Especial: Que rei sou eu? – Os monarcas britânicos no cinema e na TV (parte III)
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(a primeira parte do especial você encontra aqui e a segunda aqui)

 

Elizabeth I (cont.)

Em 1953, o filme A rainha virgem (Young Bess, no original) retratou a infância e a juventude de Elizabeth I, até sua ascensão ao trono. O filme foi indicado aos Oscar de Melhor Cenário e Melhor Figurino. No elenco, nomes como Jean Simmons como a rainha,   Stewart Granger, e Charles Laughton como Henrique VIII  [aliás, na seção sobre Henrique VII faltou citarmos Os Amores de Henrique VIII, de 1933, filme pelo qual este mesmo Laughton ganhou o Oscar de Melhor Ator. Falha nossa!].

Embora não seja um filme biográfico sobre a rainha, vale lembrar a interpretação de Quentin Crisp, escritor inglês (sim, um homem no papel) em Orlando, a mulher imortal, filme de 1992 que adapta livremente o livro de Virginia Woolf. Para quem não conhece o livro, Elizabeth I, em seu leito de morte faz um pacto com Orlando que o impede de envelhecer. Em uma obra na qual a questão de gênero é um dos temas centrais, a escolha de uma figura como Crisp, polêmica por si só, combinou perfeitamente com a narrativa.

O ano de 1998 é icônico na videografia sobre Elizabeth I: por sua interpretação da rainha durante poucos minutos de tela, Judi Dench venceria o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Shakespeare Apaixonado. No mesmo ano, a atriz australiana Cate Blanchett ganharia notoriedade mundial e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por Elizabeth. Dirigido pelo indiano Shekar Kapur, Elizabeth é um deleite visual e de roteiro, podendo ser facilmente listado como um dos melhores filmes sobre reis ou rainhas. Nove anos depois, a dobradinha Blanchett-Kapur se reuniria para a continuação Elizabeth: a era de ouro. O primeiro filme conta a consolidação da monarca no poder e seu caso com Robert Dudley (Joseph Fiennes, também de Shakespeare Apaixonado, neste ano encantado para elisabetanos). A continuação fala da relação da rainha com Sir Walter Raleigh (Clive Owen) e da derrota da Invencível Armada Espanhola (em cenas de visual arrebatador). Blanchett foi novamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz, pela mesma personagem. Nos dois filmes, Geoffrey Rush quase rouba a cena como Sir Walsingham. Resta torcer para que haja um terceiro filme, com mesmo diretor e atriz principal, que feche a trilogia contando os últimos anos de Elizabeth I no trono.

Outra Dama do cinema mundial, Vanessa Regrave, interpretou Elizabeth I em Anônimo (2011), filme que trata da suposta polêmica da autoria das peças de William Shakespeare. Além de Redgrave no papel principal (e de Joely Richardson, sua filha, nas cenas da rainha quando jovem), o filme vale pelo bom feeling elisabetano, incluindo intrigas protagonizadas  personagens reais, ainda que a teoria na qual o roteiro se baseia careça de validamento histórico.

Na TV, das dezenas de vezes que Elizabeth I foi levada às telas, destacam-se primeiramente Elizabeth the Queen (1968), adaptação da peça de Maxwell Anderson,  indicada a um prêmio Emmy (Judith Anderson como Elizabeth); Elizabeth R (1971), minissérie em seis episódios, vencedora de 5 Emmy, com Glenda Jackson no papel principal, e que trata do jogo político em que se transforma a tentativa de desposar Elizabeth Tudor. É talvez das melhores representações da monarca já feitas. Em 1984 (com Sarah Walker) no ano 2000 (com Josephine Barstow), a opera Gloriana, composta por Benjamin Britten para a coroação de Elizabeth II, em 1953, recebeu adaptações para a TV.

Em 1986, uma versão para morrer de rir: a segunda temporada de Blackadder, série hilária criada por Rowan Atkinson, Miranda Richardson interpreta uma Elizabeth mimada e  histriônica. Completavam o elenco atores do calibre de Stephen Fry, Tony Rovinson e Tim McInnerny (o Robett Glover de Game of Thrones). Ao contrário da imagem criada com o Mr.Bean, Atkinson aqui usa o humor de texto. Uma das séries mais engraçadas já produzidas.

Como não poderia deixar de ser em se tratando de Inglaterra, a rainha Elizabeth I já deu as caras em diversos episódios de Doctor Who (cujo protagonista, vejam só, teve um caso com a governante!). Nas encarnações mais modernas do personagem, Angela Pleasence e Joanna Page interpretaram a rainha.

 Após várias outras adaptações, em 2005 duas produções sobre a rainha chamaram a atenção na TV: Elizabeth I: Rainha Virgem, da BBC, trouxe Anne-Marie Duff no papel principal e Tom Hardy (ele mesmo, de A Origem e Mad Max) no papel de Robert Dudley, amante de Elizabeth. Já em Elizabeth I, da HBO, Helen Mirren – que já ganhara o Oscar por outra rainha Elizabeth, a segunda, em 2007) interpreta a monarca. Mirren e Jeremy Irons foram premiados com o Globo de Ouro por suas atuações, e a minissérie levou o prêmio de melhor daquele ano.  Em 2017, foi a vez de Lily Cole dar vida à rainha em Elizabeth I, docu-drama do Channel 5 britânico em forma de minissérie em três episódios.

 

James I

 Com a morte de Elizabeth I, sem herdeiros diretos, em 1603, chegava ao fim a dinastia Tudor, que marcara para sempre a história inglesa. Assumiria o trono James Stuart –  o rei James VI da Escócia, rebatizado na Inglaterra James I. A partir daquele momento, o mesmo monarca governaria Inglaterra, Escócia e Irlanda. Os dois primeiros mantinham legislação e parlamento próprios, mas nascia ali – ainda que não formalmente – o que hoje pensamos como Reino Unido. Em seu reinado a colonização das América inglesa teria início. James I entraria também para a história por ter patrocinado a tradução da Bíblia para o inglês, versão que serviria de base para outras traduções e para diversas fés protestantes.

Se, na Escócia, a de James foi relativamente tranquila, na Inglaterra seus conflitos com o Parlamento seriam constantes. Superou duas conspirações (Bye Plot e Main Plot) ainda no primeiro ano de reinado, e ainda viu desbaratada famosa Conspiração da Pólvora (Gunpowder Plot), em 1605, na qual Guy Fawkes, um dissidente católico tentou explodir o Parlamento britânico.  O episódio inspirou a história em quadrinhos V de Vingança e sua respectiva adaptação para o cinema de 2005. E quando chega perto do Cinco de Novembro, o “remember, remember the Fifth of November…” começa a ecoar no imaginário até de quem não sabe do que se trata.

Mesmo com o reinado tumultuado que teve, James I não tem, até o momento, grandes filmes dedicados a ele. Vale citar a minissérie Gunpowder, Treason & Plot (2004), centrada na Conspiração da Pólvora, e na qual Robert Carlyle interpreta o rei.

 

Charles I

Tendo herdado o trono em 1625, Charles I viu agravarem-se as disputas entre Coroa e Parlamento. Era a época do pensamento absolutista, e, enquanto monarcas em vários reinados europeus acreditavam serem os representantes de Deus na Terra e, assim, terem o direito divino de governar como bem entendessem, na Inglaterra esse tipo de autonomia foi mais complicada. Sua postura tirânica, suas crenças religiosas e o fato de ser casado com uma católica, gerou antipatia generalizada. A escalada dos conflitos internos, com ajuda de uma Irlanda também em rebelião, levou a uma sangrenta Guerra Civil em que Cabeças Redondas (partidários da ordem parlamentar) enfrentara os Cavaleiros (defensores do poder do rei). Derrotado, Charles I recusou-se a aceitar uma monarquia constitucional, foi julgado e condenado por alta traição.  Mais de um século antes da França pensar em sua revolução, um rei era decapitado, em 1649. A Inglaterra deixaria de ser uma monarquia, e passaria a ser uma república chamada Commonwealth. Em 1660, a monarquia seria restaurada com a ascensão de Charles II.

Se em quantidade, não são tantas as transposições de Charles I para as telas, as produções compensam pela qualidade e interesse.  A mais clássica é disparada Cromwell, o homem de ferro (1970), em que Richard Harris vive o papel título, enquanto Alec Guinness interpreta o papel do rei. Não é toda hora em que se vê o primeiro Dumbledore e o primeiro Obi-Wan Kenobi decidindo o futuro da Inglaterra. Brincadeiras à parte, o filme aborda os crescentes atritos que levaram à Guerra Civil e chegada de Cromwell ao poder.

Em Morte ao Rei (2003), o centro da trama é a relação de Cromwell (Tim Roth) com Sir Thomas Fairfax (Dougray Scott), que o ajudou liderar e vencer a Guerra Civil. Charles I, então capturado, é vivido por Rupert Everett.  Uma boa ficção sobre o período da Guerra Civil é a minissérie em 4 episódios The devil’s whore (2008), que acompanha cerca de 20 anos da personagem fictícia Angelica Fanshawe e do personagem real Edward Sexby. Peter Capaldi, a 12ª encarnanação do Doutor, em Doctor Who.

 

(continua! Vitória vem aí na próxima parte do especial… )

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