Westworld: Ep.2.4 – The Riddle of the Sphinx (resumo e crítica)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

QUARTO EPISÓDIO DA SEGUNDA TEMPORADA DE WESTWORLD

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As análises dos episódios anteriores podem ser encontradas aqui

Quando, logo na abertura do episódio, li que Lisa Joy, uma das roteiristas da série (junto a seu marido Jonathan Nolan) era a diretora da vez, imaginei que seria um episódio-chave na temporada. De fato, tanto em estrutura quanto em conteúdo, The Riddle of the Sphinx (O Enigma da Esfinge) trouxe grandes revelações.

O episódio se inicia em um quarto com ares de decoração moderna-futurista da década de 1970 (possível homenagem ao filme original que inspirou a série). Ao som de “Play With Fire”, dos Rolling Stones e “Do the strand“, da banda expoente do glam rock Roxy Music, descobrimos que James Delos, o patriarca da empresa que controla o parque, aguarda algum tipo de tratamento. Ao mesmo tempo em que ele demonstra vigor na ergométrica, seu controle fino de movimentos – como colocar lei em uma xícara – parece prejudicado. Sua mão treme, sem firmeza. Ele recebe a visita do genro William, ainda jovem, que tem um diálogo sobre o tal tratamento. A linha temporal, portanto, revela-se a de cerca de 30 anos atrás. Descobrimos que a ideia é transferir a mente de James Delos para um corpo artificial. Ao final do diálogo, William entrega um papel a James Delos, que não é revelado à audiência. A cena dá a entender, em princípio, que nosso jovem Homem-já-de-Preto tem dois motivos para não completar o processo: James ainda não estaria pronto, e o próprio William não parece interessado em deixar o comando da empresa.

Ao longo do episódio, temos mais duas cenas que estabelecem rimas com essa primeira: na segunda cena, James Delos parece fisicamente mais adaptado, conseguindo colocar perfeitamente o leite na xícara. William volta a visitá-lo, um pouco mais velho, e provoca exatamente o mesmo diálogo da cena anterior. Entretanto, ao final, o espectador fica sabendo o que havia no papel da cena original, aqui novamente presente: William já sabe quais as reações e frases de James. Descobrimos, assim, que a mente de James Delos já habitava um corpo artificial (desde a primeira cena, inclusive), e que o quarto em que está preso localiza-se em um dos laboratórios da empresa. A mente de James Delos parece, entretanto, rejeitar o novo corpo. Após um “platô cognitivo”, ela se desestabiliza, impedindo que esse novo ser, humano e artificial ao mesmo tempo, permaneça estável.

Na terceira cena, a surpresa para os espectadores é a de que William aparece já mais velho, em uma linha temporal próxima do presente. Décadas se passaram, e o máximo de estabilidade alcançada, após 149 tentativas, foi a de 35 dias. William revela a James os destinos de seus entes queridos: sua esposa morreu de derrame, e seu filho Logan, de overdose, há alguns nos.  Sua filha, Juliet, suicidou-se. William parece arrependido de ter iniciado aquele projeto, uma vez que James Delos é um canalha. Ele decide não reiniciar a próxima tentativa de estabilizar uma mente humana em um corpo sintético e decide deixar James Delos deteriorar-se, preso.

Após a batalha no Forte da Esperança Perdida – na linha temporal de cerca de duas semanas no passado – Clementine leva Bernard até a entrada de uma caverna. Lá, ele descobre que Elsie continua viva, e os espectadores da série confirmam que foi ele próprio quem a atacou na temporada anterior e é responsável por sua prisão. Ele teria feito isso a mando de Ford, uma vez que Elsie já sabia descobrira demais sobre os planos do cocriador dos anfitriões. O corpo de Bernard começa a apresentar falhas críticas, por necessidade de fluido de córtex cerebral – pra surpresa de Elsie, que não sabia ser Bernard um anfitrião. Após ser por ela temporariamente estabilizado, Bernard se lembra que existe uma passagem secreta para um laboratório abaixo daquela caverna – e infere que Ford teria comandado Clementine a deixá-lo ali. Elsie e Bernard descobrem então o laboratório 12, que possui, na porta do elevador, o mesmo símbolo presente no caderno de Grace e no sistema de Abernathy, ambas as cenas mostradas no episódio anterior. Convém lembrar que o laboratório visitado por Hale e Bernard, na linha temporal do presente, no primeiro episódio da segunda temporada, era o de número 14 – o que implica a existência de uma rede de laboratórios dedicados a esse projeto secreto da Delos. Houve alguma espécie de conflito no laboratório 12: há vidros quebrados, uma tela de console rachada, além de técnicos e anfitriões-drones mortos.

Elsie injeta uma boa quantidade de fluido de córtex cerebral e Bernard se recupera. Ela explica que ele sofreu um dano cerebral extenso, e que sua dificuldade de se localizar no tempo decorre disso.  Elsie atira em um drone que ali aparece. Bernard atualiza Elsie sobre a morte de Ford e sobre o “novo jogo”, após a rebelião dos anfitriões do parque.  Bernard reconhece, em um terminal do laboratório 12, uma programação semelhante àquela que ele encontrara em Abernathy no Forte.

Eles descobrem e arrombam uma parte do laboratório, e descobrem nada menos que o quarto-prisão de James Delos. A área está completamente destruída, o técnico responsável por monitorá-lo está morto, mas o patriarca da empresa resiste, após todo esse tempo, em seu corpo artificial.  Sua mente, entretanto, parece perturbada, dizendo que “já desceu tudo agora”, e falando sobre a existência apenas do diabo, e sem um “pai acima”. Após uma briga entre Bernard e James (em que testemunhamos que, apesar de seu comportamento inseguro, Bernard é fisicamente bastante forte), Elsie destrói o quarto-prisão de James, e, com ele (imagina-se), seu habitante.

Bernard acha que Ford o enviara ali anteriormente, e que, naquele local, estava sendo construído algo que não eram exatamente anfitriões, nem humanos. A linguagem utilizada era diferente daquela usada em anfitriões comuns. Ao longo do episódio, a oscilação de memória de Bernard o faz lembrar que já esteve naquele laboratório. Foi ele quem ordenou a morte dos técnicos humanos e a autodestruição dos drones anfitriões – ação que, aparentemente, tinha como objetivo uma queima de arquivo, eliminando todos os que sabiam sobre o projeto do laboratório. Os cadáveres e vidros quebrados foram resultados desse momento. Há uma espécie de esfera vermelha sendo criada no laboratório (talvez uma consciência humana) a ser transferida para um corpo androide?), que certamente ganhará mais importância em episódios futuros.

Elsie afirma que tem de ir até a Mesa, tentar fazer contato com o continente. Bernard apela por um novo voto de confiança de Elsie, dizendo que não é mais controlado por Ford e que toma suas decisões por si mesmo agora.  Ele diz se lembrar que deveria imprimir uma unidade de segurança (um corpo artificial, tal como o de James Delos) para outro humano, mas não consegue se lembrar quem é.  Elsie o faz prometer que não mentirá e que não mais a machucará. Para o espectador, fica a impressão de que há algo muito estranho em Bernard, e que essas promessas não serão necessariamente cumpridas…

A continuidade da história do Homem de Preto foi o terceiro foco do episódio.  Ele e Lawrence passam por uma estrada-de-ferro sendo construída em que humanos (e anfitriões?) estão sendo mortos e usados como dormentes para o trilho do trem. O Homem de Preto comenta que o trilho está levando oeste, e não para norte, destino original. Eles retornam à vila onde mora a Las Mudas, família de Lawrence, que aparenta estar vazia. Logo são rendidos pelo Major Craddock e seus confederados, e descobrem que a pequena população foi presa na igreja da cidade.

Os confederados querem comida, munição e uísque para poderem seguir viagem para Glory. Em uma conversa, Lawrence menciona a filha do Homem de Preto, que estranha o fato de o anfitrião saber sobre isso. Fica claro que a filha e ele não têm uma boa relação, uma vez que o Homem de Preto comenta que a filha gostaria de vê-lo executado. Por informações de outros episódios, deduzimos que ela o culpa pela morte da mãe. Embora traia Lawrence para conseguir fazer um acordo com Craddock (e deixar o anfitrião intrigado ao afirmar saber sobre Glory), o Homem de Preto acaba salvando seu parceiro de jornada e a família, após um curto flashback sobre o suicídio de Juliet, sua esposa. Os confederados são mortos e Lawrence dá cabo do Major Craddock.

Apoiado por Lawrence e alguns “primos” deste, o Homem de Preto parte para Glory – local conhecido por muitos nomes, como ouvimos novamente. Antes da partida do grupo, a filha de Lawrence empresta seu corpo para um diálogo entre o Homem de Preto e Robert Ford. Este afirma que “olhar pra frente é olhar na direção errada”, e que um ato de bondade não é suficiente para apagar o passado de maldades do Homem de Preto. O velho William responde que não se tratou de um ato de bondade, mas de participar do jogo. Mas os espectadores sabem que o coração do Homem de Preto deu uma amolecida…

O episódio termina com o retorno da personagem apresentada no Raja-IndiaWorld do episódio passado. Após tornar-se prisioneira da tribo da Nação Fantasma e encontrar Sutbbs, chefe da segurança de Westworld, Grace descobre que a tribo tem matado anfitriões, mas poupado humanos. Ela consegue escapar da tribo e encontram, em meio a uma pradaria, o Homem de Preto… seu pai!

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O quarto episódio da segunda temporada de Westworld trouxe mais revelações sobre a trama e o passado dos personagens do que um grande número de acontecimentos. Em primeiro lugar, destaca-se a excelente estreia de Lisa Joy na direção (seu primeiro trabalho oficial como diretora). O esmero visual e narrativo de The Riddle of the Sphinx é um dos de nível mais alto na série.  Como exemplo, temos o início do episódio, que traz movimentos circulares tanto do disco de vinil, quanto do pedal da bicicleta e do próprio ambiente arredondado, captado por uma câmera que o circunda. Levando em consideração que aquele é um ambiente em que testemunharemos um ciclo de tentativas de estabilizar a mente de James Delos no corpo artificial, a escolha de movimentação foi mais do que apropriada. Há, ainda, no episódio, rimas visuais, como, por exemplo, entre o leite sendo despejado na xícara e o sangue que cai sobre o líquido branco no laboratório secreto 12. A iluminação avermelhada do quarto de James Delos mais para o fim do episódio, enquanto ele faz metáforas sobre o inferno e do diabo, também encaixou-se perfeitamente. Os flashbacks, tão tradicionais na série, aqui são usados de forma pontual, e servem para informar personagem e espectador, na cena da lembrança do Homem de Preto sobre sua esposa e, sobretudo, em várias cenas com Bernard.

A questão da memória oscilante de Bernard, ao mesmo tempo em que se encaixa no momento do personagem, serve de ferramenta narrativa para que os autores revelem informações apenas no momento conveniente. Fica a torcida para que esse recurso não seja usado abusivamente pelos escritores, a ponto de se tornar uma conveniência exagerada.

Com o passar dos episódios, vai ficando claro que o Bernard da linha temporal de duas semanas atrás não exatamente o mesmo que desperta na praia no presente, a começar pela inexistência da cicatriz na têmpora. Será que foi necessário utilizar um novo corpo anfitrião para Bernard, em virtude do problema recorrente com o fluido de córtex cerebral?  Ou teremos uma revelação mais complexa sobre ele?  Os tremores em sua mão são bastante semelhantes aos sintomas apresentados por James Delos…

Ainda antes do meio da temporada, a série já confirma várias teorias que vinham sendo especuladas: os parques da Delos servem apenas de fachada para um empreendimento muito mais ousado e perigoso: a coleta de DNA humano e a tentativa de transferir a mente humana para um corpo artificial, numa busca por imortalidade.  Outra especulação é de que a Delos poderia substituir a elite humana (a única com condições financeiras para frequentar os parques) por cópias, com o objetivo de dominar as decisões mundiais. Este episódio, entretanto, dá a entender que a Delos não alcançou esse nível de tecnologia ainda, a julgar pelo experimento falho com James Delos.

Isso não significa que Ford e Arnold/Bernard não tenham avançado mais nas pesquisas e conseguido fazer a transferência com sucesso. Não seria surpresa ver Anthony Hopkins voltar à série: embora esta temporada tenha feito questão de mostrar que aquele  corpo de Robert Ford morreu e apodreceu, nada impede que sua mente permaneça em atividade – aliás, as interlocuções dele com o Homem de Preto quase garantem isso – e ele retorne em um corpo imortal ao final do “jogo”. Bernard também especula sobre Ford ter comandado Clementine. Seria possível?

Outra teoria que rapidamente foi confirmada é a de que Grace (ou seria Emily) é mesmo filha do Homem de Preto. Dado o relacionamento ruim entre os dois, e o fato de ela estar no parque em busca dos laboratórios secretos (lembremos que ela tinha o símbolo dos laboratórios desenhado em seu caderno), será interessante acompanhar os próximos passos dessa interação. Será que ela busca no parque a memória da mãe morta, para revivê-la em um corpo artificial?  A menção ao poço de Lázaro, feita por Ford na temporada anterior, certamente não estava presente nas cenas passadas, ao início do episódio, por acaso.

Com tantas teorias sendo confirmadas tão cedo na temporada, restam duas possibilidades: ou os fãs estão conseguindo antecipar muitas decisões dos roteiristas (o que pode deixar a série um pouco sem graça no médio prazo) ou, mais provável, os criadores estão revelando exatamente o que querem, como desvios de atenção para algo bem mais grandioso e inesperado.

A qual enigma da Esfinge se refere o título do episódio?  Na mitologia grega (mais precisamente em Édipo Rei, peça de Sófocles), a Esfinge propõe ao personagem título, às portas de Tebas, um enigma. Caso ele não acertasse a resposta, seria devorado pelo ser mitológico. O enigma era o seguinte: “Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?”. A resposta certeira de Édipo é de que se trata do homem, que engatinha na infância, caminha em duas pernas na vida adulta e com a ajuda de uma bengala na velhice. O homem, portanto, é a resposta para o enigma de Westworld.

De fato, a série continua a lançar reflexões sobre identidade e humanidade. O “clone” de James Delos pode ser considerado o próprio James Delos?  Um humano cuja mente seja transferida para um corpo artificial ainda será o mesmo humano?  O que define uma pessoa são suas memórias?   Sua linguagem ? – reparem que um dos primeiros sintomas da desestabilização de James Delos é seu problema em se expressar.

E quanto a Bernard?  Ainda estará sobre controle de Ford?   Quais os planos (ou instruções) que ele tem a partir de agora? Seus sintomas de desestabilização, com a mão direita tremendo, remete aos mesmos sintomas apresentados por James Delos. Seria esse Bernard não um anfitrião “puro”, mas a mente transferida de Arnold para um corpo artificial?  Na temporada passada vimos que Ford tem amplo controle sobre as funções motoras de Bernard, o que indicaria ser ele um anfitrião normal. Mas em Westworld nunca se pode ter certeza. Temos, ainda, que os padrões de programação de Abernathy são os mesmos do laboratório 12. Isso significa que o pai de Dolores armazena uma consciência humana por baixo de seus personagens?  De quem seria essa consciência, e por que ela interessaria tanto à Delos?

Uma outra discussão que parece se fazer cada vez mais presente em Westworld tem a ver com a moral. Vemos o Homem de Preto – que não é exatamente um exemplo de boa gente – acusar James Delos de ser um canalha e de, portanto, não merecer a imortalidade. Uma de suas últimas frases na cena (“Some men are better off dead” (algo como “É melhor deixar alguns homens morrerem”)  espelha algo muito parecido, dito por Dolores, no episódio passado (“nem todos de nós merecem viver“). Pode ser apenas uma rima elegante dos escritores da série, mas pode significar também que as histórias de William e Dolores estão mais ligadas do que aparentam, e são faces diferentes de uma mesma busca pela humanidade (entendida, no caso dela, como liberdade de decisões e controle das ações, e, no caso dele, como empatia e retorno a um certo grau de ética e inocência perdida).  Essa discussão sobre merecer viver aparece, ainda, em uma fala de Lawrence, que comenta que ele e o Homem de Preto não são homens que mereçam viver.

Relacionado a isso, a série abusa da imagética religiosa: o discurso de Craddock é feito em uma igreja, ao pés de uma imagem de Cristo; há citação ao Lázaro bíblico e à eventual existência de deus e do diabo (ou apenas deste último, segundo James Delos).  Seriam os humanos os deuses dos anfitriões?  E a rebelião das criaturas, após alcançar o conhecimento, espelharia a narrativa do ser humano perdendo a inocência e sendo condenado ao sofrimento?  Nessa grande metáfora, o que representariam os híbridos de anfitriões e humanos que a Delos procura criar (se é que já não conseguiu…). Como toda boa ficção científica, embora use como camada mais óbvia de sua narrativa a relação do homem com a tecnologia, Westworld trata de temas que são bastante humanos (e, agora, pós-humanos).

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