50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro- 8º dia
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Ao contrário do dia anterior, que deixou uma impressão excelente na equipe do Razão de Aspecto, o oitavo dia do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi considerado o mais fraco até agora, do ponto de vista cinematogrático. A impressão geral de todos os curta e longas exibidos foi a de que os realizadores tiveram ideias excelentes que não alcançaram seu potencial quando da realização dos filmes.

Salvou a noite a figura de Dedé Rodrigues, cineasta piauiense que, a despeito de baixíssimas condições de produção, não desiste de viver seu sonho de fazer cinema.  O documentário de curta-metragem que o apresentou essa carismática figura, Carneiro de Ouro, foi selecionado tanto para a Mostra Competitiva quando para a Mostra Brasília.  

Leia nossos comentários escritos sobre os fillmes, e, em seguida, assista ao nosso tradicional vídeo gravado logo na saída da sessão.

MOSTRA BRASÍLIA

-> Carneiro de Ouro: veja os comentários abaixo, na Mostra Competitiva.

-> Um Domingo de 53 Horas:

Lucas Albuquerque: O diretor se aproveita de um tema que solta faíscas e mexe com o brio da população para fazer um filme. Até aí problema algum. Contudo, entrega um material preguiçoso, bagunçado e que pouco acrescenta à discussão – dificilmente alguém mudará de lado ou mesmo parará para refletir a partir do filme. Os depoimentos colhidos são redundantes, enviesados e tem um diálogo simplório entre eles. A trilha é forçada, a analogia com futebol, idem e a cronometragem pouco funcional. O tempo e o modo como se debruçou na votação que culminou na aceitação do pedido de Impeachment da Dilma pela Câmara. Pelo material desperdiçado, nota: 1/5

Aniello Greco: O único mérito do filme foi conseguir o acesso as pessoas corretas para obter um bom material bruto. Um bom número de deputados e membros da imprensa deram seus depoimentos. O material jornalístico, quase todo composto dos votos dos deputados na autorização do processo de impeachment da Dilma, também é bem rico. Mas um documentário não é feito apenas de boas entrevistas. É preciso que se conte algo. Ou uma história, ou uma tese, ou no mínimo um novo enfoque sobre um evento ou fato. Um domingo de 53 horas é um conjunto de entrevistas e cenas desordenadas, com uma enfadonha repetição de bordões já conhecidos e explorados a exaustão. A tentativa de novidade fica pelo casal que seria a representação do “cidadão comum”, que quase não falam e não despertam nenhum interesse ou novidade. Nota: 1/5

 

MOSTRA COMPETITIVA

-> Chico:

Lucas Albuquerque: a premissa também parte de uma discussão atual: a maioridade penal, mas aqui em um clima distópico e exagerado (no bom sentido). Consegui me conectar mais com o espaço, graça ao excelente design de produção, do que com os personagens. Estes soaram vazios e monotônicos. A crueza dá lugar a alegoria sem uma conexão suave. Parcialmente bem dirigido e fotografado, vide o plano sequência no meio, Chico perdeu fôlego e dava pra ser maior do que foi. Nota: 3/5

D.G.Ducci: partindo de uma proposta excelente – a de uma lei aprovada de repressão preventiva (isso mesmo!) a menores com histórico familiar e social de crimes, o curta se complica um pouco ao querer atirar para vários lados. Há a tensão familiar entre mãe e avó na criação do personagem-título; há a tensão da invasão iminente da favela por parte da polícia; há um final alegórico. São todas boas ideias em si, mas que acabam tendo pouco tempo para serem desenvolvidas. A parte técnica é boa e há um plano sequência de tensão crescente no meio do filme (mas que poderia ter um desfecho mais impactante). Nota 3/5

Aniello Greco: Um curta de ficção futurista em cenário distópico, e com temática brasileira. Só isto já representa uma ótima novidade. A história é excelente, uma metáfora para a questão do racismo e exclusão social que está por detrás do discurso de combate a criminalidade, em especial no tópico do menor infrator. Visualmente muito bem concebido, e com um plano sequência importante e bem realizado, o filme perde o fôlego com personagens unidimensionais, interpretações sem apego e por se apoiar muito em um conflito não convincente entre mãe e avó. Senti que mais espaço deveria ser dado ao filho, para termos empatia. O final alegórico funcionaria melhor se tivesse mais alegorias ao longo do filme. Nota: 3/5

 

-> Carneiro de Ouro:

Lucas Albuquerque: o grande mérito do documentário foi dar luz à uma figura das mais carismáticas:
o cineasta piauiense Dedé Rodrigues. Quando o filme foca no humor, totalmente natural, de Rodrigues a produção ganha força. Mas a direção parece que não conseguiu ir além da “descoberta” do personagem. Com uma câmera tremida e perguntas amadoras, temos uma figura muito maior que o filme que a representou. Nota: 2/5

D.G.Ducci: uma das possibilidades para um documentário é justamente a de apresentar para um público mais amplo uma situação ou personalidade pouco conhecida. É o caso de Carneiro de Ouro. Produzido em Brasília, mas focado na encantadora figura de Dedé Rodrigues, cineasta amador piauiense. É praticamente impossível não se apaixonar pela simplicidade e pela perseverança do retratado. Saí do filme querendo saber mais sobre Dedé Rodrigues, e assistir a toda a saga da trilogia Cangaceiros fora do tempo e do Sanfoneiro que tocou no inferno. Nisso o documentário é extremamente bem sucedido. Entretanto, o filme carece de um pouco de foco (pun intended) narrativo e poderia explorar mais e melhor seu objeto. Pelo prazer oferecido, nota 3/5.

Aniello Greco: Dedé Rodrigues é um personagem com quem eu gostaria de conversar por dias. Talvez devido ao exotismo e choque cultural, me causou mais empatia até mesmo que o nosso querido Afonso Brazza, figura muito similar. Só o carisma dele, a ingenuidade deliciosa de seus filmes, e a facilidade e sinceridade dele perante a câmera faz do filme algo muito divertido. Infelizmente o filme só tem isto. Faltou a direção do documentário explorar mais o tema, entrevistar de verdade Dedé Rodrigues, questioná-lo, explorar as diferenças culturais entre o sertão do Piauí e os centros urbanos brasileiros, e questionar o que é o cinema para Dedé e para nós. Se Dedé Rodrigues merece nota 6/5, o documentário fica apenas com Nota: 3/5

Era uma Vez Brasília:

Lucas Albuquerque: um vazio narrativo, ainda que a pretensão seja de algo rico, invade a tela e torna a experiência do público quase insalubre. Metáforas banais com a situação política andam lado a lado com alegorias pseudo profundas. Foi um parto conseguir ver este filme até o final. A fotografia, figurino e o som montam um cenário melhor que a direção e o roteiro. Cenas de 40 minutos com um grande nada tomam a tela e o tempo de quem está assistindo Nota: 1,5/5

D.G.Ducci: A impressão que se tem ao final de Era uma vez Brasília é a de que seu diretor não tinha qualquer enredo a ser filmado, e esticou sua premissa (muito interessante, diga-se, de um viajante intergalático que por acidente cai na Terra na época do impeachment de Dilma Rousseff) o máximo que pode, para conseguir chegar  uma minutagem de longa-metragem. Na quase totalidade das cenas, seus personagens – bem mais fracos do que os de Branco sai, preto fica, longa anterior do diretor – estão olhando para o nada, ou acendendo cigarros, ou aparecendo em tela fazendo coisas desconexas. Tomadas que deveriam ter 10 segundos em tela se arrastam por quase um minuto, sem que isso acrescente nada ao filme. O roteiro sai do nada para lugar algum, e, quando tenta dar um subtexto político, usa alegorias manjadas e óbvias. A parte técnica – fotografia e design de som são boas, mas valeria ter investido bem mais na construção da trama. Um desperdício em forma de filme que leva nota 1,5.

Aniello Greco: o filme tinha tudo para me agradar. Adoro ficção científica. Adoro o visual meio ciber-steampunk meio Heavy  Metal Magazine que o filme adota, com competência. Gosto de filmes alegóricos, que sugerem, por analogias visuais, temas e interpretações abertos, mais por sensações que pelo raciocínio. O uso dos cenários, tanto urbanos de Brasília quanto cenários montados, em especial os carros modificados, funcionou. Mas todo o resto não. As analogias são tão simplórias quanto forçadas e banais. A falta de qualquer estrutura narrativa, o prolongamento  irritante de todas as cenas, e principalmente o vazio de conceitos que não se preenche pela pretensão de se dizer algo só pela estranheza e falta de sentido tornam o filme uma tortura. A cada fade out eu torcia pelo fim do filme. E se a ordem das cenas fosse toda embaralhada, em nada mudaria a falta de sentido da narrativa. Nota: 1/5

#FestivalDeBrasíliaDoCinemaBrasileiroOitavo dia. Primeiras impressões!

Posted by Razão de Aspecto on Friday, September 22, 2017

 

As fichas técnicas completas dos filmes vocês encontram na página do Festival de Brasília.

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