Axé: Canto do Povo de um Lugar (2017) – Crítica
Axé: Canto do Povo de um Lugar  traz um bom panorama do gênero.

Gênero:
Documentário
Direção: Chico Kertész
Roteiro: Chico Kertész
Produção: Piti Canela
Fotografia: Rodrigo Maia
Montador: Denis Ferreira
Trilha Sonora: Bob Bastos
Duração: 107 min.
Ano: 2016
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 19/01/2017 (Brasil)
Distribuidora: Zahir Company
Estúdio: Macaco Gordo
Classificação: 12 anos
Sinopse: A história da axé-music revelada em detalhes, com os elementos determinantes para o nascimento desse gênero musical, contada por meio de entrevistas com empresários, produtores e músicos.

Nota do Razão de Aspecto:

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Pessoalmente Axé não é um gênero que eu ouça voluntariamente. Contudo, fiquei positivamente surpreso com quantidade de hits que eu sabia ao assistir Axé: Canto do Povo de um Lugar. Isso é resultado de três fatores: a popularidade do ritmo, a maciça exibição televisiva e a diversidade de artistas. Mesmo que você não conheça as canções, nomes como Ivete Sangalo, Daniela Mercury, É o Tchan! e Chiclete com Banana estão no arcabouço musical de boa parte do Brasil – e com alguma abertura internacional.

Como uma coletânea histórico-musical Axé se sai muito bem. Aqueles que se interessam por um panorama do movimento serão agraciados com um bom recorte didático daqueles anos – meados da década de 70 até hoje. Os fãs vão querer o “cd” do filme. Como obra cinematográfica, contudo, o gosto é mais agridoce. 

A primeira discussão versa sobre quem seria o “pai” do Axé. Os entrevistados curiosamente apontam nomes bem diversos. Até que se chega a um “consenso” nas palavras de Caetano Veloso, ao marcar que o filho primogênito  seria Luis Caldas. Neste momento já temos uma síntese do filme e do ritmo retratado: muita diversidade de opiniões, várias personalidades pipocando em tela, algum humor e boas sacadas, além de uma maior preocupação em enumerar os atores do que problematizar as questões. 

A televisão aberta na época, é bom lembrarmos, contava com o auge nas vendas e uma grande audiência – o que gerava muito poder de influência. Tal penetração é bastante pontuada no longa, ao exibir com frequência imagens do Globo de Ouro (o programa e não a premiação) e principalmente o show do Chacrinha. Além de outras inserções que provavam e causavam o alcance do Axé. O trabalho de arquivo nesse sentido, e não só neste ponto, tem méritos.

O povo – presente no subtítulo – tem um papel dúbio na construção da lógica interna do documentário. A todo momento o pertencimento é ressaltado, dando a entender que o Axé não surgiria em outro local. Desde as multidões que inundam as ruas, passando pela origem afro e chegando confluência do locus com as pessoas (vide versos como: “A cor dessa cidade sou eu/ O canto dessa cidade é meu”). Esses pontos são tratados constantemente. Por outro lado, a voz do povo é pouco escutada e o caráter mercadológico, por exemplo dos trios elétricos é quase silenciado – sabe-se que trazem pontos positivos e negativos para os nativos. 

As discussões mais aprofundadas estão renegadas a um segundo plano. Presentes sim, porém intercaladas com tantas canções que a sensação que fica é que seriam necessários dois filmes: um com foco musical e outro com a abordagem mais pesada. A origem pejorativa do termo Axé é trazida, assim como a desunião dos artistas posta como o principal fator de declínio do sucesso do gênero como um todo (oposto do que ocorre com o sertanejo).

A montagem acelera o tom. Se a ideia era te fazer sentir a fluência de um trio elétrico, então o resultado foi positivo. Mas em alguns momentos sentir falta de tirarem o pé do acelerador. O já mencionado didatismo acaba sendo uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que organiza, deixa a coisa um tanto episódica  – contudo, definitivamente não foi uma opção condenável. 

Axé possibilita uma visão que creio que seja inédita, mas que soa mais como um catalogo musical do que uma reflexão. Ainda assim tem méritos e funciona.
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