50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro- 6º dia
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Passada a primeira metade do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o Razão de Aspecto alcançou a marca de 35 filmes (entre curtas e longas das diversas mostras) assistidos. Dezenas de filmes vistos, dezenas de filmes a ver. O 6º dia foi marcado por polêmicas e unanimidades. Na pauta, os temas da sexualidade, do feminismo e do racismo se destacaram. Quanto à qualidade dos filmes, o padrão dos dias anteriores se manteve. Alguns curtas excelentes seguidos de longas menos inspirados, em especial na Mostra Brasília, na qual os longas deste ano, até o momento, estão abaixo do esperado.

Por parte do público tivemos uma reação bastante negativa à Jeitosinha. Apesar de ter havido risos e reações positivas por parte da platéia durante a exibição, a forma como a comédia de Johil Carvalho e Sérgio Lacerda (baseada na história em quadrinhos Jeitosinha, mas vagabunda, de Maurício Ricardo, por sua vez baseada em uma “rádio”-novela da Internet) retratou a sexualidade, em especial a transexualidade,  gerou protestos entre os espectadores. E teve recepção igualmente negativa pela equipe do Razão de Aspecto.

Já o curta metragem Tentei foi o destaque positivo, em especial pela interpretação de Patrícia Saravy. Entra como favorita para melhor atriz de curta metragem até o momento. E se Jeitosinha foi a polêmica do dia no festival, O Nó do Diabo foi a polêmica interna na equipe do Razão de Aspecto, sendo o filme desta edição do Festival com opiniões mais díspares entre os integrantes até o momento.

Por questões de logística acabamos por não gravar dois vídeos ao vivo como vínhamos fazendo, um no fim da Mostra Brasília e outro da Mostra Competitiva. Condensamos os comentários em um único vídeo, no final da noite.  Devido ao número de filmes, e a polêmica de O Nó do Diabo, foi o vídeo ao vivo mais longo gravado neste festival. Foi quase uma Mesa Quadrada, com a quase participação do nosso querido Vavá, do site Cinema Detalhado:

Festival de Brasília – Dia 6

Posted by Razão de Aspecto on Wednesday, September 20, 2017

E como sempre, após o vídeo, os comentários escritos de nossa equipe.

MOSTRA BRASÍLIA:

Afronte:

Lucas Albuquerque: inegável a importância do tema (parte da cena negra-gay no DF), ainda mais em tempos tão obscuros. Contudo o documentário se detém na fala dos personagens retratados. A reflexão pela simples exposição soa preguiçosa. NOTA: 2/5

Habilitado para morrer:

Lucas Albuquerque: produção universitária que surpreende pelo valor de produção. Ótimas ideias, bem executado e com um trabalho técnico de deixar muita gente mais experiente no chinelo. A turma está de parabéns. Narrativamente, a história sobre a máfia das CNHs, tem problemas. O uso da narração desequilibra a fluidez do texto e acaba exalando um comodismo que não condiz com o resto. As atuações também são limitadas. O todo, contudo, convence bem. NOTA: 3/5

A inviolável leveza do ser:

Lucas Albuquerque: as únicas coisas possíveis de serem ditas é que o filme faz referência ao livro A Insustentável Leveza do Ser e que trata da questão feminina. Pela proposta, fica complicado pontuar.

O menor curta do festival também foi o responsável pela menor entrevista já feita pelo Razão de Aspecto, com Júlia Zakarewicz.

Posted by Razão de Aspecto on Wednesday, September 20, 2017

 

Jeitosinha: 

Aniello Greco: O pior filme da noite, e um dos piores que vi recentemente. Se formos olhar exclusivamente como obra cinematográfica, temos um roteiro baseado em estereótipos, um humor apelativo, repetitivo e hipersexualizado; uma edição estranha, com uma escolha de transição de cenas estranhas e graves saltos narrativos sem sentido, em especial a forma como a protagonista vai para em um prostíbulo em Brasília. Interpretações do nível de A praça é nossa. Mas tudo piora muito devido a forma com a transexualidade é retratada, em especial se lembramos do perfil do Festival de Cinema de Brasília. Um filme péssimo em termos de cinema, e repulsivo em termos de retratar a sexualidade humana. Os responsáveis pelo filme deveriam conhecer o caso David Reimer e entender porque ele não é nem engraçado, nem transexual. Não consigo entender como este filme foi selecionado para a Mostra Brasília. Nota: de repúdio. 

Lucas Albuquerque: é difícil falar de Jeitosinha. Ainda mais no contexto do Festival. Enquanto alguns filmes carregam as tintas na mensagem e esquecem o cinema, este inverte a ordem: esquece o cinema e acaba carregando na mensagem. Por ter um cinema muito pueril, o tema acaba se sobressaindo. E ele é um desastre neste quesito. Mas ficando apenas na parte técnica: é triste ver que alguém ache graça nas transições em forma de slide ou então em fazer piada com “a minha vara é de família”. A comédia Jeitosinha é triste, não pelo drama – este também quase nulo aqui – mas por praticamente todas as opções serem infelizes. Nota 1,5/5

 

MOSTRA COMPETITIVA

-> Tentei

Aniello Greco: Um curta que é absorvido como um soco no peito. De tirar o fôlego. Retrata uma realidade que sabemos que ocorre todos os dias, mas que fingimos não existir. Vivenciar isto em tela grande é um choque. Destaque para a interpretação de Patrícia Saravy, que merece ser premiada até momento. E também para o personagem responsável por colher o depoimento da protagonista. Uma mostra que comportamento machista e excludente nem sempre é agressivo, e pode parecer ser educado, simpático e até empático. Nota: 5/5

D.G.Ducci: É o que um curta deveria ser:  curto e impactante. Absoluto show da atriz protagonista, e um exemplo de que para fazer algo de qualidade não é preciso nem inovar demais, nem se tornar hermético. O drama da personagem principal é tema recorrente e não foi necessário tentar reinventar a roda para fazer um excelente filme. O tratamento do tema aqui é ao mesmo tempo feito de forma a evitar exageros de estereótipo e a deixar o espectador encolhido na cadeira ao final da exibição. Se as escolhas do Festival tivessem a ver com qualidade, seria candidatíssimo ao prêmio de melhor curta. Nota 5/5.

Lucas Albuquerque: palmas para Lais Melo. Quisera eu que o filme dela não fosse um retrato tão fiel da dura realidade da mulheres, mas já que a violência doméstica existe, em números muito maiores que as estatísticas dão conta, então nada melhor que impactar com a arte. Temos tudo aqui: construção de personagem, conflito, desfecho… Uma atuação sincera e uma entrega vigorosa e sutil. Com Tentei, e que título pesado, Lais mostra o equilíbrio perfeito entre a função social e artística do cinema. Sem exagero: obra prima. Nota: 5/5

 

 

-> O nó do diabo

Aniello Greco: Antes de tudo é muito bom ver um filme de terror, meu gênero favorito, no Festival de Brasília. E um filme de terror bem brasileiro. A temática da escravidão, a linha narrativa com cronologia invertida e identidade visual, fotografia e maquiagem do filme são excelentes. Mas, talvez por ter sido pensado inicialmente como série de TV falta uniformidade narrativa, tem problemas de ritmo, erros no uso da trilha sonora e na tentativa de criação de suspense. Começo fraco, final excelente, e um raro caso em que mais clichês do gênero ajudaria. Nota: 2,75/5.

D.G.Ducci: O filme traz cinco contos de terror unificados pelo espaço geográfico em que ocorrem (uma fazenda) e pela temática geral da relação entre o proprietário da terra e seus escravos (ou potenciais “pretos invasores”. A estrutura narrativa do longa é montada de forma que o primeiro conto se passa em 2018 e o último deles ocorre em 1818. Desta forma, elementos que vemos inexplicados em determinados contos têm sua origem revelada em contos seguintes. Como toda obra com capítulos dirigidos por realizadores diferentes, aqui também ocorre um certo grau de irregularidade. Por outro lado, essa proposta de roteiro é bem mais ousada e interessante do que os grandes silêncios e cenas herméticas que acometem parte da cinematografia brasileira. Há que se destacar a dupla camada de horror:  há os elementos sobrenaturais nos contos, mas há também o horror da escravidão e do pensamento político e social tosco e egoísta (retratado muito bem pela estação de rádio ouvida pelo protagonista no primeiro conto). Outro ponto positivo é a utilização de elementos bem brasileiros para causar medo – e sem precisar apelar para contos consagrados do folclore. O filme peca por ser um pouco longo demais para a proposta – resultado, possivelmente, da estrutura original pensada como série. No primeiro conto, o uso da trilha sonora para criar tensão poderia funcionar melhor se o expediente não fosse utilizado de forma tão recorrente. O quarto conto é dos mais interessantes, mas merecia ser bastante enxugado. O veteraníssimo Fernando Teixeira (de Baixio das Bestas, Aquarius Deserto), no papel do fazendeiro Vieira, funciona como uma espécie de Christopher Lee tupiniquim. Nota 4/5.

 

Lucas Albuquerque: os médias metragem dentro do longa O Nó do Diabo funcionam de modo irregular. Algo comum em antologias, aqui realçado pelas oito mãos da direção. Apesar do claro fio narrativo que mais que conecta, integra cada história, a tentação é analisar cada trecho em separado. Enquanto uns pesam o lado político, outros vão para o psicológico, temos também o mais voltado para terror explícito. Com a violência do homem branco expandida de várias maneiras, dentro de um mesmo espectro, ligando cada história. Méritos de maquiagem, deméritos sonoros. Méritos e deméritos interpretativos. Poderiam colocar O Nó do Diabo na fronteira, mas o ritmo tão arrastado pontua contra de forma considerável. Nota: 2,5/5

 

Se ainda não conferiu, confira a cobertura dos dias anteriores de Festival aqui:

Abertura e 2º dia

Terceiro Dia

Quarto dia

Quinto Dia

 

O Razão de Aspecto continua a exaustiva cobertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

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