O Lagosta (The Lobster, 2015) – Crítica com spoilers
Indicado apenas ao Oscar de Melhor Roteiro Original, lançado muito antes da temporada do Oscar (sua estréia mundial foi no festival de Cannes de 2015, onde venceu o Prêmio do Especial do Juri – Produção Independente) e praticamente ignorado pelo público e pela mídia, O lagosta é um dos melhores filmes desta edição do Oscar. Um exemplo do por que não devemos nos limitar apenas aos indicados a melhor filme.
Gênero: Romance
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Efthymis Filippou, Yorgos Lanthimos
Elenco: Angeliki Papoulia, Anthony Moriarty, Ariane Labed, Ashley Jensen, Ben Whishaw, Colin Farrell, Degnan Geraghty, EmmaEdel O’Shea, Ewen MacIntosh, Heidi Ellen Love, Jacqueline Abrahams, Jessica Barden, John C. Reilly, Léa Seydoux, Michael Smiley, Nancy Onu, Olivia Colman, Rachel Weisz, Roger Ashton-Griffiths, Rosanna Hoult, Seána Kerslake, Stephen Ryan
Produção: Ceci Dempsey, Ed Guiney, Lee Magiday, Yorgos Lanthimos
Fotografia: Thimios Bakatakis
Montador: Yorgos Mavropsaridis
Duração: 118 min.
Ano: 2014
País: Reino Unido
Cor: Colorido
Estúdio: BFI Film Fund / Bord Scannan na hEireann / Irish Film Board
Sinopse: Em uma sociedade em que permanecer solteiro é um crime passível da estranha punição de ser transformado em um animal a sua escolha, David, após ser abandonado por sua esposa, tem 45 dias para encontrar o amor de sua vida ou ser transformado em um lagosta. Após fracassar nesta tarefa, David se une a facção rebelde Os solitários, um grupo baseado na negação do romance. E lá descobre o verdadeiro amor.
Nota do Razão de Aspecto:
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Esta é a primeira crítica que escrevo para o Razão de Aspecto onde optei por incluir spoilers, e não é por que não seja possível fazer uma boa crítica de O lagosta sem comentar os pontos principais da trama, mas sim por que o verdadeiro mérito do filme não se encontra na história que é contada, mas sim em como ela é contada e principalmente as interpretações que podemos tirar de suas alegorias.
Então peço este pequeno voto de confiança caso você ainda não tenha visto o filme. Pode continuar lendo, eu irei entregar alguns pontos centrais da trama, e isto em nada irá diminuir o prazer de assistir O lagosta.
O filme é uma mistura de gêneros, onde temos realismo fantástico, ficção científica de distopia, romance, comédia de humor negro, drama e até mesmo um pouco de ação. Mas devido ao realismo fantástico os acontecimentos em si pouco importam, o que realmente comove são seus significados, seu impacto na psicologia dos personagens e na nossa.
Tudo começa com David sendo levado a um hotel, onde passará por uma espécie de gincana kafkiana com outros solteiros para encontrar uma nova esposa em 45 dias. Permanecer solteiro é proibido por lei, e caso ele não encontre um novo amor, será transformado em um animal de sua escolha, no caso, um lagosta.
Colin Farrell (de Animais Fantásticos e onde habitam e Presságios de um crime) está em uma das melhores atuações de sua irregular carreira. Temos um David minimalista, mas intenso, onde a depressão e repressão sexual e romântica oprime, sufoca, mas não apaga a intensidade do personagem. Desde o início do filme Colin Farrell parece uma bomba relógio prestes a uma explosão patética.
No hotel ele convive, ou talvez seja melhor dizer, é exposto a outros personagens solteiros que vivem a mesma situação. Entre dinâmicas de “romance” dignas de um psicólogo com autismo grave, os solteiros também tem de ir a floresta caçar um grupo de rebeldes que vivem a margem da sociedade por não conseguirem um par romântico, os auto-intitulados solitários.
A situação dentro deste hotel é completamente desumanizada e estereotipada, a tal ponto que, sob a ótica de David, incentivado pelos métodos de busca de uma nova parceira usados pela equipe do hotel, os outros personagens são reduzidos a uma única característica. Temos a mulher que o nariz sangra, a mulher perversa, o homem que manca, etc… E apenas com base nestas características os relacionamentos são criados.
Quando David fracassa em encontrar um novo romance, ele acaba sendo forçado a se juntar aos solitários e viver na floresta. Mas se você pensa que lá ele irá encontrar convívio humano, liberdade e capacidade de se relacionar, engana-se. Se entre os membros da sociedade o relacionamento amoroso é mandatório, na floresta a solidão é imposta, e nenhuma relação afetiva é tolerada.
Esta é a principal alegoria de Lanthimos: as regras sociais e o papel social de cada grupo são rígidos, até mesmo entre os que são marginalizados pelas regras. Em um grupo temos uma paródia paranóica da pressão de nossos rituais de acasalamento, no outro a depressão imposta a quem escolhe viver sozinho. E por mais que acreditemos que cada um de nós somos indivíduos, estes papéis sociais acabam por massacrar nossas individualidades sem percebermos.
Mas esta ordem é perturbada completamente quando David se apaixona pela “mulher míope”, interpretada pela Rachel Weisz (de A luz entre oceanos). De um modo estranhamente coerente com a visão dos que estavam no hotel, a miopia de David e da mulher se torna fator em comum suficiente para uma verdadeira e torridamente contida paixão. A intensidade da química entre Farrell e Weisz, expressada pelos mínimos gestos e frases, é intoxicante e sufocante.
O surrealismo da narrativa e dos diálogos, a qualidade das interpretações, a constante represa emocional prestes a romper, a construção e desconstrução dos espaços sociais, a superficialidade e hipocrisia das relações levam a um clima constante de hilaridade depressiva. Rimos desesperados para conseguir respirar.
E no ato final, de forma muito coerente, David… Não, não me permito este  nível de spoiler. Mas fica o recado: em O lagosta não temos apenas um roteiro genial, mas uma incômoda alegoria do quanto sofremos para nos encaixar nos rituais de amor e solidão, e no quanto nossos sentimentos teimam em escapar a estas prisões que criamos.
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