Quem me conhece ou quem acompanha a Mesa Quadrada sabe que eu sou fã confesso de Stanley Kubrick. E sabe que eu prometo e adio, e prometo de novo, fazer uma análise completa da obra do meu diretor favorito. Pois bem, chegou a hora de lidar com a fobia de analisar um dos mais complexos, influentes e analisados diretores de todos os tempos.

Serão 14 textos, alguns provavelmente divididos em mais de uma parte. Um para cada longa metragem do diretor, e mais este, onde comentarei sobre o início da carreira e seus três documentários curta-metragem. Kubrick sempre foi avesso a se tornar uma celebridade, e queria que seus filmes fossem notórios, e não sua pessoa.  Então não vou me ater a detalhes da biografia do diretor, a menos que sejam pertinentes para a análise dos filmes. Quem se interessar pela biografia, sugiro assistir ao documentário Stanley Kubrick: Imagens de uma vida. Vamos direto ao que interessa: filmes.

Day of the Fight (1951)

Em 1949 Stanley Kubrick publicou um ensaio fotográfico intitulado Prizefighter. Era um perfil fotográfico de Walter Cartier, lutador de boxe peso médio em ascensão. Fascinado pelo personagem e pelo mundo do boxe, Kubrick decide abandonar a carreira de fotógrafo e se dedicar ao cinema. Dois anos após a publicação do ensaio fotográfico Kubrick finaliza Day of the Fight

O curta de 12 minutos narra o dia de uma luta de Walter Cartier. A narrativa se divide em três partes. Primeiro temos cenas de Walter Cartier e seu irmão gêmeo idêntico se preparando para o dia da luta. Vão a missa, tomam café da manhã com seu cachorro, etc. São cenas claramente encenadas para a câmera, e algumas são um tanto artificiais. Depois temos a entrada de Cartier no ginásio onde a luta ocorrerá, e sua transformação de pessoa comum em lutador. E por último a luta em si.

A escolha de não usar diálogos, apenas uma narração em voz over e trilha sonora, retira muito do personagem, e dá um tom um tanto folhetinesco ao filme. E as cenas encenadas da primeira parte são um tanto amadoras. Por outro lado, notamos uma boa edição, e um bom uso da trilha sonora. Temos um crescendo de tensão entre a música da primeira parte e da segunda. Durante a luta, a narrativa em voz over é cortada assim como a música. Temos apenas o som ambiente, ressaltando a crueza e violência. E no fim, a volta da narrativa e da música dá um tom de triunfo.

Mas o principal mérito deste curta irregular é a fotografia. Kubrick já demonstra saber onde colocar a câmera e tirar o máximo proveito dela. Assim como ótimo uso da iluminação. A cena da luta é especialmente criativa, ainda mais se lembrarmos que teve de ser filmada em tempo real, sem interrupções. Se há algumas escolhas questionáveis de narrativa, a parte fotográfica já nos dá um vislumbre do enorme talento ainda para amadurecer. Mas o mais importante é que, por ser um filme financiado do próprio bolso de Stanley Kubrick, e pela falta de recursos, o diretor acumulou as funções de direção, efeitos sonoros, edição, camera-men, etc. Foi um aprendizado de quase tudo sobre o ofício de fazer filmes.

Nota: 4/5

Flying Padre (1951)

Kubrick vendeu Day of the fight para a RKO, por U$ 4.000 dólares (o que, segundo o diretor, representou um lucro de U$ 100,00). Além disto o estúdio adiantou U$ 1.500,00 para a produção do segundo filme. Infelizmente a temática do segundo documentário não foi escolhida pelo diretor, e sim pela RKO. Flying Padre nos conta a história de dois dias na vida de Fred Stadtmueller, um padre católico de uma paróquia do Novo México. Como sua paróquia cobria uma área muito grande, Fred Stadtmueller usava de um avião para atender seu rebanho.

Muitos dos defeitos e qualidades de Day of the Fight se repetem em Flying Padre. Temos novamente a opção pela ausência de diálogos, e pelo uso de uma narração em voz over por todo o filme. Se em Day of the Fight a escolha por não dar voz ao personagem não teve tanta importância, devido a construção do drama da luta, agora a escolha esvazia quase todo impacto dramático. Terminamos o curta sem ouvir, conhecer e nos importar com Fred Stadtmueller.

As cenas encenadas são bem mais constrangedoras que no filme anterior. Em especial o momento em que uma garota vai bater a porta da casa do protagonista. A vergonha dos atores mirins é nítida, talvez por ser algo real, que teve que ser reencenado para a câmera. A história é fraca e sem sal, a tal ponto que o próprio Kubrick descreve Flying Padre como uma coisa tola em uma entrevista de 1969.

Mas também notamos a qualidade da fotografia, em especial nas cenas do padre no avião. A cena do enterro, e o corte em plano fechado para alguns rostos também foi bem realizada, dando o momento mais comovente do filme. Aqui a capacidade do fotógrafo de reconhecer rostos dramáticos deixou sua marca. Se o narrador Kubrick não se envolveu tanto neste filme, o fotógrafo ainda esteve presente. Mas com certeza, se não fosse uma obra de Stanley Kubrick, Flying Padre estaria esquecido no tempo e no espaço.

Nota: 2,5/5

Seafarers (1953)

Seafarers foi um filme patrocinado pelo Sindicato Internacional de Marinheiros em 1953. Não é propriamente um documentário, está mais para um filme institucional, de divulgação do sindicato para os marinheiros. Não há aqui uma intenção cinematográfica propriamente dita. É um tanto injusto fazer crítica de cinema para este vídeo.

A filmagem é totalmente convencional e linear, sem preocupações artísticas ou narrativas. Temos novamente o uso da narrativa em voz over, com breves interrupções. E 30 minutos de tédio, a menos que você seja um marinheiro americano da década de 50, um historiador com interesses muito específicos, ou um tarado por Kubrick.

De qualquer forma é o primeiro filme colorido de Kubrick, e o primeiro no qual ele usa, de forma extensiva, o travelling, recurso muito presente em toda sua obra. Fora isto, é um vídeo realmente chato. Se você persistir com olhos atentos, pode notar uma ou outra composição de imagens realmente interessantes. Mas é só.

Nota: 2/5

Que lição fica para nós depois de assistir estes curtas de Kubrick? Primeiro que todo mundo tem que começar de algum lugar. Jovem, sem dinheiro e sem fama, Kubrick arrisca largar sua promissora carreira de fotógrafo para seguir um sonho. Por sua falta de conhecimento e experiência, seus primeiros passos são um tanto irregulares. Mas se olharmos com cuidado, em especial para Day of the Fight, vemos algumas das marcas do gênio. A percepção do estranho e inquietante por detrás do humano. O olho do fotógrafo revelando a essência do homem. E o uso milimétrico de luz e sombra.

Mas falta ainda muito caminho para sua primeira obra prima, Glória feita de Sangue. Caminho que ele percorrerá em apenas 4 anos, e 3 filmes.

Em breve continuaremos com mais Kubrick, agora com o seu primeiro longa, Fear and Desire.

 

 

Posts relacionados
  • 18 jul 2014
  • 0
Dando continuidade à lista dos filmes com os quais criei mais identificação…. Os Commitments – loucos pela fama (The Commitments, 1991): se “Sociedade dos Poetas...
  • 21 out 2016
  • 0
Acaba de estrear nos cinemas Ouija – A origem do mal, filme que ainda não vi mas o Maurício Costa conferiu, como você pode ver...
  • 7 ago 2014
  • 1
O amadurecimento é um processo doloroso para todos os seres humanos. Aprendemos com as experiências (ou não), evoluímos com os fracassos, crescemos com as dificuldades...