Westworld: Ep.2.5 – Akane no mai (resumo e crítica)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

QUINTO EPISÓDIO DA SEGUNDA TEMPORADA DE WESTWORLD

——— xxx ———-

As análises dos episódios anteriores podem ser encontradas aqui

Chegamos à metade da segunda temporada de Westworld. Ao contrário dos episódios anteriores, cheios de reviravoltas e com margens a diversas teorias, Akane no mai teve menos reviravoltas , um ritmo menos acelerado e serviu, sobretudo, para apresentar o Shogun World, parque da Delos do qual ficamos sabendo na primeira season finale da série.

À exceção de brevíssimas cenas na linha temporal do presente, nas quais Bernard (será Bernard? Bernardold?) observa a equipe de segurança da Delos começando a retomar o controle de Westworld, o episódio centrou-se em dois núcleos principais: Maeve e seus parceiros (Lee Sizemore, Hector, Armistice, Felix e Silvester) conhecem o cenário japonês, enquanto Dolores e Teddy revisitam Sweetwater e discutem a relação.

No presente, a Delos reúne corpos de anfitriões – inclusive o de Teddy – e avalia o que é possível reaproveitar depois do caos no parque. A ideia, segundo Karl Strand, é reprogramar os anfitriões para que eles voltem a obedecer aos humanos. Um problema é que, segundo Costa, cerca de 1/3 dos cérebros dos anfitriões encontrados está vazio – não como se estivessem sido apagados, mas como se nunca tivessem sido programados. Para piorar, os back ups foram perdidos em um incêndio no “berço”.

O mar onde foram encontradas dezenas (centenas?) de anfitriões afogados, no final do primeiro episódio da temporada, está sendo dragado (o quê certamente trará alguma surpresa ao final do processo). Há, igualmente, uma busca específica por Abernathy  – o que significa que, em algum momento entre a linha temporal de Dolores e esta a Delos não estará mais de posse do anfitrião “pai” de Dolores.

Por falar na loira mais famosa de Westworld, ela e Teddy chegam a Sweetwater e encontram praticamente toda a população morta. Há uma reflexão sobre aquele não ser de fato, um lar para o casal. Teddy diz que sempre voltava para lá, mas Dolores relembra que eles nasceram muito antes da cidade. Os homens de Dolores preparam o trem da cidade para partir para La Mesa no dia seguinte, com o objetivo de resgatar Abernathy.

Ao visitar o saloon onde Maeve trabalhava – o que gera uma rima interessante com o que acontece neste mesmo episódio, em Shogun World – o casal encontra uma anfitriã ainda presa no loop de narrativa que outrora era interpretado por Clementine – também presente na cena, e bastante emocionada. Claramente nem todos os anfitriões caminharam rumo à consciência.

Ao revisitar as pradarias onde tanto faziam planos, Teddy relembra que eles faziam planos para “um dia” fugirem juntos. Ele propõe novamente a Dolores que fujam juntos, ao que a anfitriã retruca com uma história sobre um rebanho doente.  Teddy diz que protegeria as vacas fracas e doentes, enquanto Dolores comenta que a decisão de seu pai foi a de queimá-las todas, para preservar o resto do rebanho. Quanto mais Teddy desperta para a consciência, mais parece que sua índole é bondosa, bastante diferente da violência e espírito de vingança presente em Dolores.

Em uma cena de bastante carinho, Dolores pergunta a Teddy se ele quer que ela aceite a proposta de fugir mesmo que o decepcione depois.  Ambos fazem amor – a primeira cena em que o sexo é usado em Westworld como demonstração de afeto, e não como parte da diversão dos visitantes.  No dia seguinte, Dolores reafirma seu sentimento por Teddy: ela questionara seus sentimentos nos últimos tempos, mas chegara à conclusão de que tratava-se de um amor real. Apesar dessa constatação, o episódio traz uma reviravolta:  Dolores afirma que o mundo para onde vão não é lugar para alguém como Teddy, e, com a ajuda de Phil (o técnico da Delos que recrutara no segundo episódio da temporada), reprograma à força seu “amado”.

No núcleo de Maeve, ela e seus companheiros encontram-se presos. Lee explica que o Shogun World foi criado para os visitantes que achavam o Westworld calmo demais. Maeve não parece ter, aqui, seu poder de controle sobre os outros anfitriões (o quê, posteriormente, é explicado por Lee como consequência do fato de ela não usar a língua japonesa nos comandos).  Mostrando a capacidade de sua mente liberta(?) e potencializada, Maeve “aprende” japonês instantaneamente.

Ao som de “Paint it, black”, dos Rolling Stones – mesma música usada na cena de apresentação de Hector Escaton, na primeira temporada, aqui em arranjo orientalizado – Maeve e os outros descobrem que há versões paralelas de suas narrativas no Shogun World. Como Lee alerta, as reações ao encontro com essas contrapartes são diversas: enquanto Hector desconfia de Musashi (e destaque-se aqui a presença do espetacular ator japonês Hiroyuki Sanada – de O Samurai do Entardecer, Solaris e The Wolverine), Armistice parece hipnozidada por Hanaryo, e Maeve estabelece uma conexão afetiva e até “mental” com Akane (Rinko Kikuchi, de O círculo de fogo e Babel), sua versão gueixa.

Akane tem uma protegida, Sakura, a quem trata como filha. O Shogun deseja que Sakura dance para ele e seja sua propriedade permanentemente. Ao recusar o pedido do Shogun, Akane dá início a um arco narrativo não criado ou previsto por Lee, que inclui ataques de ninjas e a invasão da cidade pelas tropas comandadas pelo Capitão Tanaka. Descobre-se que Musashi foi chefe da guarda do Shogun, mas agora age como ronin, um samurai sem mestre.

Durante o ataque dos ninjas, Maeve desenvolve um novo poder – vindo de uma suposta “nova voz”: controlar anfitriões apenas com comandos mentais, sem a necessidade de vocalizar as ordens (e é bom recordar que Robert Ford tinha essa mesma capacidade). Ainda assim, Sakura é capturada. Maeve e Akane traçam um plano para recuperar a menina e seguiram para um tal “Lago da Neve”. Lee explica que a partir desse lago eles poderão escapar de volta para o complexo da Delos. No caminho para a execução do plano, Lee pega, escondido de Maeve, algo como um controle, ou um minipad que se encontrava na vegetação.

Em meio a centenas de homens do Shogun, Maeve, Lee e Akane tentam se passar por um enviado chinês acompanhado de sua esposa e de sua tradutora. Há um momento em que aparentemente o anfitrião que interpreta o Shogun parece apresentar um defeito, em razão de vazamento de fluido cortical. Logo em seguida, entretanto, ele parece retomar o controle e revela que seus homens cortaram as orelhas, para não sofrerem a influência das ordens da “bruxa” Maeve.

Akane faz um acordo com o Shogun: ele afirma que, caso as duas dancem para ele, Sakura seria devolvida. Foi tatuada uma cerejeira (sakura, em japonês) nas costas da menina. Durante os preparativos, Akane conversa com Sakura sobre uma voz que sempre dizia “não”: não desobedeça, não levante a cabeça. Após atravessar o “mar brilhante” e chegar à terra onde vivem, ouviu a voz dizer que ela poderia ser quem quisesse na nova terra. Maeve é capaz de terminar a frase de Akane, o que revela ou um nível altíssimo de conexão entre as duas, ou a capacidade de ler pensamentos, ou o fato da frase já estar embutida em sua própria programação prévia. Maeve promete um novo mundo, um mundo com liberdade, para Akane, mas esta ainda resiste. Em um dos momentos de maior reflexão no episódio, Maeve diz que algumas coisas são realmente muito valiosas para se perder, mesmo em prol da liberdade.

 No momento em que Akane e Sakura se preparavam para dançar, o Shogun mata a menina. O que parece romper as últimas barreiras de Akane. Ao final de uma dança bela e intensa, ela mata o Shogun. Face à reação dos soldados, Maeve os comanda para matarem uns aos outros. Há muitos outros homens vindo atacar o grupo. Maeve empunha uma katana, como quem já fosse familiarizada com isso, e diz que agora que a possui, pretende usar sua “nova voz”.

——– xxx ——–

Após o show de direção de Lisa Joy no episódio anterior, Akane no mai teve uma estrutura mais tradicional. Se, em princípio, o diretor Craig Zobel – estreando na série – foi menos inventivo na condução do episódio, ao menos em vários momentos os fãs dos chanbara (“filmes de samurai”) puderam identificar referências a obras e diretores clássicos, como Masaki Kobayashi e Akira Kurosawa. A presença de atores japoneses renomados, e a escolha pelo uso da língua japonesa durante boa parte do episódio contribuíram para aclimatar personagens e audiência ao novo cenário da narrativa. Além disso, a escolha dos nomes dos personagens (“Musashi”, “Sakura”), se parece meio clichê, por outro lado evoca elementos conhecidos da cultura japonesa.  O desenho de produção manteve a competência e a qualidade de outros episódios, cumprindo com excelência um desafio completamente diferente dos exigidos pelos Westworld e pelo Indiaworld. Como nota negativa, algumas cenas ficaram um pouco escuras demais, prejudicando parcialmente a compreensão dos acontecimentos.

Até mesmo o título do episódio foi mais direto e menos enigmático. “Akane no mai” pode ser traduzido como “A dança de Akane”, ou “A dança vermelha”, ambos com significado muito claro para quem assistiu ao episódio. Atentemos apenas para o fato de que é estabelecida uma conexão muito direta entre a personagem título e Maeve, levando a um significado também ligado ao novo momento e às novas habilidades da personagem interpretada pro Thandie Newton.

No núcleo de Dolores, a principal percepção reforçada pelo episódio é a de que ela não está preocupada em liderar os anfitriões em busca da liberdade ou da tomada da consciência. Ela tem uma agenda própria (ou programada por Ford), e não há espaço para vozes dissidentes, mesmo que seja a de alguém por quem ela reconhece ter sentimentos verdadeiros. O fato de ela estar concentrada, neste momento, em recuperar Abernathy, deixa mais uma questão sobre a real liberdade de Dolores:  Abernathy é, ao mesmo tempo, o “pai” de Dolores em uma   determinada narrativa (das quais, supostamente, ela já deveria ter se libertado) e o repositório de informações atrás do qual a Delos mobiliza grandes esforços.  Estaria Dolores, portanto, sob as ordens de Ford (ou de outra pessoa) para disputar diretamente com a Delos a posse de dados (ou de toda uma identidade) fundamental para os rumos do futuro?  A “paternidade” de Abernathy não seria apenas uma capa motivacional para Dolores?

Ainda sobre paternidade… A cena em que Dolores e Teddy finalmente consumam sua relação em nível sexual lembra a abertura da primeira temporada, em que dois anfitriões fazem sexo. Na segunda temporada, a cena é substituída pela a de uma anfitriã com seu bebê. Teriam os anfitriões capacidade reprodutiva?  Ford teria dado um passo além no desenvolvimento dos anfitriões a ponto de capacitá-los a gerar vida?

Em Shogun World, a principal revelação do episódio é a de que existem histórias paralelas entre os parques. A geografia da cidade japonesa lembra a de Sweetwater. Embora não haja garantias de que possa se estabelecer uma correspondência perfeita entre anfitriões de parques diferentes, ao menos no caso de Maeve-Akane, Musashi-Hector e Armistice-Hanaryo essa conexão entre histórias ficou evidente. Partindo dessa ideia, a curiosidade se aguça: haveria uma versão de Dolores no cenário japonês, ou pela idade e pelo afeto de Ford pela anfitriã ele a teria conservado como única?  Se, em Shogun World, a filha da cortesã é morta pelo Shogun, e, em Westworld, a filha de Maeve é morta pelo Homem de Preto (que é o chefe, o “shogun” da Delos), os teóricos que defendem ser o velho William um anfitrião ganharam mais um argumento possível.

Aliás, para os cinéfilos que acompanham a série, o paralelo estabelecido entre um parque com histórias de samurais e um parque com histórias de cowboys é um colírio para os olhos. Os chanbara e os western sempre foram objetos de comparação na história do cinema: seus protagonistas, normalmente forasteiros calados e misteriosos, mas com um código de conduta rígido e próprio, que acabam alterando o cotidiano de uma pequena cidade, são as faces ocidental e oriental de narrativas correlatas. Não por acaso Os sete samurais (1954) foi adaptado como Sete Homens e um Destino (1960 e  2016, crítica aqui) e Por um punhado de dólares (1964, crítica aqui) é uma versão bangue-bangue de Yojimbo (1961). Todos grandes clássicos do cinema.

Intrigam também as alterações na narrativa do Shogun World . A aparição de ninjas na história, ou o assassinato do Shogun, podem tanto ser consequências naturais da redução do controle sobre os anfitriões quanto novos elementos já imaginados por Ford para sua nova narrativa, completamente desconhecidos por Lee.

Resta falar de Maeve, cujas habilidades crescem a cada episódio. Sua “nova voz”  pode ser a de Robert Ford em sua programação ou o resultado de um aperfeiçoamento da capacidade de estabelecer contato com outros anfitriões por meio da inteligência coletiva explicada por Bernard em episódios anteriores. Cabe lembrar que ela alterou a própria programação e maximizou todos os seus atributos ao final da temporada passada. Superinteligente, capaz de aprender novas línguas e habilidades instantaneamente e de controlar “mentalmente” outros anfitriões, estará a personagem ficando poderosa demais?  Lisa Joy e Jonathan Nolan terão de tomar cuidado com o desenrolar da série. Normalmente personagens assim podem gerar dificuldades e incoerências de roteiro.

 

por D.G.Ducci

Posts relacionados
  • 26 dez 2016
  • 0
Bem-vindos ao Café com Cinema! Nosso podcast onde iremos discutir as últimas notícias cinematográficas, além de falar dos resultados das bilheterias aqui do Brasil, comentar...
  • 2 jul 2018
  • 0
O último episódio da segunda temporada de Westworld fez, finalmente, suas duas linhas temporais principais se fecharem. Muitos arcos da trama foram concluídos (ao menos...
  • 14 fev 2017
  • 0
  O Instuituto Sundance publicou o vídeo oficial com a síntese dos 10 dias do Festival de Sundance 2017.Neste ano, o Festival reuniu grande figuras...