50º Festival de Cinema de Brasília – 5º dia
  • 20
  • 09

No 5º dia do Festival de Brasília, o Razão de Aspecto conferiu os filmes exibidos na Mostra Brasília e na Mostra Competitiva.

Pela Mostra Brasília tivemos o curta infantil O menino leão e a Menina Coruja e o longa infanto-juvenil  A menina de Barro. Ambos os filmes abordam temáticas muito similares, o preconceito e a intolerância no ambiente escolar, e a prática de bullying. Como A menina de Barro foi um filme financiado coletivamente, com a participação de diversas ONGs, boa parte do público na sala de cinema eram ou financiadores diretos do filme, ou simpatizantes com a causa por ele debatida. Assim estar na sala de cinema  foi testemunhar uma verdadeira catarse do público, coisa que nunca vemos fora de festivais. Provavelmente vimos os dois vencedores do juri popular da Mostra Brasília.

Mas a qualidade dos filmes nem sempre são compatíveis com a reação do público, em especial nestes casos. O menino leão e a menina coruja mereceu cada aplauso. O mesmo não pode ser dito de A menina de Barro. Apesar do tema justo e necessário, nem sempre um bom tema gera bons filmes.

Logo ao sair da sala de cinema, Lucas Albuquerque e Aniello Greco teceram suas considerações. Após o vídeo, a análise por escrito:

#FestivalDeBrasíliaDoCinemaBrasileiroMenino e a Menina Coruja e A garota de Barro.

Posted by Razão de Aspecto on Tuesday, September 19, 2017

O menino leão e a menina coruja: 

Aniello Greco: Antes de tudo um filme simpático. Uma proposta simples e um tanto ingênua, mas executada de forma competente e funcional. O filme retrata uma escola de “crianças-bicho”, e a diferença entre as espécies serve de metáfora as diferenças sociais em um ambiente escolar. Leve quando necessário, mas sem banalizar tema, e consegue desenvolver muito bem o arco dramático entre os dois personagens título. Talvez tom caricatural tenha passado um pouco do ponto, mas considerando a metáfora e o público alvo, mais que justificável. Nota 4/5.

Lucas Albuquerque: como ser infantil sem tratar as crianças como idiotas, eis a chave do sucesso em O Menino Leão e a Menina Coruja. O tema da intolerância e da aceitação do diferente abordado de forma precisa e direta. Direção de arte e maquiagens simples, mas muito carinhosa. Curta voltado para o público infantil e que pode plenamente servir de referência para as escolas. Nota: 4/5

A menina de barro:

Aniello Greco: Um filme claramente institucional, que comete um erro comum em filmes financiados por instituições políticas, no caso, ONGs. Ao invés de criar uma história que ilustre e transmita uma ideia, cria-se personagens que discursam e explicam a ideia, e ao redor do discurso destes personagens cria-se um arcabouço de roteiro. O resultado? Personagens explicando o que a câmera deveria mostrar. Isto fica ainda mais incômodo quando logo após cenas de discurso descritivo temos cenas que nada contribuem trama, algo que acontece repetidamente ao longo do filme. Mesmo que não houvesse erros técnicos, e estes abundam, como erros de montagem, mixagem de som, interpretações lamentáveis, trilha inadequada, etc, só esta falta de uso da câmera como instrumento narrativo afundaria o filme. O tema sem dúvida merece filmes melhores. Nota  1/5.

Lucas Albuquerque: tudo errado. Eis o resumo de A Menina de Barro. Falar de crianças super dotada, empoderamento feminino e bullying são pertinentes? Claro. Mas, querido leitor, não confunda o tema com o filme. Coisa que o longa faz o tempo inteiro. Além de parecer um episódio ruim de Malhação, há constantes explicações sobre o que está acontecendo na tela, como se o público não fosse capaz de assimilar coisa alguma. Tudo é falado, pouco é mostrado. Falta de recurso até pode justificar (o que não ameniza) erros na mixagem de som, fotografia e trilha, porém um roteiro escrito desse jeito é um insulto. Nota 1/5 (provável vencedor do público, como o aniello adiantou)

Na Mostra Competitiva o tom foi ainda mais político que na Mostra Brasília. O curta Mamata conta a história de um jovem sem rumo na vida entrando em crise junto com a crise política brasileira atual. Já Construindo Pontes é um documentário sobre a relação entre a diretora Heloísa Passos e seu pai, Álvaro Passos, e conflitos pessoais entre pai filha se misturam ao conflito direita x esquerda nos últimos 50 anos de política brasileira.

O tradicional vídeo na saída da sala de cinema contou com a participação especialíssima de Barbara Kruczyński, dos sites Wanna be Nerd e Nem um pouco épico. As críticas de Lucas Albuquerque e Aniello Greco seguem abaixo do vídeo.

#FestivalDeBrasíliaDoCinemaBrasileiroConstruindo Pontes e Mamata

Posted by Razão de Aspecto on Tuesday, September 19, 2017

Mamata:

Aniello Greco: Eu não rio fácil no cinema. E neste eu cai na gargalhada, como há tempos não fazia. Uma comédia simples, mas extremamente eficiente. A atuação do ator/diretor Marcus Curvelo é 90% do filme, pois praticamente o filme todo o que vemos é apenas ele atuando para tela. Mas não só a atuação é ótima, como a  montagem é preciosa. As inserções de cenas são inesperadas e com ótimo timing, e as participações de celebridades dão um extra. Um exemplo de como se pode ser político, artístico e bem humorado. Acredito que tanto Michael Temer ou Dilma Rousset ririam deste filme. Nota 5/5

Lucas Albuquerque: uma tragicomédia brasileira de 2017. Um filme que sabe o que quer e entrega um retrato do tempo dele. Corajosas e precisas aparições de Luciano Huck, Vanusa, o patinho símbolo de propostos, Voz do Brasil, entre outras. Com uma proposta política clara (e problema algum nisso), Mamata ganhou o público na noite em Brasília. Por hora é o meu favorito, ainda melhor que Nada, exibido dias antes. Nota 5/5

Construindo Pontes

Aniello Greco: Um projeto ousado e corajoso. A ideia de inserir a câmera no cotidiano familiar da própria diretora e expor seu conflito com o pai, como forma de debater a política nacional é curiosa e instigante. O senso estético e o uso da câmera de Heloísa Passos é excelente. Cabe também elogios a sensibilidade da diretora ao nunca vilanizar o pai, apesar do claro antagonismo. A diferença, o conflito e o rancor aparecem, mas sem juízos de valor. Mas como a própria diretora afirmou na apresentação do filme, Construindo pontes é cinema de improviso, e isto acabou por gerar uma falta de estrutura, de esqueleto. Ou como provavelmente diria Álvaro Passos, o pai, de um projeto. Ao tentar ser pessoal e nacional ao mesmo tempo, o filme termina ficando invertebrado, com cenas desconexas, falta de unidade e de destino. Aplausos à ideia e à técnica, mas faltou narrativa. Nota 3/5.

Lucas Albuquerque: de certo modo o longa é sobre choque de gerações, é sobre política e é sobre a família da diretora, principalmente como tudo isso se conecta na vida dela. Infelizmente no filme – que também traz tal conexão – o que vemos é uma falta de norte. Intencional ou não, essa proposta ficou cambaleante. Curioso e até belo em alguns momentos, monótono e íntimo demais em outros. Nota: 2,5/5

Perdeu a cobertura dos primeiros dias do festival? Confira como foram os dias anteriores:

Abertura e 2º dia

Terceiro Dia

Quarto dia

Posts relacionados
  • 23 fev 2017
  • 0
O longa-metragem de ficção “Não Devore Meu Coração!”, estrelado pelo ator Cauã Reymond, acaba de divulgar sua participação no evento mais antigo de cinema da América Latina: o...
  • 31 out 2016
  • 0
Corrente do Mal é um clássico instantâneo.   Gênero: Terror Direção: David Robert Mitchell Roteiro: David Robert Mitchell Elenco: Bailey Spry, Carollette Phillips, Charles Gertner, Daniel Zovatto, Debbie Williams,...
  • 6 set 2017
  • 0
Documentário histórico sobre a política externa do governo Lula tem lançamento mundial em Video On Demand, no dia 6 de setembro. Trailer: A política externa...