MANCHESTER À BEIRA MAR (MANCHESTER BY THE SEA, 2016) – CRÍTICA
A densidade das relações humanas 
neste provável indicado ao Oscar

Gênero: Drama
Direção: Kenneth Lonergan
Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Joe Chandler, Gretchen Mol, C.J.Wilson, Matthew Broderick, Anna Baryshnikov, Ruibo Qian, Tate Donovan, Kara Hayward, Oscar Wahlberg, Christian J. Mallen
Produção: John Krasinski, Matt Damon
Fotografia: Jody Lee Lipes
Montador: Jennifer Lame
Trilha Sonora: Lesley Barber
Duração:  min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 19/01/2017 (Brasil)
Distribuidora: Sony Pictures
 Nota do Razão de Aspecto:

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Quando se inicia a temporada de premiações
cinematográficas, alguns filmes começam a aparecer entre os indicados para diversos
troféus, em uma ou mais categorias. Terceira incursão de Kenneth Lonergan na
direção (depois de Margaret, em 2011, e Conte Comigo, em 2000) Manchester à Beira-Mar é um desses
filmes, tendo concorrido ao Globo de Ouro de Melhor Filme e de Melhor Atriz
Coadjuvante (para Michelle Williams) e levando a estatueta para Melhor Ator
(Casey Affleck). O filme está indicado para o Bafta, prêmio britânico, nas
mesmas categorias, além de Melhor Roteiro Original e Melhor Edição. São alguns
exemplos entre as mais de 180 indicações recebidas.
E o que Manchester à Beira-Mar tem de tão bom?  Em primeiro lugar, é um filme sobre relações
humanas, familiares, afetivas, que não se preocupa em cumprir arcos narrativos
que atendam a expectativa mais óbvia. O enredo centra-se em Lee Chandler
(Affleck), zelador de um condomínio, que tem de voltar à sua cidade de origem quando
seu irmão Kyle (Joe Chandler) morre. Além das providências do velório, resta a
pendência sobre o futuro de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges), já
adolescente, e com quem Lee tivera uma ligação muito próxima uma década antes.

A grande força do filme vem da
construção dos personagens, que são complexos, multifacetados, falhos. Lee é
apresentado como um homem solitário, irritadiço, que prefere dispensar uma
paquera em um bar para arrumar briga, e que destrata os moradores do condomínio
onde trabalha, embora faça seu trabalho com profissionalismo. Ao retornar a
Manchester-by-the-sea (nome completo da cidade e título original do filme), outras
camadas do personagem vão sendo reveladas, por meio do uso de flashbacks totalmente orgânicos (méritos para a montagem de Jennifer Lame) e sem
quebra abrupta da narrativa. Nessas lembranças, vemos que Lee era um marido e um
pai carinhoso, além de um tio divertido para Patrick. O que aconteceu para
transformá-lo em alguém antissocial, incapaz de manter uma conversa por mais de
trinta segundos, será desvelado lentamente, até um clímax na sequência mais
poderosa do filme.
Os outros personagens não são
menos interessantes. Patrick é um adolescente popular, com muitos amigos,
“duas namoradas e uma banda”. Seu reencontro e reaproximação com o
tio, claramente incomodado com a ideia de assumir sua tutoria, rende momentos
tanto ternos quanto de tensão, em uma espécie de tentativa de parceria
desajeitada.  
O elenco colabora plenamente
para dar densidade e realismo ao roteiro. Affleck consegue transmitir o
conflito entre o carinho pelo sobrinho, a impaciência com os rituais e
burocracias da sociedade (coisas incômodas, desde escolher uma urna funerária
até cumprimentar alguém) e um certo niilismo, de alguém que, de certa forma, já
morreu em vida. Lucas Hedges é uma boa surpresa no papel de Patrick, misturando
carisma, confusão e opiniões fortes típicas de adolescente. Como coadjuvantes,
Michelle Williams interpreta Randi, ex-mulher de Lee. Ela está espetacular nas
poucas cenas em que aparece no filme, seja como esposa mal-humorada ou como
mulher profundamente traumatizada. Cabe, ainda, destaque para Joe Chandler, que
estabelece uma relação totalmente convincente de fraternidade entre seu
personagem e o de Affleck; e para Gretchen Mol, que interpreta Elise, mãe de
Patrick, distante do filho por conta de seu alcoolismo.

A fotografia de Jody Lee Lipes
estabelece um contraste interessante entre o ambiente amplo e espaçoso da baía
e do mar de Manchester, a neve opressiva que castiga o condomínio onde Lee
trabalha e os espaços internos, que variam entre o opressivo do quarto de Lee,
o impessoal do hospital e da funerária, e o familiar das diversas casas de
Manchester.
A trilha sonora, baseada,
sobretudo, em peças eruditas, com corais, uso de oboés, violinos e órgãos, dá
uma textura quase sacra a alguns momentos da obra. O resultado pode dividir
opiniões: se, por um lado, a escolha cria uma camada a mais de dor, em cenas que,
por si só, já seriam fortíssimas, e substitui diálogos pela experiência
sensível desejada, por outro pode soar como ferramenta um pouco artificial para
conseguir este intento. Um exemplo disso é o uso do Adagio em sol menor, de
Albinoni, peça meio manjada para momentos tristes, e usado na sequência mais
dolorida do filme.

Residem no o último ato do
filme os pecadilhos que tiram alguns pontos de Manchester à beira-mar. Além de se estender um pouco mais do que o
necessário, o filme não consegue retomar a força que consegue alcançar ao final
de sua primeira hora (que, diga-se, é irretocável). Após revelações muito
fortes, o filme retoma seu passo mais cotidiano, oscilando entre várias
pequenas subtramas para estudar a relação entre tio e sobrinho. Uma vantagem,
como compensação, é que ele não se rende aos desfechos mais óbvios – o que é
digno de elogio da crítica, mas pode frustrar parte do público.
Manchester à beira-mar tem na criação e interação entre os
personagens seus maiores méritos. As pessoas ali são dolorosamente reais,
muitas vezes bem intencionadas, mas mesquinhas, confusas, que erram e acertam e
seguem suas vidas da forma que lhes parece possível. Um drama muito bem feito,
que possivelmente não oferecerá o que o espectador imagina. Mas assim é a vida.

por D.G.Ducci
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