MINHA VIDA DE ABOBRINHA (Ma vie de Courgette, 2016) – CRÍTICA – ANIMAÇÃO DO OSCAR
Minha Vida de Abobrinha está indicado para melhor Animação no Oscar 2017 e mereceria o prêmio.

Gênero:

Animação

Direção: Claude Barras
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Gaspard Schlatter, Michel Vuillermoz, Paulin Jaccoud, Sixtine Murat
Produção: Armelle Glorennec, Kate Merkt, Marc Bonny, Max Karli, Michel Merkt, Pauline Gygax
Fotografia: David Toutevoix
Montador: Valentin Rotelli
Trilha Sonora: Sophie Hunger
Duração: 66 min.
Ano: 2016
País: França
Cor: Colorido
Estreia: 16/02/2017 (Brasil)
Distribuidora: Califórnia Filmes
Estúdio: Blue Spirit Animation / Gébéka Films / Rita Productions
Classificação: livre

Sinopse
: Icare, que prefere ser chamado de “Abobrinha” é um menino de 9 anos que vai parar em um orfanato depois que sua mãe desaparece. Nesse meio tempo, ele fica amigo de um policial e conhece outras crianças que sofreram com os mesmos traumas que ele.

 

Nota do Razão de Aspecto:

 

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Em um mundo dos gigantes Zootopia, Kubo e Moana, os demais candidatos ao Oscar de Melhor Animação ficam a ver navios. A Tartaruga Vermelha tem uma falha grave, mas trata poeticamente da condição de um náufrago. Já o último concorrente a ter crítica no Razão de Aspecto, o Minha Vida de Abobrinha, é uma obra prima, sem ressalvas. E seria o vencedor caso academia considerasse a opinião que importa – a minha, obviamente… Eu poderia seguir o texto dizendo “brincadeiras à parte…”, contudo a proposta deste longa em momento algum afasta o humor, mesmo nas cenas mais pesadas, então não pedirei licença para continuar…
Veja nossos textos sobre os indicados para melhor animação: Zootopia / Kubo / Moana / A Tartaruga Vermelha

Uma das raras animações só com cópias legendadas, o que já denota um viés mais adulto, Minha Vida de Abobrinha é um belo espécime do gênero tragicômico. Note que a temática central envolve abandono – um grupo de crianças que não tem contato com os pais, pelos mais diversos motivos, e mostrando o dia a dia delas em um orfanato. Tendo elas, cada uma um problema, consequência daquela cisão com os pais. Há também um subtexto sobre imigração, algo caro na França. Sempre, contudo, com uma verve cômica presente.

O ápice disso talvez seja na situação envolvendo o protagonista, o simpático e inocente Abobrinha, um garoto de nove anos que rejeita o nome de batismo (Icare) e gosta de empinar pipa. A mãe do jovem é alcoólatra; o pai, um desconhecido que traía a mulher – e o jeito como Abobrinha o descreve é fantástico. O garoto vai parar no orfanato após um incidente terrível – que, claro, conta com uma ponta de riso – em um começo bem ousado para uma animação.Confira também o link com as nossas críticas sobre os indicados das outras categorias

 

O contato com as outras crianças tem as brincadeiras comuns que hoje são denominadas bullying. Em especial as de Simon, o valentão local – note o topete avantajado que marca o ar de superioridade ao ficar levemente mais alto que os demais. As outras crianças são peculiares, desde a que tem autismo, passando pela que sai desvairada na porta em busca da mãe e chegando na encantadora e confiante Camille – que chega depois e atrai os olhares de Abobrinha e a inveja de Simon. Há uma insinuação de que uma das crianças teria sofrido abuso sexual antes de chegar no orfanato, uma frase meio que solta deixa essa possibilidade no ar – reforçando o tom pesado dos temas abordados.

 

 

O foco mesmo é em acompanharmos a jornada do protagonista junto com a nova fiel escudeira e o policial que o acompanhara ao orfanato. A narração feita com desenhos traz uma organicidade à exposição que muito filme não consegue atingir. O final é um pouco óbvio, é verdade, mas não mancha o caminho. Os personagens tem um nível de evolução digno e geram uma empatia automática. Contudo, Simon – um quase antagonista em alguns momentos – é o que tem mais camadas e é mais bem explorado.

 

 

Destaque também para os profissionais que trabalham na instituição, nada de bruxa fedida que mereça dor de barriga (quem pegou a referência mexeu muitos as mãos, os pés e a cabeça…). Eles compõem uma quase gordurinha no roteiro, mas servem para promover excelentes debates entre as crianças sobre o que seria sexo “aquilo que faz o piu piu explodir”… Além da cena final arrebatadora e belíssima recheada de significado ao tratar com leveza dos reflexos dos traumas gerados.

 

 

A trilha sonora não é sempre presente. Quando aparece o faz de forma precisa e reforçando, no tom certo, o sentimento desejado naquelas cenas. Na parte visual, o destaque vai para um traço mais rústico e simples dos cenários ao fundo ao mesmo tempo detalhado e vivo – tudo em stop motion. Eu vi o longa com o Assistente de Direção do documentário Era dos Gigantes, André Malcher. Ele destacou que há um quê de Tim Burton aqui. Realmente tal comparação é perceptível nos cenários, desenho dos personagens e até no humor.

 

Apesar do fato de só ter 60 minutos corroborar com a eficiência do roteiro, eu queria muito ver mais daquele mundo e conhecer outras histórias das crianças. Esse “defeito” é, no fim, um mérito – nada melhor do que sair de uma sala com o gostinho de quero mais. E vale comentário de que usar a técnica de stop motion não é simples e requer um cuidado a mais, qualquer minuto além são semanas de trabalho.

Minha Vida de Abobrinha tem um subtexto sobre paternidade que é bem delicado. Entra naquela lista de vários longas recentes que tratam da relação pai e filho de maneiras tão distintas (a saber: Capitão Fantástico, A Luz Entre Oceanos, O Filho Eterno, Manchester à Beira Mar, etc) e não deixa a desejar para nenhum deles. Talvez o filme passe um pouco despercebido – mesmo com a indicação ao Oscar, uma pena… Você leitor do Razão de Aspecto, não pode perder a melhor animação da temporada.

 

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