Especial: Que rei sou eu? – Os monarcas britânicos no cinema e na TV (parte II)
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(a primeira parte deste especial você encontra aqui)

Henrique VIII

Junto a sua filha Elizabeth I e à Rainha Victoria, Henrique VIII é, provavelmente, o monarca inglês que mais atraiu roteiristas e diretores de cinema. Também pudera: sua vida foi digna de novela. O homem reinou por quase 38 anos, teve seis esposas e fez nada menos que romper com a toda poderosa Igreja Católica para formar sua própria religião e poder casar com quem bem entendesse.  Cronistas da época falam de um homem atraente, culto e bem sucedido. Das mais de trinta adaptações para o cinema e para a TV sobre sua vida, o Razão de Aspecto destaca:

Em 1966, Robert Shaw interpretou Henrique VIII no filme O homem que não vendeu sua alma, indicado a oito Oscar e vencedor de seis deles, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor (Fred Zinnemann), Melhor Ator (Paul Scoffield) e Melhor Roteiro Adaptado. A história se concentra no relacionamento entre Henrique VIII e Sir Thomas More (Scoffield), Lorde Chanceler do Rei que se recusou a apoiar a anulação do casamento do rei com Catharina de Aragão, sua primeira esposa, e a consequente ruptura entre o rei e a Igreja Católica, para que Henrique pudesse se casar com Ana Bolena, paixão tórrida que viria a ser sua segunda esposa. Ana Bolena, aliás, é o foco de Ana dos Mil Dias, de 1969. Ela viria a ser decapitada a mando do rei, acusada que fora de incesto, adultério e traição – crimes que a historiografia não confirma, e que seriam pretexto para que o rei tivesse caminho livre para se casar com Jane Seymour. No filme (indicado a dez Oscar, e tendo vencido apenas o de Figurino), o rei é interpretado por Richard Burton. O título faz menção ao tempo de reinado da personagem.

A história de Henrique VIII e seus casamentos – que envolveu não só a luxúria do rei, mas igualmente sua obsessão por gerar um herdeiro homem – é o foco de Henrique VIII e suas seis esposas, filme britânico de 1972. Keith Michell, que vivera o mesmo papel em uma minissérie para a TV dois anos antes, assumiu a coroa de Henrique VIII. Para as audiências mais jovens, a paixão do rei por Ana Bolena é tratada em A outra (2008), filme que mostra o paulatino desinteresse do rei (Eric Bana) por Maria Bolena (Scarlett Johansson) e o envolvimento com sua irmã mais nova, Ana (Natalie Portman).

Na TV, também não foram poucas as adaptações da vida do soberano inglês. Além da mencionada minissérie Henrique VIII e suas seis esposas, de 1970, destaca-se Henrique VIII, da TV Granada, de 2003, que conta a vida do rei desde o fim de seu primeiro casamento até sua morte. Ray Winstone é, provavelmente, o ator que fisicamente mais lembra a imagem clássica que se tem de Henrique VIII, ruivo e corpulento. Ana Bolena é vivida por Helena Helena Bonham Carter (e Emily Blunt, em seu primeiro grande papel, vive Catherine Howard, a jovem quinta esposa do rei). De 2007 a 2010, a série The Tudors acompanhou aproximadamente o mesmo período da vida do monarca.  Tendo um Henrique VIII vivido com intensidade por Jonathan Rhys Meyers, a série se preocupou mais com o entretenimento do que com absoluta fidelidade história. Violenta e erótica, a série teve um elenco de alto nível, que incluiu Peter O’Toole, Max von Sydow, Sam Neill, Maria Doyle Kennedy, Natalie Dormer (no papel que a tornou conhecida antes de interpretar a Margaery Tyrell de Game of Thrones) e um certo Henry Cavill, que viria a ser o Superman desta geração. Mais recentemente, Henrique VIII voltaria às telinhas interpretado por Damian Lewis (o Brody de Homeland), na série Wolf Hall (2015), que aborda a vida de Thomas Cromwell (vivido pelo oscarizado Mark Rylance), ministro e conselheiro pessoal do rei.

 Mary I e Mary of Scots

Maria I e seu reinado de cinco anos entrariam para a história pela violenta tentativa de retomar o catolicismo como religião oficial do reino. Sua sangrenta perseguição aos protestantes lhe valeu o apelido de “bloody mary”, que batizaria posteriormente um delicioso drinque. No cinema e na TV, é muito mais comum encontrar a personagem como coadjuvante dos filmes que tratam de seu pai Henrique VIII ou de sua irmã Elizabeth I. Com algum esforço, pode-se citar Marie Tudor, filme para a TV francesa, de 1966, em que Françoise Christophe vive a rainha. No imaginário recente, Kathy Burke interpretou uma incômoda Mary I em Elizabeth (1988), filme do qual falaremos na próxima parte do especial.

Mary I não deve ser confundida com Maria da Escócia (Mary of Scots), contemporânea de sua xará. Mary of Scots reinou na Escócia (como Mary I, daí a confusão frequente) de 1542 a 1567, viveu boa parte da vida na França e ocupou brevemente o posto de Rainha Consorte daquele país. De volta a seu país natal, uma revolta a faria abdicar em nome de seu filho, o ainda bebê James VI (que viria a ser o James I da Inglaterra). Fugindo da perseguição na Escócia, ela procurou refúgio na Inglaterra governada por sua prima, Elizabeth I, trono o qual Mary of Scots reclamara anteriormente. Temendo uma eventual nova disputa pela sucessão, Elizabeth a manteve presa por mais 18 anos, quando acabou decapitada, em 1586, acusada de tramar contra a rainha. 

 Ao contrário da Mary inglesa, a Mary escocesa recebeu atenção recorrente dos realizadores do cinema e da TV. Em 1938, Katherine Hepburn interpretaria a rainha em Mary Stuart, Rainha da Escócia. Outra grande dama das telas, Vanessa Redgrave, emprestou seu talento em filme homônimo – provavelmente o melhor sobre a personagem histórica, tendo sido indicado a cinco Oscar, inclusive de Melhor Atriz para Redgrave. Em 2013, Mary, Rainha da Escócia, filme franco-suíço, trouxe Camille Rutherford no papel principal. Vale lembrar, mesmo como coadjuvante, de Samantha Morton como Mary of Scots no excelente Elizabeth: A era de ouro (2007).  Recentemente, a série de TV Reign, que durou quatro temporadas (2013-17) cobriu – de forma bastante livre de apego histórico – parte da vida da rainha, vivida por Adelaide Kane.

E o encanto pela história de Maria da Escócia não para: em 2018, deve ser lançado mais um filme batizado de Mary Queen of Scots, com a superdupla Saoirse Ronan e Margot Robbie nos papeis de Mary e Elizabeth, respectivamente.

Elizabeth I

A filha de Henrique VIII e Ana Bolena é a hors concours desta lista. Tendo governado a Inglaterra em um momento de grande florescimento cultural – basta lembrar “apenas” de William Shakespeare e Christopher Marlowe-, Elizabeth I conciliou razoavelmente as disputas religiosas, e testemunhou uma época de afirmação britânica como grande nação e potência marítima – consolidada pelas ações de Francis Drake, o corsário da rainha, e pela derrota da Espanha nos mares. Cercada de um conselho de figuras notáveis, como Sir William Cecil (na política), John Dee (no misticismo) e Sir Francis Walsingham (superespião da rainha que desbaratou várias tentativas de golpes e atentados contra a Gloriana Regina, Elizabeth reinou por quase 45 anos, cultivou uma imagem quase mitológica e transformou a Inglaterra bastante diferente do que recebera, não por acaso associando seu nome àquele período histórico – a Era Elisabetana.

O cinema e a TV, obviamente, se encantaram pela história dessa mulher que começou afastada da linha sucessória, passou um tempo presa a mando da irmã bloody Mary e terminou como uma das três grandes monarcas da história da Inglaterra (junto a Victoria e Elizabeth II). Assim como no caso de Henrique VIII, são tantas adaptações de sua vida e reinado que o Razão selecionou apenas algumas:

Ninguém menos que atriz francesa Sarah Bernhardt, ícone de sua época, foi a primeira a interpretar Elizabeth I, no curta metragem francês Les Amours de la reine Élisabeth (1912).  Flora Robson interpretou a rainha em dois filmes: Fogo por sobre a Inglaterra (1937) e O gavião do mar (1940). Ambas as obras têm como foco o conflito entre Inglaterra e Espanha que levaria à derrota da Invencível Armada deste último. O filme de 1937 representou a primeira parceria entre Laurence Olivier and Vivien Leigh, e conta-se que a atriz foi escolhida para o papel de Scarlet O´Hara em E o vento levou (1939) por conta da interpretação nessa obra. Já o filme de 1940 tem um espírito mais aventureiro, e foi indicado a quatro Oscar (todos técnicos).

A atriz norte-americana Bette Davis também fez uma dobradinha no cinema no papel de Elizabeth I. Em Meu reino por um amor (1939), ela faz par romântico com Errol Flynn. Assim como no filme de 1912, a história centra-se no suposto romance da soberana com Robert Devereux, 2º Conde de Essex (e sobrinho-neto de Ana Bolena, vai novela!). O filme foi indicado para cinco Oscar. Dezesseis anos depois, Davis voltaria ao papel em A rainha tirana (1955), cuja trama é centrada na tentativa de Sir Walter Raleigh angariar apoio da monarca para suas explorações no Novo Mundo. Raleigh teria papel importante na colonização inglesa na América do Norte. O título original do filme – The Virgin Queen –  faz menção ao epíteto dado a Elizabeth I, devido ao fato de ela nunca ter casado e de ter cultivado uma imagem que a tornava quase divina. Poetas e escritores – e cineastas! – daquela e de épocas futuras aumentariam ainda mais a aura sobre-humana da rainha.

(mais Elizabeth I e outros reis e rainhas virão na parte três do especial, aqui)

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