Hoje, dia 20 de novembro de 2017, morre Charles Manson. Um dos psicopatas mais cruéis e mais famosos, e também um dos mais difíceis de entender. Charles Manson não se encaixava nem no perfil de assassino em série, nem assassino em massa, nem exatamente no perfil de líder de culto religioso.  É o exemplo mais chocante de um terceiro tipo de psicopata, menos conhecido do público: o spree killer (algo como “assassino em surtos”).

Em uma “homenagem” a morte de Manson, resolvemos falar de uma nova série da Netflix que o cita diversas vezes. Fique claro, Manson não merece elogios. Mas histórias como as dele revelam lados da alma humana que não devemos ignorar.

Um dos principais motivos que fazem psicopatas vilões tão carismáticos para a ficção (seja cinema, TV ou literatura) é que este tipo de criminoso perverte uma história policial típica. Tanto na ficção quanto na vida real. Normalmente, para se descobrir um assassino, os investigadores devem procurar três coisas: motivação, meios e oportunidade. Mas certos tipos de assassinos cometem crimes sem nenhuma motivação aparente. Talvez seja este o motivo central para um psicopata conseguir ser um motivo bom motivo para uma história de terror, mesmo sem nada sobrenatural. Um criminoso violento é assunto para filmes de ação e suspense, mas um assassino em série nos assombra com algo mais profundo e estranho.

Este mesmo estranhamento ocorreu na vida real, dentro do FBI. Nas décadas de  1960 e 1970 um tipo diferente de crime começou a se tornar frequente nos Estados Unidos. Casos como o de Charles Manson, ou de David Berkowitz. Eram pessoas cometendo atos de violência extremos, contra vítimas aleatórias, sem envolvimento emocional, financeiro, político ou econômico. Como investigar crimes quando o motivo se torna elusivo, confuso ou até inexistente?

Este foi um problema que o FBI teve que resolver nos anos 70, e que por fim criou os modelos de comportamento criminoso que hoje conhecemos como assassinos seriais, assassinos em massa e spree killers.

Apesar do tema assassinos seriais já ter sido abordado a exaustão, Mindhunter está longe de ser mais do mesmo. Muito disto se deve a mente criativa de David Fincher, um dos produtores executivos e diretor de quatro dos dez episódios da série (os dois primeiros e os dois últimos). Experiência no tema ele tem de sobra, basta lembrar dos longas Se7en e Zodíaco. Na produção executiva temos outra celebridade de Hollywood que já se envolveu com o tema. Charlize Teron (de Monster) também está envolvida no projeto.

Tipicamente as histórias de assassinos seriais se dividem em dois tipos. Primeiro temos histórias de torture porn (estilo Jogos Mortais), narrado sob o ponto de vista das vítimas enquanto os crimes ocorrem. O segundo tipo  são investigações para descobrir o criminoso, onde ele está, e/ou detê-lo antes que consiga mais vítimas (como em Silêncio dos inocentes ou Se7en). Mindhunter não é nada disto. A história se foca em três investigadores que viajam pelos Estados Unidos entrevistando assassinos seriais já presos e condenados, e usando o conhecimento adquirido nestas entrevistas para decifrar crimes semelhantes.

O foco dramático não é nos novos casos, mas sim nas entrevistas, e as novas perspectivas que elas geram. Sentimos o impacto psicológico deste conhecimento sobre os investigadores. Mindhunter consegue nos colocar no lugar dos agentes do FBI e acompanhar o processo de entender e aprender a pensar como um assassino em série. E faz isto sem nenhuma cena de violência, sem grandes confrontos ou perseguições. O drama e o terror psicológico é construído quase exclusivamente com os diálogos e os insights psicológicos por eles provocados.

A reconstituição histórica é excelente, não apenas na cenografia e figurinos, mas também no retrato da mentalidade da época, onde a psicologia era algo muito menos aceito e respeitado que hoje. Este mergulho nos anos 70 se reforça com o uso de letreiros similares a seriados policiais da época, e principalmente pela trilha sonora. O uso do rock e do pop dos anos 70 é parte da história, fazendo um retrato, em geral por contraste, dos momentos emocionais dos três protagonistas. O desencontro entre música e emoção funciona de forma perturbadora.

Já os efeitos sonoros estão sempre reforçando o ambiente. O som de tiros nos prédios de Quantico, o constante bater de teclas nos escritórios, o forte som de pés batendo no solo de personagens que dominam a cena, etc. A fotografia é sempre pastel, sempre árida, taciturna. Nunca os anos 70 foram retratados de forma tão pouco colorida, o que reforça o tema sombrio e indigesto.

Mas nada disto funcionaria sem a qualidade dos diálogos e interpretações. Os diálogos são verborrágicos, cada palavra dita é reanalisada sobre microscópio, e sempre algo ruim acaba por ser revelado. Todos os personagens tem problemas, limites e defeitos, mas mesmo assim se debruçam sobre o abismo da mente psicopata. E não, isto não os torna melhores.

O trio de personagens principais se baseiam em investigadores reais. Holdem Ford (interpretado por Jonathan Groff) é inspirado no autor do livro que inspirou a série, John E. Douglas. Bill Tench (Holt McCallany) se baseia em Holt McCallany, investigador do FBI que talvez tenha cunhado termo serial killer. E a Dra. Wendy Carr (Anna Torv) é inspirada na Dra. Ann Wolbert Burgess, psicóloga que auxiliou a análise comportamental de assassinos seriais e o vínculo desta psicopatia com traumas passados.  Ao buscar personagens reais como inspiração, Mindhunter conseguiu um trio de protagonistas complexos, e que se transformam a cada passo.  Graças a isto, notamos como entrar nas mentes de psicopatas acaba por ter um preço alto para os três.

Apesar dos investigadores serem os protagonistas, as estrelas do show são os assassinos.  E novamente a escolha de usar personagens reais reforçou muito o impacto. Cada um dos vários assassinos seriais que aparecem na série são assassinos reais. A profundidade de detalhes históricos, a qualidade das interpretações e a semelhança visual entre atores e personagens reais impressionam. Cada assassino retratado gera um calafrio estranho e único, uma perturbação que não é propriamente medo ou repulsa, mas algo mais sombrio.

A imagem de Ed. Kemper ficará em minha mente para sempre. E como o ator Cameron Britton conseguiu tanto com tão pouco ainda me intriga. Temos a entonação de voz, a linguagem corporal e a presença física de um buraco negro sem alma. O Ed. Kemper de Britton consegue ser mais perturbador e incomodo que Hannibal Lecter e Norman Bates juntos. Só isto já vale a série.

  • Maurício Costa

    Excelente crítica. Gostei muito de Mindhunter. No geral, a única coisa que me incomodou foi o excesso de diálogos dentro do carro. Ainda assim, trata-se de um pequenez técnica. É uma série sombria, perturbadora e que faz pensar. Meu tipo de entretenimento favorito.

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