A Vigilante do Amanhã perdeu o fantasma não só no título.

Em A vigilante do Amanhã, a carcaça de Ghost in the shell é a mesma. Mas faltou o fantasma.

O gênero de ficção científica sempre foi um gênero irmão da fantasia, afinal, como diria a terceira lei de Clarke, qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia. Mas as melhores histórias de ficção cientifica se diferenciam do gênero de fantasia ao usar da relação do homem com a tecnologia e a ciência como instrumento para questionarmos o que é ser humano.

Em Metrópolis um robô é usado como metáfora da automação do homem em uma sociedade industrial. Em 2001 – Uma odisséia no espaço nos perguntamos sobre o que fez o homem se separar das bestas. Em Blade Runner analisamos se o que nos faz humanos são nossas memórias, emoções ou a natureza biológica. Em A chegada aprendemos que o modo como escolhemos descrever a realidade pode mudar completamente qual a realidade que vivemos. É exatamente este diferencial, de nos fazer perguntar sobre a nossa natureza, que coloca estas histórias em um patamar diferente, acima das ficções científicas apenas excelentes.

Ghost in the shell, o anime de 1995, pode e deve ser comparado a estes clássicos, sendo uma das melhores histórias Sci-Fi já feitas em mídia audiovisual. Praticamente todos os grandes títulos posteriores de ficção científica foram influenciados por ele. Em Matrix, A.I, Avatar, Surrogates, Minority Report, Ex Machina, Westworld, etc, vemos diversas influências visuais e temáticas desta obra basilar. Para o subgênero ciberpunkGhost in the shell está no mesmo patamar de influência do livro Neuromancer ou do filme Blade Runner.

A história de como a Major Motoko Kusanagi enfrenta o misterioso Pupet Master joga uma luz completamente nova no antigo dilema sobre o que são a mente, a consciência e a alma humanas. Em uma sociedade onde se consegue transportar a mente humana para corpos cibernéticos, e onde é possível hackear mentes, roubar informações, alterar memórias, etc, o que significaria a consciência? Será que aquilo que chamamos de “eu” é apenas um fantasma que habita um corpo?

Junte a qualidade da história original com a legião de fãs tanto do anime de 1995, quanto do anime seriado e do mangá, e fica fácil entender por que o novo filme da Scarlett Johansson, que estréia nesta quinta, dia 30 de março, é uma das estreias mais aguardadas do ano.

E para a felicidade dos fãs, é inegável que o filme cumpre o papel de homenagear o anime. Visualmente a versão atual é impecável. Há diversos momentos em que as cenas da animação são reproduzidas de forma absolutamente fiel, e os efeitos especiais estão tão bem elaborados que se resultaram em um visual tão fantasioso e deslumbrante quanto o da obra original. O uso da câmera aberta e de passagens aéreas, tão marcantes na animação, também está presente na versão live action, com resultados bem similares. Assisti em 3D, e recomendo que você faça o mesmo.

A trilha sonora é um dos pontos fortes da nova produção. Lorne Balfe e Clint Mansell fizeram uma mistura dos temas atonais e bem japoneses da trilha composta por Kenji Kawai, em 1995, com uma batida eletrônica ocidental. Perdeu-se um pouco da estranheza que a trilha original produzia, mas ganhou-se em tensão e clima, com um resultado ao mesmo tempo fiel e inovador.

É inegável que Rupert Sanders (de O caçador e a Rainha do gelo ) teve a liberdade e a coragem de não apenas refilmar a animação de 1995, mas também de deixar a sua marca. Não é só na trilha sonora que notamos diferenças claras entre as duas obras. O roteiro também toma outro rumo. Muito dos acontecimentos centrais permanecem, mas optou-se por alterar o antagonista. Agora a Major não enfrenta o Puppet Master, mas sim Kuze. Não é uma mera troca de nomes, mas um personagem totalmente diferente (e, para quem assistiu a série ou leu os mangás, também não é exatamente o Kuze que vocês conhecem).

Esta mudança de antagonista traz consigo uma mudança no centro dramático da história. Os conflitos psicológicos da personagem de Scarlett Johansson, com sua desumanização, e do quanto seu ghost, sua mente e sua humanidade se perderam e se tornaram propriedade de uma megacorporação, ganham mais destaque. Mas com esta mudança se perde muito da essência da história original. Com a saída do Puppet Master, se perde muito do questionamento acerca do que é a alma de um ser. E sobre qual seria o papel da consciência humana onde até mesmo as mentes se tornam mais um tipo de dado em uma rede de informações.

E como Kuze tem motivações bem diversas do antigo vilão, mas faz quase os mesmos atos, algumas soluções de roteiro ficaram não tão redondas, não tão orgânicas, e, em algumas cenas, as motivações de alguns personagens ficaram totalmente inverossímeis.

Além disto o filme é, em vários momentos, cansativamente expositivo, com atores descrevendo e esmiuçando sentimentos que já são mostrados visualmente. Isto ocorre até mesmo os letreiros iniciais, que, subestimando a inteligência do espectador, servem apenas para explicar o óbvio.

Scarlett Johansson está perfeita em seu papel, mostrando que é bem mais que seus atributos físicos. Eles estão presentes, e são bastante explorados. Mas a angústia, a solidão e o desespero de alguém que já não se sente parte da humanidade também aparecem, o tempo todo. Mesmo por detrás de expressões e gestos robotizados da atriz. Pilou Asbaek (que já contracenou com Scarlett Johansson em Lucy) faz o contraponto, com o extremamente humano Batou, o único verdadeiro amigo da Major. Michael Pitt (de Os sete psicopatas e um Shih Tzu) não está tão bem assim, mas muito devido às deficiências de seu personagem. Kuze não é um bom antagonista, e sim uma costura meio esquisita de conceitos. Cabe destacar ainda a personagem de Juliette Binoche (da trilogia das cores do Kieslowski). Apesar de ser um papel menor, a Dra. Ouelet é um dos personagens mais complexos, ao mesmo tempo idealista, humana, cruel e corrompida.

Na soma final, temos um filme que irá agradar aos fãs do anime e ao público em geral, apesar de todas as alterações terem sido para pior. O visual e a força da história (mesmo enfraquecida com as mudanças) compensam os erros. Mas infelizmente perdeu-se o debate mais interessante com as mudanças. A vigilante do amanhã merece a tradução questionável que recebeu, pois não há mais debate sobre o ghost.

O debate aberto pelo anime de 1995 está cada vez mais atual. Hoje, vivemos em uma sociedade onde manipulamos quimicamente o estado mental de boa parte da população com psicotrópicos (eu, incluso). Difícil encontrar algum adulto que não tenha tomado pelo menos algum antidepressivo. As máquinas estão cada vez mais inteligentes. Conversamos com nossos celulares, e alguns softwares de inteligência artificial já passaram por algumas versões do Teste de Turing. A medicina de implantes neurais já está dando seus primeiros passos. O dia em que a diferença entre homem e máquina não será mais clara está chegando, e em uma ou duas gerações as perguntas levantadas em 1995 não serão mais ficção. E teremos que pensar seriamente em como lidar com novas formas de ser humano. Uma pena que, 22 anos depois, Hollywood tenha optado por não seguir no debate.

Nota do Razão de Aspecto:

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  • Leandro Lombardi Cazo

    Muito boa analise, virou moda massacrar esse filme por causa do “whitewashing”, o que é muito injusto, na minha opinião foi uma exelente adapitação, que traz algo novo, respeitando o filme de 95, afinal se quisesemos ver a mesma trama não haveria necessidade do filme ser feito

    • Aniello Greco

      Que bom que gostou. Acho que a preocupação com o “whitewashing” é um tanto descabida neste filme, principalmente por que, mesmo a Major sendo originalmente japonesa, os traços do Anime, tanto da Major quanto de outros personagens são bem ocidentalizados. Fisicamente a Major nunca pareceu ser ocidental. O Batou, então, sempre me lembrou o Bruce Willis,

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