Westworld: Episódio 2.3 – Virtù e Fortuna (resumo e análise)

 

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

TERCEIRO EPISÓDIO DA SEGUNDA TEMPORADA DE WESTWORLD

 ——— xxx ———-

As críticas dos episódios anteriores da série podem ser encontradas aqui.

 O episódio desta semana de Westworld foi recheado de ação e teve menos saltos em linhas temporais do que os anteriores. É daquele tipo de episódio mais focado em dar andamento às tramas e revelar novos cenários do que propor reflexões profundas – ainda que seja impossível nesta série escapar totalmente das provocações sobre identidade, liberdade e humanismo feitas pelos roteiristas.

   

Por alguns momentos no início do episódio, chega-se a pensar que a HBO começou a transmitir a série errada: a história se inicia em cenário na Índia colonial britânica, com novos personagens que nunca apareceram até o momento. Como o espectador de Westworld já está calejado, logo vem a desconfiança de que se trata de um dos seis parques temáticos administrados pela Delos.

Ao som de uma surreal versão de “Seven Nation Army” com arranjo para cítara, conhecemos Grace (personagem não batizada no episódio, vivida pela atriz holandesa Katja Herbers), que, após um teste bastante radical sobre a humanidade de outro visitante do parque, vê-se em meio à revolta dos anfitriões – e aqui se tem a confirmação de que o fenômeno ultrapassou os limites do cenário western. Atacada por um dos anfitriões, ela escapa até chegar às margens de um mar, onde um tigre pula sobre ela e ambos caem nas águas. Mais para o final do episódio, descobrimos que ela sobreviveu ao ataque do animal e à queda. Confirma-se, ainda, que essa grande porção de água é a mesma encontrada por Bernard e os homens da Delos no primeiro episódio da temporada.

Um detalhe interessante é o de que, antes das coisas começarem a dar errado em “Indiaworld“, é mostrado que Grace tem um caderno com um mapa. Não parece ser apenas uma visitante qualquer do parque: ela tem algum propósito específico. Sua vida, entretanto, não deve ser muito fácil, agora que foi encontrada pela tribo da Ghost Nation em Westworld...

A linha temporal mais avançada mostra os seguranças da Delos, provavelmente após os acontecimentos do final do episódio um desta temporada, reunindo-se a Charlotte Hale, que questiona Bernard sobre o paradeiro de Abernathy. A partir daí, temos um flashback que dura praticamente até o final do episódio.

Bernard e Hale procuram por Abernathy, em um momento no tempo que se passa após a visita ao laboratório secreto da Delos, mostrado também no primeiro episódio da temporada. Eles o encontram prisioneiro de Rebus e de outros pistoleiros. Vale lembrar que, no primeiríssimo episódio de Westworld, é Rebus quem mata Abernathy.  Além deste, visitantes humanos do parque também são mantidos cativos. Os pistoleiros aguardam os Confederados para negociar os prisioneiros, mas uma boa jogada de Hale e Bernard reprograma Rebus como um herói virtuoso – o que demonstra que ainda é possível controlar pelo menos alguns anfitriões. Rebus solta parte dos prisioneiros, mas tanto Abernathy quanto Bernard caem nas mãos dos Confederados, enquanto Hale conseguem fugir.

Dolores e seu grupo de Confederados, reunidos no episódio anterior, chegam ao Forte da Esperança Perdida. Apresentando-se como Wyatt, Dolores volta a demonstrar sua força e liderança. Consegue um acordo com o Coronel Brigham em troca de armas poderosas no arsenal da Delos, e prepara um plano para derrotar os homens da segurança da empresa.

Chegam ao Forte os novos prisioneiros dos Confederados. Entre eles, Dolores reconhece Abernathy, anfitrião que viveu seu pai na narrativa de Sweetwater até começar a apresentar defeitos. Ela troca olhares significativos com Bernard, mas, em princípio, não interage com ele. Ao perceber que Abernathy, embora a identifique como filha, está completamente desregulado, ela convoca Bernard para consertá-lo. O encontro dos dois traz novos diálogos sobre identidade: enquanto ele diz que recebeu um personagem e um papel a cumprir, ela comenta que sua vida foi ditada por outra pessoa, mas que agora descobriu a própria voz.  Não é mais um mundo de instruções a serem seguidas, mas de possibilidades.

Dolores provoca Bernard ao dizer que ele que já esteve fora do parque, no mundo real, que ela pretende dominar, enquanto ele pouco sabe sobre quem é e sobre o homem no qual foi baseado. Bernard pondera que “este mundo é um grão de poeira em cima de outro muito maior”, e que não seria possível, portanto, dominá-lo.  Dolores explica que o mundo real é um mundo dominado pela sobrevivência e que os anfitriões, uma espécie que não conhece a morte, também luta para sobreviver.

Ao verificar as condições de Abernathy, Bernard identifica que ele encontra-se muito instável, saltando entre personagens programados anteriormente. Aparentemente, alguém deve ter programado um personagem superficial, que mascara um arquivo muito maior e fortemente encriptado – muito possivelmente a razão pela qual a Delos quer tanto recuperar o “pai” de Dolores. A anfitriã parece disposta a enfrentar a empresa, enquanto Abernathy repete insistentemente que “precisa chegar ao trem”.

Os seguranças da Delos, reunidos por Hale, não tardam a atacar o Forte. Munidos de poderosa munição, eles avançam em direção aos anfitriões rebelados. Os Confederados são usados por Dolores para atrair os homens da Delos até bem próximo das barricadas, que são, na verdade, grandes depósitos de nitroglicerina. Os homens da Delos, bem como os aliados de Dolores, massacram os Confederados, mas são vítimas da explosão da nitroglicerina, causando uma grande quantidade de mortos de ambos os lados. A vitória de Dolores não é completa porque, durante a ação, a Delos consegue recuperar Abernathy.

No Forte, reencontramos também Clementine, anfitriã desativada na temporada anterior. Primeiro, ela aparece carregando o empregado humano do parque torturado no episódio anterior. Depois, ela previne a fuga de Bernard – que havia conseguido acessar o segredo oculto em Abernathy – em meio à confusão da batalha.

Acusada de traidora pelo Major Craddock, Dolores, a quem ele jura vingança, afirma que “nem todos merecem viver”, ecoando uma frase dita por ela própria no primeiro episódio desta temporada ao matar um membro da Ghost Nation.

Segue-se outra cena que pode significar um ponto de inflexão para a série. Craddock acusa Teddy de ser patético e seguir uma megera sem pensar.  Instruído a matar o Major e os prisioneiros restantes, Teddy não é capaz de disparar o gatinho e os liberta, para aparente decepção de Dolores. Termos aqui um ponto de mudança para Teddy?  Sua “voz interna”, seu novo livre arbítrio, o terá impedido de matar alguém a sangue frio?  Como isso afetará sua interação com sua amada Dolores, que parece bem mais disposta à violência?

Enquanto isso, Maeve prossegue sua saga em busca da “filha”, acompanhada por Hector e por Lee. Em um encontro com os nativos da Ghost Nation, descobrimos que eles estão caçando humanos, e, mais importante, que o poder de controle de Maeve sobre anfitriões não os afeta.

É bastante irônico ouvir o líder dos “índios” declarar que os humanos “não têm lugar no Novo Mundo”, algo que remete dolorosamente, de forma invertida à história colonial dos Estados Unidos.

Após escapar de seus perseguidores, o trio segue pelos corredores internos do complexo de parques. Ali, uma cena é bastante significativa: questionado por Lee sobre o desvio de sua programação, que previa um homem solitário e eternamente apaixonado por uma Isabella, Hector reage dizendo que aquilo não era real, mas seu amor por Maeve sim. Entretanto, as frases usadas por Hector são conhecidas por Lee – já que ele próprio as escreveu.  Fica a grande dúvida sobre o quanto os anfitriões de fato alcançaram a singularidade ou existe uma limitação, inclusive linguística, que os permite apenas variar comportamentos, mas dentro de certos padrões.

Após reencontrarem Silvester, Felix  e Armistice – que, pelo visto, andou matando seguranças da Delos desde a última vez que a vimos, o grupo se depara com uma nova paisagem, onde neva. Lee arrisca que eles se encontram em um narrativa em Klondike, região do Canadá. Entretanto, ao desenterrar a cabeça de um samurai enterrada na neve, ele – e nós, espectadores – descobre que estamos em Shogunworld !

——————————————–

Se, na semana passada, a série mostrou aos espectadores o mundo exterior aos parques, desta fomos brindados com dois novos mundos: a imensa diversidade de cenários – e, consequentemente, de anfitriões com narrativas e graus de singularidade diferentes oferece um fôlego enorme para a série.  Mais um arco se abre, com a presença de Grace e sua busca ainda misteriosa.

Os títulos dos episódios de Westworld são sempre sugestivos. O terceiro episódio da segunda temporada foi batizado de Virtù e Fortuna, conceitos extraídos do pensamento de Nicolau Maquiavel, autor da obra seminal “O Príncipe”, e que significam, de forma bastante simplificada, livre-arbítrio e destino.  Para os anfitriões, que atravessam justamente uma fase de afirmação perante a nova realidade que se lhes apresenta, a virtù e a fortuna representariam, respectivamente, a capacidade de usar o próprio pensamento (a “voz interior” a que se refere Dolores) para tomar suas decisões. Já a fortuna estaria associado ao que não se pode evitar, a algo que chamamos às vezes de “sorte”.

Além disso, Maquiavel nos ensina que, uma vez tomada uma decisão, as pessoas têm dificuldades de adaptar-se aos novos contextos e situações apresentadas pelo destino. Isso nos faz pensar na questão entre liberdade versus programação no caso dos anfitriões. Seriam eles de fato capazes de alterar seu destino e de tomar decisões – ou seja, capazes de virtù ?  Ou seu destino já está traçado nas mãos das narrativas de Ford?

Os acadêmicos têm, em Westworld, um vasto material de estudo e reflexão. No século XX, por exemplo Ludwig Wittgenstein e outros filósofos discutiram a importância que a linguagem possui na percepção e representação do mundo. As crianças não seriam capazes de pensamentos mais complexos porque, além de não terem seus cérebros totalmente amadurecidos, careciam do próprio arcabouço de linguagem para expressar esse tipo de percepção.  As línguas do mundo influenciariam a percepção de mundo de seus falantes – e não é à toa que o alemão e suas estruturas complexas é considerada a língua mais favorável à filosofia.

Mas o que isso tem a ver com Westworld?  Tudo!  A capacidade dos anfitriões de se adaptar às novas situações e a suas novas narrativas pessoais está relacionada com a capacidade de expandir as relações linguísticas que são capazes de fazer. Do contrário, apenas repetirão frases programadas, com pequenas variações, em contextos parecidos. Tal qual uma criança, que começa repetindo as poucas palavras que sabem, os anfitriões também poderão evoluir em seu “vocabulário” linguístico e comportamental.

Temos algumas novas variáveis na trama: além da entrada da personagem Grace, temos Rebus que, reprogramado como um homem virtuoso, pode crescer e se tornar um herói meio torto em suas ações pelo parque; Craddock agora ganha uma narrativa forte, ao querer vingança pela traição de Dolores; Teddy começa a tomar mais (ou menos?) rédea das próprias ações.

A série mostra que pode ser interessante e ampliar suas possibilidades, sem depender apenas do tradicional jogo entre linhas temporais – que, como eu afirmei na crítica do primeiro episódio, pode cansar e ficar manjado demais.  Para além de um embate de humanos versus anfitriões, a série lança sementes de discórdia entre os próprios seres artificiais. Alternando entre o foco em sagas e questões pessoais e a grande narrativa por trás dos objetivos da Delos, Westworld soube a hora certa de acelerar um pouco a história.

 

por D.G.Ducci

Posts relacionados
  • 22 mar 2016
  • 0
Gênero: Drama Direção: Kornél Mundruczó Roteiro: Kata Wéber, Kornél Mundruczó, Viktória Petrányi Elenco: Gergely Bánki, Lili Horváth, Lili Monori, Sándor Zsótér, Szabolcs Thuróczy, Tamás Polgár, Zsófia Psotta Produção: Eszter Gyárfás,...
  • 31 jan 2017
  • 3
Esta é a primeira edição da lista dos piores filmes que faremos mês a mês… Vi 24 lançamentos e infelizmente o ano mal começou e...
  • 11 fev 2017
  • 0
  Eu Não Sou Seu Negro concorre ao Oscar de melhor documentário. Gênero: Documentário Direção: Raoul Peck Roteiro: James Baldwin, Raoul Peck Elenco: Dick Cavett, James Baldwin, Samuel...