Seven Seconds – Crítica

Seven Seconds chegou à Netflix sem muito alarde, na mesma enxurrada de conteúdo original desde o início de 2018. Há tanto conteúdo novo na plataforma que está ficando difícil acompanhar os lançamentos e, ainda mais, ver as novas séries. Da mesma criadora de The Killing e estrelada pela excelente Regina King (The leftovers e American Crime), Seven Seconds promete uma trama sombria e complexa, como muita densidade dramática e muita qualidade, mas corresponde às expectativas? Sim e não.

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Seven Seconds começa com o atropelamento de um jovem negro por um policial, em um parque isolado, no inverno de Jersey City. Com a ajuda dos colegas, toma a decisão de abandonar o local e acobertar o acidente. A partir de então, inicia-se uma investigação que envolve as tensões raciais inerentes à sociedade estadunidense, a violência policial contra as populações negras (pode-se perceber que nada mudou desde os eventos contados Detroit em Rebelião), a corrupção policial, os interesses políticos e as falhas no sistema de justiça.

De um lado da investigação, acompanhamos a promotora alcoólatra, de competência questionável e insegura K.J Harper, o policial perdedor Fish Rinaldi; do outro lado, acompanhamos  os policiais Peter Jablosnki, Mike DiAngelo, Felix Osrio e Manny Wilcox. Em paralelo, Seven Seconds desenvolve o drama da família da vitima: A mãe, Latrice, O pais, Isaiah, o tio, Seth, e o melhor amigo, Kadeuce. Para além desses três núcleos, acompanhamos das famílias dos policiais e o destino de algumas testemunhas-chave do atropelamento. Se você achou que Seven Seconds abre muitas frentes narrativas, achou errado otá…, ups, digo, teve a impressão certa; por outro lado, a trama consegue desenvolver bem cada um desses núcleos narrativos, dando a profundidade que cada um deles merece.

Seven Seconds tem alguns méritos, mas o maior deles, sem dúvidas, é o desenvolvimento dos personagens. Nenhum personagem é unidimensional e/ou estereotipado. Mesmo os policiais, vilões nesta história. têm algum código de ética e motivações razoáveis, de acordo com a sua visão de mundo, claro, com as quais não podemos concordar, mas conseguimos entender. Ao mesmo tempo, o arco dramático de cada um deles demonstra que nem sempre os “bons rapazes” acabam tomando as boas decisões, enquanto os supostos malvados e manipuladores impões limites de até que ponto aceitam sujar as próprias mãos. No conjunto, essas decisões se confundem e chegam ao mesmo resultado, mas, em termos construção dos personagens, dá complexidade de dramaticidade. Do lado das vítimas e dos heróis, os pais, embora amorosos, não sabiam lidas com as escolhas do filho – a mãe, muito liberal, o pai, um homem religioso muito rígido, o tio, um ex-membro de gangue que se alistou no exército; a promotora mostra-se hesitante, medrosa e incapaz, afundada nos seus dramas pessoais e no alcoolismo, e o policial Fish Rinaldi tem pouca capacidade de enfrentar o corporativismo da polícia; embora não lhe falte vontade, faltam-lhe recursos.

Em meio a essa complexidade narrativa, Seven Seconds, se acerta em cheio no drama, mas tropeça como seriado policial investigativo. Principalmente na segunda metade da temporada, há algumas resoluções preguiçosas de roteiro, algumas mudanças bruscas de rumo e, o que mais me incomodou, uma mudança de atitude, que mais parece de caráter, do policial Pter Jablonski. De uma hora pra outra, o personagem deixa de ser um bom policial que se sente culpado e tornar-se mais um dos policiais corruptos de seu grupo. Sequer se faz uma transição boa suficiente entre as etapas, embora o personagem tenha motivos para fazê-la. O arco de Peter Jablonski é o único que tem essa falha em toda a série.

Como resultado, Seven Seconds não alcança o nível de The Killing, mas consegue envolver o espectador e manter o interesse até o final, apesar das claros tropeços no roteiro e na montagem dos últimos episódios, quando uma sequência de decisões estúpidas e de coincidências quase colocam a perder a narrativa investigativa, mas que se salva pela carga dramática das consequências para os personagens. Como grande mérito, Seven Seconds desenvolve uma narrativa sem maniqueísmo, realista no seu desfecho e poderosa na mensagem, que nos deixa com um gosto acridoce na boca e alma. O conjunto das qualidades, portanto, supera os problemas e faz valer a pena o tempo investido.

 

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