Westworld – Episódio 2.2 – Reunion

Se o primeiro episódio da segunda temporada foi um pouco mais morno e tratou de apresentar os novos tabuleiros e novas regras da série, Reunion, o segundo episódio, teve um ritmo mais firme e já trouxe revelações sobre o passado dos personagens.

O episódio se inicia com Arnold despertando Dolores, algo recorrente na série. Desta vez, entretanto, esse começo já manjado surpreende o espectador, pelo local onde ocorre: em vez dos laboratórios do parque, os dois estão no mundo “real”, fora de Westworld.  Arnold mostra uma cidade (possivelmente no oriente, a julgar por um luminoso visto na rua). Dolores expressa seu deslumbramento pela cidade, em uma postura semelhante à que conhecemos no início da primeira temporada, em que ela diz preferir ver a beleza do que a feiúra das coisas. Arnold afirma que é melhor ver o mundo pelos olhos dela – frase que demonstra toda a paixão do criador por sua criatura. Destaque para a excelente interpretação de Evan Rachel Wood: temos uma Dolores de movimento ligeiramente mais robotizados e com expressão ingênua, como caberia a seu personagem naquela época. 

Arnold mostra sua futura casa a Dolores, e menciona que ela e seu filho Charlie têm muito em comum.  Essa frase evoca a relação de figura paterna de Arnold estabelecida na primeira temporada. O que Charlie e Dolores têm em comum?  A visão pura e ingênua do mundo, que permite o fascínio perdido pelos adultos. Dolores, naquele, momento, é, tal como Charlie, um criança, que ainda não está preparada – talvez um dos motivos que levam Robert Ford a decidir usar  “a outra garota” para deslumbrar alguém.

Logo entendemos do que se trata. Essas cenas acontecem em uma linha temporal anterior ao passado da primeira temporada. A Delos ainda não havia decidido ainda investir em Westworld, e, para convencer Logan Delos, filho do dono da empresa, a Iniciativa Argos marca um encontro com ele. Logan encontra-se com Akecheta, representante da Argos, acompanhado de uma mulher – ninguém menos que Angela, a anfitriã que conhecemos como recepcionista do parque no segundo episódio da primeira temporada. Curiosamente, William, ainda jovem e comportado, decide não participar da reunião, o que faz com que ele não se encontre com Angela. É curioso lembrar que, ao chegar em Westworld pela primeira vez, William fica em dúvida se Angela é ou não artificial.

O encontro da Argos com a Delos leva a um dos momentos mais memoráveis da série. Levado a uma recepção, Logan descobre que todos ali são anfitriões sem que ele tivesse percebido – e temos até Clementine, da primeira temporada, fazendo uma ponta como pianista. O nível daquela tecnologia deixa Logan embasbacado. Como dissera Akecheta: corrida pelo mundo virtual não interessa tanto quanto aquele projeto de um mundo tangível.

Ainda em flashback – mas em um linha temporal posterior aos acontecimentos do passado da primeira temporada -, matamos saudade da narrativa básica em que Teddy e Dolores se encontram, vista no primeiro episódio da série. A cena é interrompida, entretanto, e revela que se trata de uma visita de William e do patriarca Delos. Nosso homem de preto convence seu sogro a investir no parque, argumentando que não se trata apenas de um local de diversão, mas de uma oportunidade de ver as pessoas – os visitantes – como elas realmente são.

Nessa mesma linha temporal, encontramos Dolores tocando em uma festa da Delos. Ali já temos um William mais resoluto, ganhador da confiança e sucessor natural do patriarca da empresa, seu sogro. A troca de olhares entre William e Dolores dá a entender que esta última o reconhece, de certa forma. Logan já aparece como perdedor e drogado, mas, ao mesmo tempo, com a capacidade de antever o perigoso futuro. Em conversa com Dolores, a quem reconhece, afirma que “os tolos celebram enquanto toda a espécie começa a queimar, e eles mesmo acenderam o pavio”.

Na última cena dessa linha temporal, Dolores é despertada por William, já nos laboratórios do parque. Ele reflete sobre o fato de ter se apaixonado por uma “coisa”, mas pondera que, na verdade, Dolores o fez se interessar por si mesmo. Dolores seria apenas um reflexo desse interesse. William pretende usar os anfitriões para oferecer essa possibilidade aos visitantes do parque, uma vez que “todo mundo” adora olhar para o próprio reflexo. Nosso jovem Homem de Preto confessa, entretanto, que há algo além disso, e leva Dolores para assistir à construção de algum local nas dependências do parque.

De volta ao momento da história que se segue à revolução dos anfitriões, o Homem de Preto salva Lawrence da morte e o recruta como aliado. A grande frase da cena é a de que “morrer não é mais como antes”. Em diálogo entre dos dois sobre o novo contexto do jogo, são feitas interessantes metáforas sobre Deus e religição: Westworld é um lugar “escondido de Deus onde se pode pecar em paz”. Sabemos que, dado o nível de controle do parque e os interesses obscuros da Delos, essa afirmação não é totalmente verdadeira. Como o maior investidor no parque, o Homem de Preto é uma espécie de deus de Lawrence.  Os dois seguem para o que chamam de “Local de Julgamento”. No caminham, passam por Pariah, vilarejo já conhecido da primeira temporada, em que El Lazo (papel que já fora interpretado pelo próprio Lawrence) é o bandido todo-poderoso.  Aqui, o episódio traz mais uma cena sensacional: quando o Homem de Preto está prestes a conseguir recrutar os homens de El Lazo para apoiá-lo, descobre que uma das regras deixadas por Ford é a de que ele deve jogar o jogo sozinho. Os anfitriões se matam, para grande frustração do Homem de Preto.

Quanto a Dolores e Teddy, eles  invadem uma área de manutenção do parque ao perseguirem um convidado fugitivo. Seu diálogo com o humano reforça o que já tinha ficado expresso no primeiro episódio: as regras mudaram, e são os anfitriões quem julgam as ações dos humanos agora. Ao torturar um funcionário do parque, Dolores percebe que precisará de aliados para lutar contra as forças de segurança da Delos. Para isso, desperta um anfitrião que interpretava um General confederado, e parte em busca do apoio dos subordinados dele. No caminho, encontra Maeve e seus aliados. O encontro entre as duas grandes figuras femininas dos anfitriões não resulta em aliança, pelo contrário: Maeve parece desmerecer o ímpeto de rebelição de Dolores, ao afirmar que “vingança é apenas uma prece diferente no altar dos humanos”, e questionar se Teddy se sente realmente livre agora. Dolores deixa que Maeve siga seu rumo, e segue para conquistar o apoio dos confederados, não sem antes ter de fazer um demonstração de sua força e poder de controle sobre o destino dos anfitriões.

Ao final do episódio, Dolores e Teddy cavalgam em direção à Glory, região onde fica o tal “Local do Julgamento”. Teddy comente que aquele é o “Além do Vale”, dando a entender que narrativas diferentes usavam a referência ao local com nomenclaturas diferentes.  Dolores faz menção à visita que já fizera àquele local com William, no passado, e comenta que, na verdade, aquele não é um local, mas arma que ela pretende usar para destruir os humanos.

Esse episódio reforça a ideia de que, muito mais do que um parque de diversões adultas ultratecnológico, a Delos investiu em um ambiente para fazer uma ampla coleta de dados sobre os visitantes – algo que fica mais assustador ainda quando lembramos que Bernard descobriu, no episódio anterior, que amostras de DNA dos visitantes são coletadas.  Ecoa aqui a frase de Theresa Cullen na temporada passada (relembrada aqui nos recordatórios do início do episódio): “o parque é uma coisa para os visitantes, outra para os acionistas e algo completamente diferente para os administradores”.  A Delos criou uma espécie de grande Big Brother, que pode ser desde apenas um maxi mecanismo de pesquisa sobre seus clientes até um repositório de elementos para chantagem e manipulação.

Um personagem que teve seu momento especial no episódio foi Teddy.  Dolores começa a fazê-lo entender seu papel de anfitrião usado pelos visitantes como objeto de diversão. Isso gera confusão e raiva, ambas justificadas. Por outro lado, percebe-se que Teddy está um pouco assustado, intrigado ou mesmo temeroso dessa nova Dolores-líder-de-revolução que passou a conhecer.

Não apenas ao observamos Teddy, como também os confederados e os homens de El Lazo, percebemos que não há uma rebelião generalizada. Maeve e Dolores lideram alguns poucos anfitriões, enquanto outros, mais próximos aos limites do parque, parecem um pouco perdidos com o fim de suas narrativas, sem qualquer foco em um levante anti-humano.

O encontro de Maeve e Dolores gera, ainda, uma intriga: será que ambas conseguiram alcançar a singularidade e resolveram seguir os caminhos que suas próprias vontades determinam ou ainda existe algum grau de programação em seus comportamentos?  Mesmo morto, Robert Ford parece ter deixado tudo bastante preparado para sua nova narrativa. O questionamento de Maeve sobre a liberdade seja talvez o mais excitante do episódio.

A que “reunião” se refere o título do episódio?  Vejam que, em inglês, “reunion” não tem o mesmo sentido de “meeting”. Não é uma reunião de negócios, e sim o reencontro de duas pessoas que estavam há tempos separadas.  Seria o reencontro de Dolores e Maeve?  Dos espectadores com Logan e William jovens?  O reencontro de Dolores com suas memórias do mundo exterior ao parque?

 

por D.G.Ducci

Posts relacionados
  • 11 mar 2015
  • 1
Gênero: Ação/Comédia Direção: Matthew Vaughn Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn Elenco: Colin Firth, Taron Egerton, Samuel L. Jackson, Hanna Alström, Jack Davenport,  Mark Hamill, Mark Strong, Matt Michael Caine, , Sofia Boutella,...
  • 10 mar 2017
  • 0
Filme estrelado por Gerard Butler  tem previsão de estreia para 19 de outubro     A Warner Bros. Pictures divulga o primeiro trailer de Tempestade –...
  • 17 out 2016
  • 0
Terra Estranha, primeiro longa da diretora australiana Kim Farrant, teve sua estreia mundial na mostra competitiva do Festival de Sundance 2015. Estrelado por Nicole Kidman...