloqueado tentativas de acesso. Não é possível identificar remotamente quem está por trás desse bloqueio, e ambos decidem verificar localmente o que acontece. Pela primeira vez, aos espectadores é mostrado o Berço, uma grande base de dados que serve como back up das narrativas dos anfitriões. Para Elsie, é como se todos os anfitriões estivessem vivos ali, enquanto para Bernard, trata-se apenas de dados. Ele se lembra de que levou algo ou alguém para o Berço, mas não consegue precisar quem ou o quê.  O acesso ao sistema continua bloqueado, e, segundo Bernard, só há como descobrir entrando diretamente no sistema. Ele se submete à extração de sua consciência (uma esfera escura, diferente as esferas vermelhas que possuem consciências de humanos) e conecta-se diretamente ao Berço. Detalhe fundamental: há uma nova mudança de razão de aspecto (proporção de tela) semelhante à da primeira cena do episódio. Dentro do Berço, Bernard chega a Sweetwater em uma sequência de cenas muito semelhante à da primeira vez que os espectadores conheceram a narrativa da cidade, ainda na primeira temporada. Ele chega na estação (com um roupa cinza, diferente da que estava usando no mundo real), vê Dolores, cruza com Teddy e vê um galgo atravessar a rua. Ao seguir o cão e entrar no cabaré, Bernard reencontra um velho conhecido tocando piano... ninguém menos que Robert Ford!

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Que episódio!  Phase Space foi mais um daqueles momentos em que Westworld, mesmo revelando alguns de seus mistérios, parece criar ainda mais complexidade para os espectadores!

A primeira sequência já muda o que se pensava sobre o início da temporada. O vestido azul de Dolores remete a um tempo mais próximo de sua primeira rebelião no parque, há 30 anos, e a uma Dolores pré-retomada de consciência. Estaria ela programando um recém-criado Bernard, na época, para aprender a agir como Arnold?  Seria uma interpretação possível, mas o fato de Bernard mencionar um sonho em que fala sobre água e sobre ser deixado para trás por anfitriões faz pensar que a cena pode ser passar no futuro, após os eventos mostrados ao final do primeiro episódio da segunda temporada. Mais revelador que isso: a mudança na proporção de tela pode indicar que a cena se passa dentro do Berço, ou seja, em um ambiente virtual – uma vez que a mesma alteração acontece quando Bernard decide se conectar à grande base de dados da Delos.

O retorno de Maeve para Westworld dá continuidade a sua busca pela suposta filha. É curioso que uma anfitriã que, supostamente, superou as programações o parque, permaneça apegada a algo que foi apenas um construto temporário em sua mente – o que a torna a mais humana das personagens da série, diga-se. Ao contrário do que Dolores vem fazendo com quem a contraria, Maeve respeita as decisões individuais de seus pares anfitriões. Embora na segunda metade da primeira temporada haja indícios de que essa “liberdade de pensamento” de Maeve seja tão ilusória quanto a de Dolores, sua jornada parece bem mais rica de sentimentos e experiências.

Já a Nação Fantasma continua sendo uma incógnita: a série dá a nítida impressão de que a tribo tem papel importante na trama, mas ainda é complicado especular qual seja. Em princípio, eles pareciam estar reunindo os humanos soltos pelo parque – para protegê-los, talvez, porque tiveram chances de matá-los e não o fizeram. Agora, parecem querer levar Maeve a seguir o mesmo caminho que eles. Aparentemente, mesmo usando a língua da tribo, Maeve não consegue ter influência sobre o comportamento da Nação Fantasma. Serão também o “braço armado” de Ford pelo parque?  Ou de outra Inteligência artificial ali escondida (como a de Arnold, por exemplo)?

E o Homem de Preto?  O episódio deixa algumas dúvidas que podem ser apenas brincadeiras dos criadores com as expectativas e teorias dos fãs, ou indicar que a identidade do Homem de Preto não é tão óbvia. Por exemplo, é necessário que Grace vá interagir com ele, sob pena de continuar sendo ignorada – da mesma forma que um humano consegue suas aventuras dentro de Westworld buscando interação com anfitriões.  O velho William tem um comportamento diferente do que a filha conhece em relação à bebida. Por fim, suas memórias sobre o medo de elefantes está imprecisa. A cena é bem escrita e atuada, de forma que se pode entender que trata-se apenas da estranheza da relação de pai e filha distantes. Mas também pode significar que o Homem de Preto é um anfitrião (ou um híbrido) com falhar em sua programação. Ele abandona a filha no dia seguinte seja por obsessão pelo jogo, seja porque sua programação o impele a sempre estar por ali. Humano ou anfitrião, o Homem de Preto é o parque perfeito para Ed Harris mostrar seu talento.

Já havia fortes indícios de que Ford permanecia vivo de alguma forma – como, por exemplo, a capacidade de usar qualquer anfitrião para dar recados ao Homem de Preto… Ao se conectar ao Berço, Bernard confirma que seu velho chefe continua manipulando os destinos nos bastidores do parque.  Mas qual será seu plano?   Impedir a Delos de usar o parque para perpetuação das mentes dos ricos em corpos artificiais?  Libertar os anfitriões?  Esta última possibilidade é menos provável, já que Ford nunca teve grandes pudores de usar os anfitriões para alcançar seus planos.

A rima visual de Ford e Dolores tocando o mesmo piano, no mesmo ambiente, parece gritar uma relação direta entre criador e criatura. Ao lembrarmos-nos de uma cena da primeira temporada em que Ford pergunta se Dolores quer participar de uma nova narrativa mais grandiosa, parece claro que Dolores não alcançou a singularidade: continua sendo um peão nas mãos de Ford, que a leva diretamente a chocar-se com a Delos em La Mesa, sob a ilusão afetiva de estar indo buscar o “pai”.

Ainda sobre o Berço: sabemos que ele será ao menos parcialmente destruído por um incêndio (destino revelado nas cenas que se passam no presente). Cerca de um terço dos back ups será perdido. Será esse um plano de liberdade de cerca de 1/3 dos anfitriões?  Se Ford está no Berço, a destruição do local implicará na destruição de Ford?  Ou ele migrará sua consciência para outro sistema e/ou anfitrião?  Será possível que a consciência humana de posse de Bernard seja a de Ford? Anthony Hopkins blefará de novo e voltará à série de forma regular, ou esse gostinho de revê-lo é mais uma pista falsa dos criadores?

E o tal Phase Space?  Como sempre, o título do episódio nos faz aprender e refletir. Para compreender o conceito de “espaço de fase”, recorri ao razoável Aniello Greco (sonhem com ele!). Ele explicou que esse espaço de fase é um espaço que representa todos os estados possíveis de um sistema em um determinado espaço de tempo. Para ficar mais fácil visualizar, imaginemos um pêndulo. A partir de uma determinada posição do pêndulo, e de sua velocidade nessa posição, é possível calcular todas as posições e velocidades futuras que o pêndulo irá assumir. Ao montar um gráfico com todas essas posições e velocidades, temos um espaço de fase. Até aí fica fácil.

Mas em física quântica a coisa se complica, por causa do princípio da incerteza. Quanto mais precisa é a medida da posição, menos precisa é a medida da quantidade de movimento. Na quântica, se eu sei muito bem onde está uma partícula, sei muito mal onde ela vai parar. E se eu sei muito bem o seu movimento, não sei onde ela está. Não se pode prever com exatidão o estado futuro de um sistema por meio da quantidade de movimento e posição. Desta forma, o phase space em física quântica torna-se probabilístico, estatístico, e não determinístico.

E como isso se aplica a Westworld?  O que representaria um espaço que contenha todas as possibilidades de posição e velocidade?   A primeira metáfora mais óbvia é com o próprio Berço, onde se pode fazer simulações com as narrativas dos anfitriões ali mantidas em arquivo. Mas a melhor comparação talvez seja a com a própria série, na qual é praticamente impossível precisar o tempo, o espaço e as probabilidades de continuidade de cada um dos personagens. Quando entendemos a linha do tempo, algo sobre a identidade escapa; quando a série revela segredos, esconde em que tempo eles se localizam.  Westworld leva o princípio da incerteza a nossas telas.

 

 

por DG.Ducci

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