Faroeste Caboclo ou Eduardo e Mônica? – Crítica
No final de fevereiro estreou na Netflix um filme muito especial para quem é brasiliense com mais de 40 anos como eu: Faroeste Caboclo, o filme baseado na clássica  música homônima composta por Renato Russo. Um filme que com certeza irá agradar aos fãs da música, mas talvez desagrade os fãs de cinema.
Gênero: Drama
Direção: René Sampaio
Roteiro: Marcos Bernstein, Victor Atherino
Elenco: Antônio Calloni, Caco Monteiro, Cesar Troncoso, Fabrício Boliveira, Felipe Abib, Flavio Bauraqui, Ísis Valverde, Marcos Paulo, Rodrigo Pandolfo
Produção: Barbara Isabella Rocha
Fotografia: Gustavo Hadba
Montador: Marcelo Moraes
Trilha Sonora: Lucas Marcier
Duração: 100 min.
Ano: 2013
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 30/05/2013 (Brasil)
Distribuidora: Europa Filmes
Estúdio: Fogo Cerrado / Gávea Filmes / Globo Filmes / República Pureza Filmes / Telecine
Classificação: 16 anos
Sinopse: a história tanto cantada de João de Santo Cristo, destemido e temido, que foi com o diabo ter em Brasília da década de 80, agora nas telas de cinema.
Nota do Razão de Aspecto:
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Faroeste Caboclo foi uma música que marcou toda uma geração de brasilienses. Composta em 1979, seguia uma estrutura atípica: um rock de mais de 9 minutos, com uma letra que narra uma história, com início, meio e fim, e não uma letra lírica ou discursiva. Uma mistura de músicas como Hurricane, do Bob Dylan, com um toque de cancioneiro nordestino, e principalmente o tom de contracultura e rebeldia que eclodia na Capital Federal nos últimos anos da Ditadura Militar, a história de João de Santo Cristo se tornou um emblema de uma geração.
Apesar de composta em 1979, ela só foi lançada em 1987, entre outros motivos por problemas com a Censura Federal. Um ano antes o Legião Urbana já havia “preparado o terreno” com o lançamento de Eduardo e Mônica, que tem similaridades com Faroeste Caboclo por ser relativamente longa, narrativa, e citar muito do cotidiano brasiliense da década de 80. Mas as similaridades acabam aí.
Enquanto Eduardo e Mônica narra uma história de um casal de brasilienses em sua vida urbana de classe média, seus encontros e desencontros, e como eles são únicos e ao mesmo tempo universais, Faroeste Caboclo é uma história dura e cruel de um criminoso migrante que tenta a sorte grande na Capital Federal, e por erros próprios e a crueldade  social acaba por “com o diabo ter”.
 
Esta secura e crueldade da história, bem como os temas das drogas, da ditadura, e as citações de elementos da época em que Brasília merecia o título de Capital do Rock, junto com o termo faroeste no título, pedia para que alguém adaptasse a música para o cinema. E em 2013, René Sampaio, diretor brasiliense estreante em longas metragens (até então havia apenas dirigido o curta Sinistro) encarou a difícil tarefa de transformar uma letra de música em um filme.
O filme inicia muito bem, mostrando uma cena de faroeste  feijoada (sim, o termo existe!) com uma homenagem a Sérgio Leone e uma bela cena de balde descendo ao ritmo da música título. O filme se encerra muito bem também, novamente com citações de Sérgio Leone em uma clássica cena de duelo, muito abrasileirada.
E já no início há uma enxurrada de citações, como uma aparição diegética do que seria o Aborto Elétrico tocando Tédio com T em uma festa punk, e diversos elementos citados na música, como a famosa Winchester 22.
A preocupação com a reconstrução do cenário de Brasília das décadas de 70 e 80 são tocantes. Temos as passarelas do Eixo Rodoviário, o Minhocão da UNB, os blocos da Asa Sul, as casas do Lago Sul, e uma convicente reconstrução de uma Ceilândia de 40 anos atrás. Temos até mesmo a filmagem da cena da lendária Rockonha na chácara em que ela realmente aconteceu.  Para quem viveu em Brasília nesta época é gostoso ver uma cidade tão desconhecida dos brasileiros retratada com fidelidade.
Contudo, apesar destes ótimos e louváveis elementos, creio que o filme dirá muito pouco a quem não era de Brasília nos anos 80. O primeiro dos problemas do filme é ter um excesso de Eduardo e Mônica. Enquanto Faroeste Caboclo, a música, é a história de um homem fadado a autodestruição em uma espiral de violência, Faroeste Caboclo, o filme, é a história de amor impossível entre João de Santo Cristo e Maria Lúcia.
Escolher se focar principalmente no romance, periférico no texto original, poderia ser uma escolha interessante para dar volume e carga dramática a trama. E na verdade esta escolha é a responsável pela principal melhoria narrativa do roteiro em relação a letra, que é a motivação de Maria Lúcia em “trair” João de Santo Cristo.
Mas o foco no romance, e na forma como os dois protagonistas são retratados, que gera alguns problemas. Em especial o modo como as duas vidas se encontram desafia a suspensão de descrença, tornando difícil aceitar que os dois personagens consigam se amar tão perdidamente.
Há problemas também no encaixe das cenas de romance em relação ao desenrolar do resto da trama, e por vezes parece que o filme precisa parar para mostrar o namoro entre os personagens.
As atuações são bastante irregulares. Fabrício Boliveira é um João carrancudo e intimidador, mesmo quando teria que ser romântico ou  carismático. Isis Valverde passa a primeira parte do filme em uma abstenção emocional e distanciamento de tudo que não combina por uma jovem disposta a se apaixonar por um traficante. Felipe Abib não consegue ser Jeremias traficante de renome nem maconheiro sem vergonha, sendo apenas uma caricatura de playboy trincado de pó sem noção de nada. O único ator que entrega um personagem convincente é Antônio Calloni, que faz um excelente policial corrupto e sem escrúpulos, apesar de ser difícil entender como ele se mantém subalterno a Jeremias.
Para um filme que se apoia no sucesso de uma música de rock, outra coisa que surpreende é a tímida trilha musical, que exceto nos momentos de citação explícita e nas duas cenas de faroeste, é tímida, quase ausente.
Apesar de todos os problemas, em especial pela genuína homenagem e carinho que se percebe ao longo de todo o filme, espero que os boatos do próximo filme de Renê Sampaio se confirmem e que possamos ver nos próximos anos a versão de Eduardo e Mônica nas telonas. Este brasiliense de 42 anos agradeceria.
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