Westworld: Episódio 2.1 – Journey into night (Crítica)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DA PRIMEIRA TEMPORADA

E DO PRIMEIRO EPISÓDIO DA SEGUNDA TEMPORADA DE WESTWORLD

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Após quase um ano e meio de espera, a HBO traz a segunda temporada de Westworld, série que arrebatou fãs pela qualidade de produção, pela qualidade do tratamento dos temas afetos à inteligência artificial e a questões de identidade, e pela complexidade narrativa na utilização de múltiplas linhas temporais disfarçadas.

O Razão de Aspecto acompanhou a série episódio por episódio, em críticas que você pode ler aqui (http://razaodeaspecto.com/tag/westworld/).

Passado o hiper-clímax do final da sensacional primeira temporada, em que Dolores, uma das anfitriãs mais antigas do Parque, assassina Robert Ford, cocriador do lugar, durante a festa de lançamento da nova narrativa por ele criada, o primeiro episódio da nova temporada foi bem mais lento. Batizado de Journey into night, exatamente o nome que Ford criara para a nova narrativa, o episódio dá continuidade à história de alguns personagens e apresenta novos elementos que certamente serão tratados ao longo da temporada.

Tudo se inicia com um diálogo no passado(?) entre Arnold(?) e Dolores [ou no futuro, com Dolores analisando Arnold-Bernard, como algumas teorias da internet especulam]. O outro cocriador do parque fala de um sonho no qual é deixado para trás pelos anfitriões. Mas, segundo ele  sonhos  significam nada. Em uma resposta considerada insatisfatória por Dolores, Arnold diz que o que é real é aquilo que é insubstituível. Em seguida à intrigante resposta, Arnold diz temer Dolores, pelo que ela pode se tornar. Para o espectador, que já sabe do arco de vingança de Dolores, a frase tem menos impacto do que teria na temporada passada.

No episódio, vemos nossa anfitriã mais famosa matando um índio-anfitrião, e cavalgando à caça de humanos, de rifle em punho. Ao dialogar com humanos capturados, ela afirma que eles estão no sonho dela, e questiona a natureza da realidade. A primeira frase remete a afirmações anteriores de Ford: se o Westworld antigo representava seu sonho, a nova narrativa, em que anfitriões caçam humanos, seria um espelho do parque anterior. A questão sobre a natureza da realidade retoma não só o diálogo inicial do episódio, como discussão presente ao longo de toda a primeira temporada.  Dolores tem um potencial momento à la “O médico e o monstro”, em que a persona Dolores quer ver a beleza humana, mas a persona Wyatt vê a feiúra e a necessidade de violência. O bom momento é encerrado, infelizmente, com uma frase bem preguiçosa e previsível (“Evoluí para algo novo e tenho um novo papel a desempenhar – eu mesma”). Westworld merece um pouco mais que essa citação de almanaque.

Outra cena interessante de Dolores envolve Teddy, em uma rima temática e visual com o primeiro episódio da série. Se antes ambos falavam sobre suas possibilidades de futuro em um loop narrativo fadado a não evoluir, agora a discussão é se a anfitriã quer mesmo o destino de caçar humanos. A resposta de Dolores é surpreendente e pode apontar para futuras temporadas da série: segundo ela, conquistar o Westworld não será suficiente… será preciso conquistar o mundo fora do parque.

O amado e odiado William, o homem de preto, sobreviveu à matança na festa de lançamento da nova narrativa e foge para recuperar seu cavalo. Há aqui um pequeno estranhamento: no episódio anterior, William estava bastante machucado após a sova que tomara de Dolores, usava uma tipoia no braço e fumava longe da festa quando ocorreu o assassinato de Ford. Aqui, ele aparece sem a tipoia e embaixo de um cadáver, tendo sobrevivido à revolta dos anfitriões. Essa descontinuidade pode ser apenas uma elipse desimportante (o que é mais provável) ou falha da produção. Reunido a seu indefectível chapéu preto, William (em um começo de sorriso genial de Ed Harris) parece querer dizer que a diversão está apenas começando.  Ao personagem, é reservado no episódio, ainda, um encontro com o anfitrião de Robert Ford jovem, que o apresenta a um novo jogo, feito especialmente para ele: se, na primeira temporada, o homem de preto buscava o centro do labirinto, o desafio para o maior acionista do parque será agora o de encontrar a porta para sair.

Maeve, tendo desistido de sair do parque (por opção ou por programação, eis a dúvida!) para buscar sua “filha” anfitriã, encontra Lee Sizemore, ambicioso redator de narrativas anteriores do parque, e o toma como uma espécie de aliado e escravo. A cena em que ela o força a se despir relembra que o jogo virou, são os anfitriões que agora estão em posição de poder, e parecem ansiosos para se vingarem do abuso que sofreram. Hector “nosso Santoro” Escaton também está de volta. Cabe a Maeve mais um arroubo de discussão sobre a realidade, após Lee lembra-la que “sua filha não é real, é só algo que programamos”.

A trama mais interessante do episódio, como em boas partes da temporada anterior, continua sendo a de Arnold-Bernard. Westworld volta a trabalhar com linhas temporais diferentes. Além do diálogo inicial entre Arnold e Dolores, o excelente ator Jeffrey Wright ainda vive Bernard em dois momentos do tempo distintos:  o que se inicia ainda durante a festa, com o assassinato de Ford e a rebelião dos anfitriões, passa pela fuga junto com Hale na pradaria e chega ao laboratório secreto; e um segundo arco, em algum ponto futuro, em que Bernard acorda com memórias confusas na praia, reencontra Stubbs (cujo paradeiro nesse meio tempo é ainda objeto de mistério) do Controle de Qualidade, conhece o chefe de operações Karl e descobre junto com essa equipe um mar com centenas de anfitriões mortos, aos quais afirma ter matado.

Ao choque de descobrir sua verdadeira identidade, ainda na temporada passada, soma-se à história de Bernard a posição sui generis de ser um anfitrião entre humanos, que desconhecem sua natureza. Além disso, a confusão mental das memórias na terceira linha temporal de Bernard serve como veículo para que os roteiristas revelem aos poucos o que ocorreu. É junto com Bernard que descobrimos os vários novos elementos mais intrigantes do episódio: drones anfitriões, sem identidade definida e fora da rede, em um laboratório secreto ao qual Hale tem acesso e controle; a existência, de acordo com Bernard, de uma rede malhada de anfitriões, espécie de inteligência coletiva em que é possível um anfitrião localizar outro próximo a ele; a demanda do interlocutor de Hale sobre o “pacote”, um determinado anfitrião desativado, Peter Abernathy, que serviria de apólice de seguros, e sem o qual Hale não será retirada do parque; a deterioração crítica do corpo de Bernard, que o faz sofrer de tremores e improvisar uma transfusão de fluido; uma questão geopolítica fora do parque, com um país sendo enquadrado pelo pessoal da Delos, já que “cedeu a ilha de Lost” à corporação; a descoberta de um tigre de bengala do parque 6 longe de seu habitat natural; e a sequência final, já mencionada.

Um detalhe potencialmente importante: a abertura da série também mudou… em vez de anfitriões sendo criados, fazendo amor e do encerramento com uma citação ao homem vitruviano, a nova abertura evoca temas de feminilidade e maternidade e mostra uma mulher vitruviana. O cavalo, animal domado da abertura original, dá lugar agora um búfalo desgovernado. Seria referência novo momento de revolução dos antigos comandados, ao protagonismo de Dolores e Maeve e à busca desta última por sua filha, ou quem sabe algo ainda mais ousado, ligado à reprodução dos anfitriões?

Mistérios antigos e novos permanecem. Os arcos de Dolores e Maeve são expressões da descoberta de sua autoconsciência ou não passam de parte de uma maquinação (que palavra boa!) de Ford?  Terá mesmo morrido o criador de Westworld ou sua morte foi encenada para que ele pudesse sair de cena e comandar (ou assistir) as novas histórias dos bastidores? Embora seu corpo apareça em decomposição, como o de outros humanos (ao contrário dos corpos de anfitriões), não se pode confiar em nada que um mestre das narrativas proponha.

A escolha pela reutilização de linhas temporais paralelas tem potencial tanto positivo quanto negativo: bem utilizado, como na primeira temporada, pode confundir propositalmente o espectador e revelar os detalhes aos poucos; se apenas se tornar um cacoete narrativo, pode empalidecer a temporada. Outra série que se passava em uma ilha viciou-se em flashbacks e flashforwards e essa ferramenta narrativa perdeu o viço com tempo. Torçamos para que não seja o caso. Passado o efeito da novidade, a série terá de fazer um pouco mais do que usar o que já foi usado para manter-se no topo.

Embora tenha mantido os valores de produção altíssimos, como na primeira temporada, Journey into night foi um episódio morno, mais preocupado em lançar sementes a serem colhidas posteriormente do que em tirar o fôlego. Após dois episódios eletrizantes no final da temporada anterior, os realizadores optaram por dar um passo mais lento e brincar novamente com as expectativas do público.  Reeditado de outra forma, o episódio poderia aproveitar o momentum da última cena da temporada, mas optou-se por esfriar um pouco o ritmo. Nada de Shogun World ou de grandes estripolias por enquanto. Um episódio para se gostar retrospectivamente, quando a temporada estiver perto do fim e entendermos mais de seus propósitos. Por hora, a sensação é a de um byte a menos de novidade e encanto.

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