Hollywood zerou mas não platinou Assassin’s Creed
Assassin’s Creed é um esforço mais honesto que a média de se fazer um bom filme baseado em um videogame, mas Hollywood ainda não encontrou seu lado gamer, e o produto final é um conjunto de boas cenas de ação com um roteiro nada coeso.
Gênero: Ação
Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Michael Lesslie
Elenco: Ariane Labed, Brendan Gleeson, Callum Turner, Carlos Bardem, Charlotte Rampling, Denis Ménochet, Essie Davis, Hovik Keuchkerian, Javier Gutiérrez, Jeremy Irons, Khalid Abdalla, Marion Cotillard, Matias Varela, Michael Fassbender, Michael Kenneth Williams
Produção: Arnon Milchan, Conor McCaughan, Frank Marshall, Jean-Julien Baronnet, Michael Fassbender, Patrick Crowley
Fotografia: Adam Arkapaw
Montador: Christopher Tellefsen
Trilha Sonora: Jed Kurzel
Duração: 115 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 12/01/2017 (Brasil)
Distribuidora: Fox Film do Brasil
Estúdio: Regency Enterprises / Ubisoft Motion Pictures
Classificação: 12
Informação complementar: Adaptação do game de sucesso da Ubisoft
Sinopese: Cal Lynch, um criminoso condenado a pena de morte, descobre ser o descendente de Aguilar, um assassino membro de uma irmandade misteriosa que viveu e lutou na Inquisição Espanhola contra os Templários. Submetido a um experimento científico bizarro, Lynch tem de reviver as experiências de seu antepassado para descobrir o paradeiro da maçã do paraíso.
Nota do Razão de Aspecto:
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A indústria de video-games hoje é maior que a do cinema, e com folga, tanto em termos de faturamento quanto de público atingido, mesmo sendo uma indústria muito mais jovem. E como arte narrativa é a fronteira mais instigante do momento, com novos desafios e novas formas da antiga arte de contar um conto.
Mas estranhamente existem muitos bons jogos baseados em filmes, e nenhum grande filme baseado em um video-game. Parece que Hollywood ainda não conseguiu definir as bases estéticas e narrativas para fazer cinema dos games. Eu acredito (ou tenho esperanças) que hoje este sub-gênero vive o que os filmes baseados em quadrinhos vivia na década de 90: uma transposição de mídia em busca de sua linguagem.
Assassin’s Creed representa um passo a frente e dois para trás neste sentido. 
É inegável que o investimento considerável de US$ 125 milhões (menor que os 160 milhões do filme Warcraft, mas ainda assim de respeito) retornou em um cuidado de produção, figurinos, efeitos especiais e elenco de qualidade. Para os filmes baseados em games, é uma superprodução. 
Visualmente o filme foi de certa forma ousado, buscando se aproximar da fotografia do jogo. As cenas passadas na Espanha Medieval remetem muito aos detalhes visuais do game, seguindo não uma reconstituição histórica, mas sim o tom de fantasia épica. O uso de computação gráfica é bem aparente, entregando um visual muito semelhante ao que vemos nas telas do computador enquanto jogamos. A idéia pode ter sido bem intencionada, mas gerou um visual um tanto artificial, que, como cinema, não funcionou bem.
Em especial o uso da icônica águia não foi nada feliz. É uma referência desnecessária para quem jogou, e incompreensível para quem apenas assistiu o filme. 
O elenco é, em tese, muito bom. Infelizmente sabemos que escolher bons atores não significa necessariamente termos grandes atuações. No papel principal temos Michael Fassbender (de A Luz entre oceanosX-men: Apocalipse e Shame), que interpreta Cal Lynch no presente e Aguilar na época da Inquisição Espanhola. Fassbender consegue tirar leite de pedra aqui. Seus personagens são monotemáticos, homens violentos, raivosos e determinados, mas com este pouco material e diálogos um tanto clichês ele consegue extrair uma presença física intimidante e ao mesmo tempo carismática, dando humanidade a um estereótipo. 
Acompanhando Fassbender temos dois ótimos atores: Jeremy Irons (de O homem que viu o infinito e O homem da máscara de Ferro) e Marion Cotillard (de A Origem e É apenas o fim do mundo). Diferente de Fassbender os dois atores não apresentaram boas atuações. Irons está caricato demais, e Cotillard esta completamente inexpressiva, parecendo uma tela em branco sem emoções.
Parte das atuações questionáveis pode ser devida a má direção de Justin Kurzel (de Snowtown Murders), um diretor iniciante que ainda não mostrou a que veio, mas é inegável que o roteiro não deu grandes oportunidades aos atores. 
A sensação que fica é que o roteirista zerou o jogo, ou seja, fez a história do início ao fim, mas não se preocupou em platinar o jogo. Para quem não conhece o termo, platinar, para os gamers, significa completar todas as tramas (missões) paralelas e conquistar todas as recompensas possíveis. 
A história da franquia Assassin’s Creed é bem complexa, e se centra no conflito milenar entre os Templários e a Ordem dos Assassinos. O filme expõe en passant este conflito, de forma similar a um jogador apressado que pula os diálogos e os cutscenes (pequenos trechos não interativos de jogos que servem “apenas” para detalhar a história) para ir logo para a ação.
Apesar da possibilidade da trama de abordar temas como livre arbítrio x violência, ou a importância da fé e da determinação, tudo isto é deixado em segundo plano para sucessões apressadas de cenas de ação, que, apesar de bem executadas, nada tem que não já tenhamos visto antes, a exaustão, tanto no cinema como nos games.
Uma das maiores mostras do fracasso do produto final é o leap of faith (salto de fé). Um dos temas mais dramáticos dos jogos, e um dos pontos de divulgação do filme, foram os saltos em direção ao vazio que o protagonista realiza. De acordo com a divulgação do filme, o dublê chegou a realizar um salto de 38 metros. Nos jogos estes momentos são atos de fé extremos em situações desesperadas. No filme, devido a falta de roteiro, conflito e drama, foi um detalhe estranho e sem sentido, que nem sequer ficou esteticamente impressionante. 
Assassin’s Creed representa um pequeno sinal que Hollywood está tentando começar a jogar, mas ainda é um grande noob (iniciante). Haverá um dia em que veremos toda a criatividade narrativa dos jogos nas telonas de cinema, mas este dia ainda não é hoje. O cinema ainda não descobriu como transportar de forma satisfatória uma história criada com base na interatividade para uma narrativa passiva de um filme.
Ate lá temos que nos contentar com passos pioneiros, mas incompletos, como Hardcore Henry.
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