Especial: Que rei sou eu? – Os monarcas britânicos no cinema e na TV (parte IV)
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(as partes anteriores do especial você encontra aqui:  1ª parte; 2a parte; e 3ª parte)

 

Charles II

Com a morte de Cromwell, a monarquia foi restaurada na Inglaterra em 1660, com a aclamação de Charles II, filho do rei decapitado. Reinou por 25 anos e, embora tenha tido atritos com o Parlamento como seus antecessores – chegando a dissolvê-lo -, o período representou um retorno a uma certa normalidade após 10 anos de um regime de exceção puritano. É um monarca associado com o luxo e o hedonismo da corte e também com o período de reconstrução de Londres, após grande incêndio que consumiu parte da cidade em 1666. Casado com Catarina de Bragança, o rei teve um longo caso com a atriz Nell Gwyn, que a tornou uma espécie de Cinderela baiana da época.

O romance do rei com a atriz fascinou os pioneiros do cinema, em obras como Sweet Nell of Old Drury (1911), Mistress Nell (1915), A preferida do rei (1926) e Nos braços do rei (1934). Uma curiosidade é que um dos ícones do dos filmes de terror, Vincent Price, interpretou Charles II no filme O renegado (1941), que se passa no início da colonização canadense. Em  O Exilado (1947), Douglas Fairbanks Jr. vive o papel do monarca, em trama que se passa durante o exílio de Charles II na Holanda, antes da Restauração. O rei vive um romance com uma camponesa, o que ecoa a história real do envolvimento do rei com Lucy Walter, súdita galesa que de fato foi amante (sim, mais uma) do soberano. George Sanders viveu Charles II duas vezes no cinema, em Entre o amor e o pecado (1947) e O ladrão do rei (1955), sendo este último centrado em um plano para assassinar o rei.

Mais modernamente, o grande ator inglês Simon Callow interpretou o rei em England, My England (1995), biografia do compositor inglês Henry Purcell. Uma das versões mais marcantes do monarca, embora apareça relativamente pouco no filme, é a de Sam Neill em O outro lado da nobreza (1955). Trata-se de um excelente filme, passado no período da Restauração, sobre um médico (vivido por um Robert Downey Jr. quando ainda era ator) que vai da ascensão social ao aprendizado da humildade.

Em 1989, a série de TV The Lady and the Highwayman, um dos primeiros papéis de destaque de um jovem Hugh Grant, tinha uma trama de romance de capa-e-espada, e Michael York no papel de um Charles II prestes a retornar ao trono. Em 2003, finalmente uma minissérie concentrou-se no reinado de Charles e não em histórias paralelas: Charles II: the power and the passion, da BBC, trouxe o excelente Rufus Sewell no papel principal.

 Já em O Libertino (2004), John Malkovich interpreta o rei em um filme sobre a vida de John Wilmot, 2º Conde de Rochester, poeta famoso na Corte por sua… libertinagem. Em 2015, foi a vez de Charles Dance (o Tywin Lannister de Game of Thrones) viver o papel, no filme a Michiel de Ruyter (2015), sobre o a vida almirante holandês. Na série francesa Versailles (com temporadas em 2015 e 2017, centrada no reinado de Luis XIV, na França, Daniel Lapaine interpreta o rei inglês. Aparentemente, Charles II, ao menos na ficção, funciona mais como coadjuvante do que como protagonista.

 

George III

Pularemos James II, rei pouco representado no cinema, e passaremos a George III, que teve pelo menos uma obra espetacular sobre ele. Tendo ocupado o trono britânico por 60 anos (1760-1820), mais do que qualquer outro monarca antes dele, seu reinado foi marcado basicamente por três grandes fatos: as lutas com as colônias britânicas pelo mundo, em especial na América do Norte, que resultaria na independência dos Estados Unidos; as Guerras Napoleônicas, culminando com a derrota francesa (para variar) na Batalha de Waterloo; e uma doença mental de diagnóstico incerto que o acometeu a ponto de seu filho George – o Príncipe de Gales e futuro rei George IV – ter de governar como Regente em seu lugar.

 Há, por conta disso, muitos filmes que tratam da independência dos Estados Unidos que acabam tendo George III como coadjuvante ou mesmo antagonista direto. São exemplos as séries The Adams Chronicles (1976), centrada na vida da Família Adams de John Adams e Abigail Adams, e seu filho, John Quincy Adams, todos pioneiros da independência das 13  Colônias. Adams seria novamente centro de uma minissérie de 2008: John Adams, da HBO, em que o rei foi vivido por Tom Hollander.

Deixando a turma do Tio Sam de lado, Roger Booth interpretou George III na – mais uma! – obra-prima de Stanley Kubrick, Barry Lyndon (1975). O rei, em si, pouco aparece no filme, mas a representação da sociedade da época vale o filme. Nigel Davenport interpretou o rei na série da BBC Prince Regent (1979)¸ sobre a vida de George, Príncipe de Gales que teve de lidar com as loucuras do pai. Na divertida série Jonathan Strange & Mr Norrell (2015), adaptação para a TV do romance homônimo de Susanna Clarke, o papel ficou com Edward Petherbridge.

Mas grande filme sobre este rei foi realizado em 1994: As loucuras do Rei George. Baseado em uma peça de teatro, o filme centra-se em uma crise mental do rei em 1778-9. Nigel Hawthorne, mesmo ator que vivera o papel no teatro, foi indicado ao Oscar pelo papel, por uma atuação de fato magnífica.

 

Victoria

 O período de reinado de Victoria Alexandrina coincidiu com o ápice do poder britânico no mundo. Seu império incluía colônias e entrepostos em todos os continentes, cunhando a frase “o império onde o sol nunca se põe”. Somado o poder de seu reino a um reinado longo (de mais de 60 anos), Vitória tornou-se o símbolo maior de um período que ganharia seu nome: a Era Vitoriana. Para o cinema e para a TV, Victoria é fonte aparentemente inesgotável de inspiração, com obras focadas em diferentes idades e episódios de sua vida.  Victoria é a vencedora quantitativa em nossa lista de adaptações, e, por conta disso, pinçaremos apenas alguns dos filmes e séries mais relevantes.

Já em 1913, pouco mais de uma década após sua morte, o cinema traria Sixty years a Queen, filme que retrata as seis décadas de reinado de Victoria e eu trazia as atrizes Blanche Forsythe e Louie Henri como Victoria mais jovem e com mais idade, respectivamente.

Uma dessas linhas de interessena vida da rainha é a da Victoria jovem, insegura, recém-coroada e buscando consolidar sua própria identidade e seus interesses no meio de pressões familiares – em especial de sua mãe -, parlamentares e monárquicas. Uma das demandas constantes era a de que a rainha se casasse. A história de seu envolvimento com o Príncipe Albert de Saxe-Coburg e Gotha deu lenha para todo um conjunto de filmes e séries.

Por exemplo, Victoria in Dover (1936), comédia romântica alemã estrelada por Jenny Jugo, na qual, ao saber que Lorde Melbourne, Primeiro-Ministro, havia arranjado seu casamento com um príncipe alemão, Victoria decide passar um tempo na cidade de Kent e se apaixona por um estrangeiro – sem saber, obviamente, que se trata do próprio príncipe Albert. Essa história ganhou mais fama por causa de seu remake em 1954, Os jovens anos de uma rainha, com Romy Schneider no papel principal.

 

(mais Victoria e a continuação do especial na próxima parte, em breve)

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