TONI ERDMANN (2016) – CRÍTICA
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Não foi por acaso que Toni Erdmann empilhou prêmios na Europa. É o meu favorito ao Oscar 2017, e vencerá, se prevalecer o critério de qualidade cinematográfica.
 
 
Gênero: Comédia
Direção: Maren Ade
Roteiro: Maren Ade
Elenco: Alexandru Papadopol, Hadewych Minis, Hans Löw, Hartmut Stanke, Ingrid Bisu, Ingrid Burkhard, Irene Rindje, Julischka Eichel, Jürg Löw, Klara Höfels, Lennart Moho, Lucy Russell, Michael Wittenborn, Mihai Manolache, Niels Bormann, Peter Simonischek, Radu Banzaru, Radu Dumitrache, Ruth Reinecke, Sandra Hüller, Sava Lolov, Thomas Loibl, Trystan Pütter, Victoria Cocias, Victoria Malektorovych, Vlad Ivanov
Produção: Janine Jackowski, Jonas Dornbach, Michel Merkt, Sava Lolov
Fotografia: Patrick Orth
Montador: Heike Parplies
Duração: 162 min.
Ano: 2016
País: Alemanha / Romênia / Áustria
Cor: Colorido
Estreia: 09/02/2017 (Brasil)
Estúdio: Komplizen Film
Classificação: 14 anos
Sinopse: Winfried (Peter Simonischek) e a sua filha Ines (Sandra Hüller) não se dão muito bem e grande parte disso acontece porque os dois têm personalidades muito diferentes. Enquanto ele é brincalhão e bem-humorado, ela está sempre séria e focada em seu trabalho. Na tentativa de se reaproximar da filha, Winfried decide criar um alter-ego, chamado de Toni Erdmann, que finge ser seu consultor pessoal.

 

Nota do Razão de Aspecto:
 
 
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Alguns filmes são tão originais e tão fora da curva que se tornam de difícil explicação para quem não passou pela experiência de assisti-lo. O representante alemão na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Toni Erdmann, é um desses filmes. Escrever sobre ele se torna quase uma experiência de ressignificação da narrativa. E quanto mais pensamos sobre este filme, melhor ele se torna.Confira também o link com as nossas críticas sobre os indicados das outras categorias

Toni Erdmann trata da reaproximação entre pai e filha, Winfried e Inês, afastados não por algum ressentimento ou desentendimento de qualquer gênero, mas, sim, como consequência da passagem do tempo, do amadurecimento e da distância criada pela mudança de Inês para Bucareste. Após uma breve visita de Inês a sua família, seu pai resolve visitá-la sem aviso prévio em Bucareste, o que leva a uma série de incidentes bizarros e ao uso de recursos de todos os tipos para que Winfried tente se reaproximar da filha, incluindo a criação de um alter-ego: Toni Erdmann, um life coach que ajudará Inês a superar problemas na vida pessoal e no trabalho.
Se a premissa em si já seria suficientemente interessante, mais instigante ainda é a construção da narrativa e o desenvolvimento dos personagens. Se dirigido por outros renomados diretores, TonyiErdmann teria uma carga dramática mais pesada, mas, sob a direção de Maren Ade, ganha contornos de humor ácido, bizarrice e densidade emocional contida, construindo, paradoxalmente, um ambiente quase inverossímil e, ao mesmo tempo, muito realista. É impossível para o público não reagir à personalidade de Winfried e às suas peripécias para se reaproximar da filha, assim como não se consegue ignorar a sinceridade do vínculo emocional entre pai e filha, ainda que ele esteja perdido em algum lugar do passado.
É exatamente neste ponto que Toni Erdmann se mostra uma obra acima média, por não ser condescendente com o público e não se ater a explicações desnecessárias. Todo o conflito é construído mediante o desenvolvimento dos personagens: é muito mais importante para o público compreender a personalidade atípica de Winfried, sem papas na língua, sempre fazendo piadas ácidas e/ou inapropriadas e expressando aquilo que tem vontade, do que buscar algum evento passado que justifique seu afastamento da filha.
Para além do roteiro inteligente e da direção mais que competente de Maren Ade, Toni Erdmann se sustenta pelas atuações intensas e inspiradas de Peter Simonischek e Sandra Hüller. Ambos expressam intensidade emocional com interpretações contidas e restabelecem o vínculo emocional entre pai e filha progressivamente, com sutileza, sem grandes arroubos emocionais. É interessante perceber como a personagem de Inês progride do incômodo com a presença do pai e com a personalidade dele para a aceitação da forma como ele expressa amor e preocupação, para, posteriormente, assumir suas semelhanças com o pai. Sem que sequer uma palavra sobre o passado seja dita, compreendemos o processo, entendemos o ponto de vista dos dois personagens e não deixamos levar por aquela relação atípica, mas com a qual conseguimos nos identificar em algum nível.
Com algumas passagens impagáveis pela comicidade e/ou pela bizarrice, como aquela que envolve um canapé e a da festa de aniversário, e outras passagens marcantes pela sensibilidade e pela profundidade, como a do parque e aquela que coloca pai e filha cantando juntos ao piano, Toni Erdmann leva o espectador a uma jornada de autoconhecimento e de alteridade. A honestidade do personagem, tão rara nos dias de hoje, causa empatia imediata e transforma Toni Erdmann em um filme que nos faz pensar e que fica melhor depois que acaba.
Não foi por acaso que Toni Erdmann empilhou prêmios na Europa, embora tenha perdido em Cannes para o também espetacular Eu, Daniel Blake. Este filme justifica seu favoritismo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. No mundo ideal, Peter Simonischek estaria indicado a todos os prêmios de melhor atuação de todos os universos quânticos. Claro, o hype de La La Land resultou na indicação de Ryan Gosling – neste caso, sem cabimento. É o meu favorito ao Oscar 2017, e vencerá, se prevalecer o critério de qualidade cinematográfica.
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