Especial: Que rei sou eu? – Os monarcas britânicos no cinema e na TV (parte I)
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O Reino Unido tem uma prolífica e profícua produção cinematográfica dedicada a seus chefes de Estado e de Governo. Exemplo de continuidade monárquica que já dura mais que um milênio (incluído o período inglês pré-Tratados de União, de 1706 e 1707, e excluído o breve período de protetorado Cromwell, 1653-1659) e Império mais poderoso no século XIX,  o Reino Unido sabe aproveitar a vida – pública e/ou pessoal – de seus governantes como fontes para o cinema e para a TV. Para atores e atrizes, dependendo da produção, é flerte certo com indicações para grandes prêmios cinematográficos.

Com o lançamento de Victoria & Abdul (cuja crítica do Razão você pode ler aqui), estrelando a multipremidada Judi Dench, o Razão de Aspecto  relembra algumas das grandes obras sobre os monarcas britânicos, que parecem não esgotar o fascínio da audiência:

Alfred, o Grande

 A série O último reino é baseada na série de livros “Crônicas Saxônicas” escrita por Bernard Cornwell, e já teve duas temporadas. Embora o protagonista da história seja o fictício guerreiro Uhtred de Bebbanburg, o rei Alfred (papel de David Dawson) tem participação importantíssima nessa história que acompanha a resistência à invasão viking à Inglaterra no século IX, que levaria a unificação dos reinos ingleses sob um único governante (o “Bretwalda”). Na vida real, Alfred passou para a história como um homem instruído e piedoso, com grande capacidade administrativa e que incentivou a educação na língua local, e não em latim.

Edward II

Edward II reinou durante 20 anos, quando foi deposto em 1327. Como não é muito incomum na história da Inglaterra, os amores e desejos pessoais do monarca nem sempre coincidem com os costumes da época ou interesses da nobreza – algo que, aliás, gerou até uma cisma da Igreja Católica, o Anglicanismo. No caso de Edward II, sua relação íntima com Piers Gaveston, que viria a ser o 1º Conde da Cornuália, foi razão de polêmica e atrito. Casado com Isabella da  França em um acordo para resolver antigas desavenças entre os reinos, Edward tinha em Gaveston um amigo muito próximo. Para muitos, foram mais do que amigos – inclusive para Thomas Marlowe, dramaturgo que, no século XVI, escreveria uma peça sobre o rei em que Gaveston é retratado como amante do rei. De toda forma, o acesso direto ao monarca e a predileção deste por Gaveston irritou tanto a nobreza inglesa quanto a francesa. Gaveston seria exilado, retornaria à corte, e posteriormente seria assassinado. Após diversos atritos internos e externos, Edward II foi deposto em 1327, mesmo ano em que morreu, provavelmente assassinado por desafetos, tido por muitos como um rei fraco e opressor.

 

No cinema e na TV, a relação entre Edward e Gaveston foram objeto de dois bons filmes, ambos baseados na peça de Marlowe:  Edward II (filme para a TV, de 1970), em que ninguém menos que Ian McKellen interpreta o rei, e Eduardo II (1991), baseado com Steven Waddington no papel-título, Tilda Swinton como a rainha  Isabella e Andrew Tiernan como Piers Gaveston.  O filme de 1991 tem uma abordagem pós-moderna, mistura Idade-Média com século XX, e carrega as tintas na temática gay.

 

Henrique V

William Shakespeare nos presenteou com nada menos que dez peças sobre monarcas ingleses (no original, King John, Richard II, Henry IV Part 1, Henry IV Part 2, Henry V, Henry VI Part 1, Henry VI Part 2, Henry VI Part 3, Richard III e Henry VIII). Dessas, as mais famosas são, provavelmente, Henrique V e Ricardo III.

A primeira teve adaptações respeitabilíssimas para o cinema e para a TV. A versão de 1944 é estrelada por Laurence Olivier, e acumulou cinco indicações para o Oscar, incluindo as de Melhor Filme e Melhor Ator. Em 1989, outra adaptação chegou às telonas, anas mãos do então relativamente desconhecido Kenneth Brannagh, que, em sua estreia na direção, recebeu indicações para o Oscar de Melhor Ator e Melhor Diretor (o filme acabou recebendo apenas o prêmio de Figurino).  Desafio quem assista o discurso do rei Henrique V, no dia de São Crispim, antes da Batalha de Agincourt, e não sinta vontade de pegar em armas e lutar ao lado das tropas inglesas.  A terceira, de 2012 para a TV inglesa BBC, faz parte da série The Hollow Crown e tem Tom Hiddleston (o Loki dos cinemas) no papel principal.

 

Ricardo III

O caso de Ricardo III é um daqueles em que a memória derivada da cultura impõem-se sobre a vida real. Último rei da Casa de York e da dinastia Plantageneta, Ricardo III passou para história como um grande vilão, fisicamente deformado e capaz de tudo para ascender ao poder. Essa imagem foi estimulada pela dinastia Tudor (sim, aquela da série), que procurava demonizar Ricardo III com o objetivo de reforçar o reinado de seu sucessor, Henrique VII. Os relatos da época falam de um rei de baixa estatura e com um ombro ligeiramente mais alto que o outro, que, no geral, foi um “good lord”. Mesmo o sumiço de seus sobrinhos – potenciais herdeiros do trono a quem muitos acusam Ricardo III de ter assassinado – não é consenso entre os historiadores.

Na peça de Shakespeare, prevalece a figura vilanesca, que foi utilizada até em filmes de terror como A Torre de Londres – em duas versões: uma de 1939 e outra de 1962, esta última dirigida por Roger Corman e estrelada por Vincent Price. A adaptação mais clássica é a de 1955, dirigida e protagonizada por Laurence Olivier, que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator. O filme faz modificações no texto de Shakespeare, inclui cenas e corta outras. Em 1995, um outro Ricardo III em uma adaptação bastante interessante, estrelando Ian McKellen, desloca a ação da Idade Média para uma Inglaterra fascista fictícia no período entre Guerras. A forma como o filme adapta o texto para o novo cenário é genial (em especial a frase mais famosa da peça, “um cavalo, meu reino por um cavalo!”. Em 1996, Al Pacino dirigiu o documentário Ricardo III: um ensaio, no qual procura discutir a importância de Shakespeare na cultura popular ao mesmo tempo em que reencena trechos da peça. Poucas vezes foi visto um trabalho tão desconhecedor da obra shakespeariana quanto este filme. Em 2016, a BBC, em sua série The Hollow Crown, apresentou mais uma adaptação do texto, com o Sherlock-Dr.Estranho Benedict Cumberbatch como o personagem principal.

(aqui, a segunda parte do especial)

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