Cinco filmes piores que The Room

Ser o pior é algo tão difícil quanto ser o melhor. A concorrência é ampla, e a cada dia surge alguém com algum problema ou incompetência diferente, criando mais e mais maneiras de fazer errado.

Com o merecido sucesso de O Artista do desastre, muito se tem falado sobre The Room. Será que a obra icônica de Tommy Wiseau merece a honraria de ser considerado o pior filme de todos os tempos? Na minha opinião, nem de perto. E olhe que The Room é um filme dirigido por alguém que nada entende de cinema, escrito por um roteirista que nada entende de roteiro e protagonizado por um ator que nada sabe de interpretação. E todos os três são a mesma pessoa.

Mesmo com tantas qualidades negativas, temos um bom número de filmes que superam em desastre nosso artista do momento. Então vou listar de memória 5 filmes que considero ainda piores. E feitos por artistas com currículos respeitáveis. Não são os piores filmes da história, pois para eu fazer tal lista eu teria que chafurdar mais profundamente nos pântanos da história cinematográfica. Mas são 5 produções de artistas renomados que poderiam envergonhar Tommy Wiseau.

1- A reconquista

Para mim a pior superprodução já feita. Se 6 milhões de dólares parecem uma enormidade de orçamento para algo como The Room, que tal falarmos em 73 milhões de dólares? Tudo devido a maluquice vontade de John Travolta de filmar um livro de L Ron Hubbard, o fundador da cientologia. E se não fosse o fato de Travolta ter tirado do próprio bolso alguns bons milhões, provavelmente o filme nunca sairia.

Onde exatamente A Reconquista consegue suplantar The Room? Primeiro na pretensão artística do diretor. Assim como Wisseau, Roger Christian acredita ser capaz de revolucionar o cinema. Como? Inclinando a câmera uns 30 graus para o lado, em mais de 2/3 das cenas. Por quê? Porque ele é o diretor, ele pode. Mas não é só na inclinação ridícula (e muito desagradável depois de duas horas) que a coisa degringola. Temos uma tribo de analfabetos primitivos que aprendem a pilotar um caça em dias. Um caça abandonado por 3.000 anos! Temos um vilão que faz questão de contar para seu escravo como destruir a civilização alienígena que o escraviza. Em detalhes. O personagem de Travolta é tão ou mais caricato que o John de Wisseau. Risos malévolos, assassinatos gratuitos, trejeitos espúrios. Nada faz o menor sentido em A Reconquista. Nem mesmo se você for cientologista. Felizmente a segunda parte do filme parece que nunca será feita.

2- Cada um tem a gêmea que merece

Eu citei A reconquista e não falei do Framboesa de Ouro. Isto por que, apesar de A reconquista ter conquistado 9 framboesas, inclusive a de pior filme da década (2010), Cada um tem a gêmea que merece conseguiu um feito ainda maior: conquistou 100% das framboesas de 2012. 10 prêmios em 10 categorias. Dificilmente este recorde será superado.

Esta obra-prima é resultado da gloriosa parceria entre Dennis Dugan e Adam Sandler. Conhecidos por fazerem filmes baseados em coisas como piadas de peidos, eles se superaram: nem a escatologia infantil funciona em Cada um tem a gêmea que merece.  Mas não é só as cenas de peidos sem graça que constrangem. Junte isto a machismo, personagens sem sentido, sem drama, e a pior atuação de Al Pacino desde… sempre. Com direito a uma citação constrangedora de O poderoso chefão.

Deveriam ter seguido o conselho de Al Pacino.

3- House of the dead (2003)

Eu não poderia fazer uma lista de piores filmes sem citar Uwe Boll, o melhor pior diretor do século XXI. Conhecido por clássicos como  Alone in the Dark e Blood Rayne, Boll consegue piorar o já terrível filão de filmes baseados em videogames. O pior filme de Boll com que eu já tive contágio contato foi House of the dead. Não é apenas o pior filme de zumbi que já vi, mas também as piores atuações que já assisti, incluindo The Room. Todo o elenco parece ter a emoção de um sintetizador de voz lendo uma receita de bolo.

Junte isto com o uso de câmera lenta sem sentido, e a inserção de gráficos do jogo em momentos sem o menor sentido. E uma multidão de personagens que não entendemos por que estão lá. House of the dead é tão ruim que parece ser um trash proposital. Mas se você ver as declarações do diretor, verá que ele defende os méritos artísticos do filme.

4- Plano 9 do espaço sideral

O artista do desastre tem um predecessor de respeito. Hollywood já dedicou um grande filme ao cinema trash. Estamos falando de Ed Wood, dirigido por Tim Burton e estrelado por Johnny Deep e Martin Landau. É um excelente longa, que retrata a vida de um diretor da década de 1950, apaixonado por cinema. E o que ele tinha de paixão, não tinha de talento.

Ed Wood é uma celebridade do cinema trash, que infelizmente morreu antes de filme ruim ter o status que tem hoje. Dirigiu 45 longas, mas sua obra prima é sem dúvida Plano 9 do espaço sideral. O filme é uma espécie de gênio maligno de Cidadão Kane. Assim como o clássico de Orson Welles foi por décadas a resposta tradicional para qual o melhor filme de todos os tempos, Plano 9 era a resposta “culta” para o pior de todos.

A principal curiosidade da obra é a participação de Bela Lugosi. O ator, já decadente e com problemas de alcoolismo, teve várias participações nos filmes de Ed Wood. Mas sua última participação foi em Plano 9, mesmo tendo morrido antes das filmagens se iniciarem. Ed Wood inseriu algumas filmagens caseiras e cenas de projetos inconclusos com Lugosi no filme. E contratou um dublê do ator, que tinha uma testa parecida com Lugosi. Isto mesmo: a testa era parecida. Tom Mason aparece várias vezes, interpretando o mesmo “personagem” de Lugosi, sempre com o rosto coberto por sua própria capa. Só este detalhe macabro faria de Plano 9 uma lenda entre os filmes ruins.

Mas nem de longe o dublê de testa é o pior detalhe.

5- Cinderela Baiana

O Razão de Aspecto sempre fez questão de valorizar o cinema nacional. E não será diferente aqui nesta lista. Temos um filme que tem o mesmo potencial que The Room para o estrelato negativo. Cinderela Baiana deveria estar rodando o mundo para agradar aos fãs do legítimo Trash. Mas, apesar da campanha popular que pediu a inclusão deste clássico no acervo da Netflix, sem sucesso, o filme continua um desconhecido do grande público.

A história é uma versão fantasiosa da biografia da Carla Perez. Sim, ela mesmo! Feito em 1998,  no auge da fama da banda “É o Tchan!”, o filme é tão desastroso que a própria dançarina renegou a obra e pediu para a PlayArte retirá-la de circulação. E como o filme só deu prejuízo, aceitaram. Mas a internet veio para nos salvar, e é possível ver o filme na íntegra no Youtube.

Entre os envolvidos na produção, temos os atores Lázaro Ramos e Lucci Ferreira, ambos estreantes à época. Lázaro Ramos é o único que comenta que não se arrepende de ter participado do filme: com o salário que ganhou ele largou o emprego de técnico de laboratório de patologia e começou a fazer aulas de teatro.

Tudo o que há de ruim em The Room também se faz presente em Cinderela Baiana. Atores completamente incapazes de transmitir emoções, cenas sem nexo, diálogos insólitos, etc, etc. Mas tudo com um tempero bem nacional. Confira a pior cena do pior filme nacional que já assisti. Com uma linda mensagem, e um diálogo elaboradíssimo! A cena do passarinho, pura poesia!

Se nenhum dos filmes anteriores te convencer ser indigno o bastante para suplantar The Room, creio que Cinderela Baiana te convencerá.

  • João Pedro Redmann

    Esse último foi ótimo ahahahahah

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