É possível usar a Netflix para aliviar o calor?

Ontem a noite a temperatura em Brasília estava em torno de 1645234 graus, com sensação térmica de inferno derretido. Meus ventiladores de teto estavam ligados no máximo, mas nada adiantava. Como o ar quente sobe, o vento por eles soprado não chegava no chão, e já subia de volta.

Em desespero, com medo que os 70% de água que compõem meu corpo se evaporassem, tentei usar a Netflix a meu favor, e assistir um combo de filmes que me fizessem sentir frio. A escolha dos filmes desta lista não foi feita com base em nenhuma análise além de serem os primeiros que encontrei com temas glaciais.

Comecei a Mostra de Cinema em Casa contra o Calor com Sangue no Gelo.

Eu gosto de filmes de serial killers. Não precisa ser um Silencio dos Inocentes para me agradar. Eu gostei até mesmo de Raman Raghav 2.0, então a chance de eu gostar de um filme de serial killers com atores do naipe de John Cusack e Nicolas Cage era bem alta. O problema? Primeiro, poucas cenas de neve para me inspirar a sentir frio. Além disto, o filme carece de um verdadeiro suspense, já sabemos de tudo logo de início. O drama com a personagem de Vanessa Hudgens é superficialmente abordado, de modo pouco inspirado. Os demais personagens são caricatos, e o calor irritante. Não há graves erros, mas também nenhum acerto significante, não alterando em nada meu termômetro. Sensação térmica inalterada. Nota: 2/5.

Felizmente está tão seco que apesar do calor, é impossível suar. Senão o sofá estaria já uma banheira antes do fim do primeiro filme. Para o segundo filme escolhi algo bem diferente. Saí de Hollywood e encontrei uma produção binacional, islandesa e norte-americana. A proposta ia bem no meu ânimo de preferir fim do mundo a continuar neste calor. Vamos falar agora de Bokeh.

Um casal americano resolve passar umas férias românticas na Islândia, mas após o primeiro dia de viagem acordam e descobrem que toda a população mundial desapareceu, sem deixar vestígios. Com isto eles tem de não apenas lutar pela sobrevivência, mas também reavaliar suas vidas e o que dá sentido a elas. No quesito de combate ao frio, o filme ajudou. O uso das paisagens naturais da Islândia, bem como as cenas na cidade completamente vazia foram refrescantes. O cenário exótico e belíssimo é quase um terceiro personagem a história. Os dois personagens são bastante convincentes, e os conflitos que eles passam são ao mesmo tempo simples e pessoais, mas também bastante existenciais. Qual o sentido de viver isolado de tudo e de todos? E qual o sentido de desistir de viver?Esta é a grande pergunta do filme. Comovente, mas um tanto lento e as vezes repetitivo, Bokeh nos dá vontade de nos perdermos na Islândia. Ou seria o calor? Sensação térmica: leve brisa. Nota: 4/5.

Mesmo com as horas avançando pela madrugada, o vento que entrava pela janela mais parecia o ar que sai do forno de uma padaria. Por isto escolhi assistir o primeiro filme que tivesse a palavra Ice no título. E felizmente encontrei Ice Guardians.

Ice Guardians fala sobre a cultura dos enforcers, atletas de hockey no gelo cuja principal função tática é intimidar os atletas adversários. Caso alguém cometa uma jogada desleal, que poderia causar uma lesão em um jogador de seu time, o enforcer tem a função, ou devo dizer, o dever, de cobrir o agressor de pancada. Literalmente. Seria uma intimidação contra a violência. Estas verdadeiras lutas fazem tanto parte da tradição do hockey sobre o gelo que existe um velho ditado entre os fãs do esporte: “Eu fui assistir uma luta, e um jogo de hockey aconteceu no meio”.

O documentário é tão bom em explicar a cultura e defender a tese que os enforcares são positivos para o esporte, que eu, que nunca assisti uma partida de hockey inteira, e nunca vi sentido em pessoas sairem no braço por causa de um jogo, fiquei convencido. E não só o documentário funcionou para alguém fora do seu público alvo, como é também um exemplo primoroso de montagem, edição, narrativa. Um excelente retrato de uma cultura que tenho contato e identificação nenhuma. Apesar disto, continuei sem vontade de assistir hockey, e com muito calor. Sensação térmica: deserto em fim de tarde. Nota: 5/5.

Com a composição de meu corpo se tornando 70% de vapor, não tive condições de voltar a ver filme antes da noite de hoje. Mas assim que me solidifiquei de novo tive o enorme prazer de assistir uma verdadeira obra prima de refrescância. Ventinho Refrescante

E aí a Netflix acaba de tornar todos os outros filmes de combate ao calor obsoletos. O personagem principal é vibrante, e oscila entre extremos mas sem perder a identidade. O personagem secundário é bem fluído, apesar de ter muita solidez dentro de seu interior, e desperta grande desejo. O filme tem um movimento constante, sendo jamais algo parado. Um novo ar diante da mesmice que vemos no cinema. Ventinho refrescante é a obra definitiva do cinema de combate ao calor. Sensação térmica de ventilador com água com gelo. Nota 5/5.

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