EU NÃO SOU SEU NEGRO (I Am Not Your Negro, 2016) – Crítica

 

Eu Não Sou Seu Negro concorre ao Oscar de melhor documentário.
Gênero: Documentário
Direção: Raoul Peck
Roteiro: James Baldwin, Raoul Peck
Elenco: Dick Cavett, James Baldwin, Samuel L. Jackson
Produção: Hébert Peck, Raoul Peck, Rémi Grellety
Montador: Alexandra Strauss
Trilha Sonora: Alexei Aigui
Duração: 95 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos / França
Cor: Colorido
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Velvet FilmSinopse: James Baldwin é um escritor que pretende terminar o livro Remember This House, que relata a vida e morte de alguns dos amigos do escritor, como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Junior. Com sua morte, em 1987, o manuscrito inacabado foi confiado ao diretor Raoul Peck.

Nota do Razão de Aspecto:

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A Academia reagiu a #OscarsoWhite e este ano lembrou que existem profissionais negros e trouxe a temática também para os documentários indicados. Eu Não Sou Seu Negro é um dos reflexos daquela demanda. Mas muito além de uma cota, como alguns detratores podem questionar, o longa é potente em diversos aspectos.

Confira também o link com as nossas críticas sobre os indicados das outras categorias

Narrado por Samuel L. Jackson, o texto é composto em parte pelo escrito inacabado de James Baldwin e foca no ativismo de três ícones: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. O cerne, portanto, são as décadas de 50 e 60 nos EUA. Com a amplitude obviamente aumentada para as causas e consequências além do trio. “A história do negro nos EUA é a história dos EUA… E não é uma história bonita…”
Uma das grandes forças da produção é dialogar com a indústria cinematográfica. Vemos diversas retratações do negro em situações que vão desde o mais caricato, passando pelo escravo e chegando até a figura do redentor do branco – que serve para minimizar os atos atrozes de racismo, veja por exemplo a cena do trem. Ou então, os heróis de um menino negro na época serem todos brancos. Os negros não eram representado devidamente, um triste reflexo da sociedade.
Para não apontar só para o passado, Eu Não Sou o Seu Negro tem imagens atuais precisas. Aqueles que acham que o racismo é algo pretérito e distante, trazer para a contemporaneidade foi um belo e doloroso acerto. Vale, em um outro tom, a previsão do Kennedy de que “daqui a 40 anos vocês um negro pode ser presidente” e mostrar a figura de Obama. Outra vantagem do recurso é aproximar as referências de um conhecimento comum. O público brasileiro pode em alguns momentos não sentir tanta empatia pelo arcabouço de referências americano.

A montagem se destaca ao intercalar imagens de arquivo, um uso – sem abuso – de cenas de transição, os já mencionados instantes mais próximos a nossa época e, claro, os discursos – pró e contra a integração. A compilação nunca deixa o tom de denúncia cair para o tédio ou redundância. A trilha também ajuda muito na fluidez de Eu Não Sou Seu Negro. Nunca enveredando para um melodrama e sendo variada e bem presente. A bela fotografia brinca com o uso do preto e branco ou das cores – em especial na cena do tribunal.

Essa questão da integração merece a nota. Por vezes vemos o outro lado tendo voz. E frases como “deus perdoa assassinatos, roubos, mas fica bravo com quem quer se integrar” são ditas. A suástica é empunhada em bandeiras ferozes. Ou então charges com uma mulher negra trabalhando de empregada com o balão “agora temos um bom emprego”. Definitivamente a luta não era gratuita ou “mimimi”.

O diretor Raoul Peck sabe usar o material que tem nas mãos, mesmo que algumas vezes de forma não tão sutil (correspondendo ao falta de sutileza dos discursos racistas). Ele apresenta um bom retrato dos escritos ao dosar bem a participação dos personagens principais ou do contexto de segregação nas escolas e tem a ciência de guardar um discurso poderoso para o ato final. Mesmo sendo um tema já amplamente exposto, impossível não sair da sessão mexido e reflexivo.

PS: por vezes a legenda branca atrapalha a leitura e pode não possibilitar uma experiência plena para quem não sabe inglês.

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