Moana – Um Mar de Aventuras (2016) – Crítica

Moana traz elementos novos, mas deixa a desejar na história…

Gênero: Animação
Direção: John Musker, Ron Clements
Roteiro: John Musker, Ron Clements, Taika Waititi
Elenco (dublagem original): Alan Tudyk, Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson
Produção: Osnat Shurer
Montador: Jeff Draheim
Trilha Sonora: Lin-Manuel Miranda, Mark Mancina, Opetaia Foa’i
Duração: 107 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 05/01/2017 (Brasil)
Distribuidora: Walt Disney Pictures
Estúdio: Walt Disney Animation Studios / Walt Disney Pictures
Classificação: Livre

Sinopse:
 Moana Waialiki é uma corajosa jovem, filha do chefe de uma tribo na Oceania, vinda de uma longa linhagem de navegadores. Querendo descobrir mais sobre seu passado e ajudar a família, ela resolve partir em busca de seus ancestrais, habitantes de uma ilha mítica que ninguém sabe onde é. Acompanhada pelo lendário semideus Maui, Moana começa sua jornada em mar aberto, onde enfrenta terríveis criaturas marinhas e descobre histórias do submundo.

Nota do Razão de Aspecto:

————————————————————————————————————————-

Durante muito tempo o conceito de princesa não ia muito além de: loira com vestidos exuberantes, uma certa fragilidade intocável e um príncipe para dar sentido, por vezes a ação mais ousada dela era esperá-lo. Hoje esse conceito está anacrônico – ainda bem. E o que vemos em Moana é uma princesa sim (afinal ela tem “um bichinho e um vestido”, como diz um dos personagens). Mas Moana é uma princesa polinésia. Aventureira, ela tomba, fica suja e não tem interesse amoroso. Sem dúvidas que esses fatores têm que ser considerados e ainda são motivos para elogios – quem sabe daqui a alguns anos isso se torne tão comum que não valha mais a nota. 

Como produto Disney, o que Moana traz é uma trama sem muitas surpresas. Moana é a escolhida, ela vai do ponto A ao B, tem percalços no caminho, encontra um aliado, supera os medos e cumpre o destino. A coisa, portanto, se encaminha conforme esperado. Claro que para as crianças, vendo pela primeira vez esse plot manjadíssimo pode soar novidade. Mas provavelmente você já esbarrou nessa narrativa antes. Apesar dessa falta de originalidade poder gerar uma obra menos memorável que um Zootopia, por exemplo, há um bom índice de competência na execução.

Veja aqui a nossa crítica de Zootopia

A história tem forte cunho cultural, a expressão oral marca logo no início a repercussão de lendas e o contexto que estamos. Deuses, a relação com a natureza, pinturas e canções fixam aquele ambiente, um “paraíso”, como dito pelo pai da Moana. Mas sofrendo pela falta de alimentos na região, a jovem, resolve sair em disparada e cruzar o mar para resolver tal desfalque. Ela que sempre foi aventureira é travada pelos pais super protetores. Por outro lado, a avó é bem mais liberal e incentiva a neta a seguir o próprio caminho. 

A jornada se passar na água é um símbolo forte aqui, a transformação da protagonista sendo o principal deles. A própria água é um personagem que ajuda Moana na empreitada. Interessante notar como, em maior ou menor escala, os outros três elementos (fogo, ar e terra – e por que não coração hehe) também estão presentes e se relacionam entre si. Aqui as mensagens feminista e de amor à natureza ficam orgânicas e nada panfletárias. A valorização da mulher e dos recursos naturais é percebida visualmente. Para ilustrar, há uma cena em que o semi deus Maui vai ajudar Moana, mas antes que ele se movimente ela consegue dar cabo da situação. Em outros tempos ela seria dependente dele para tarefas que exigissem força física. 

O Maui aliás é uma figura excêntrica. Egocêntrico, “rei do universo”, faz do encontro dele com a Moana desencadear momentos hilários pela posição que ele se coloca e como ela o destrona. O corpo do Maui é repleto de tatuagens interativas – especialmente uma miniatura dele mesmo. Esse artifício, bem colocado em prol da narrativa, geram gags mais eficazes que a dos personagens do porco e do galo. A existência destes últimos é bem desnecessária. O primeiro serve a duas ou três piadas e o segundo é um incômodo – piadas repetidas e uma baixa inteligência condenável – que só está ali pelo alívio cômico, não acrescentando em coisa alguma. 

As canções alternam momentos que se prestam para uma passagem de tempo, com outros que só estão ali para compor a trilha. Quem tem má vontade com musicais pode ter maiores problemas aqui. O tom, em alguns momentos, lembra um quê de Hércules. Em outros, vemos Moana cantarolando as músicas que aprendera na infância. Especialmente aqui, quem tiver disponível uma cópia no áudio original vai aproveitar mais. 

Quanto ao visual o resultado se divide entre bom e excelente. A água é um espetáculo à parte, por vezes lembrando o hiper realismo do curta Piper. Mas mesmo em momentos mais caricaturais funciona. Já os humanos estão mais simples. Vemos boas expressões de Moana no uso das sobrancelhas, com o olhar é mostrado medo, desaforo e encantamento. Contudo, sem grandes inovações. 
Outro destaque vai para a autoconsciência do longa. A avó, por exemplo, mescla um ar de loucura e sabedoria, e ela sabe disso. Em outro momento Maui comenta para a Moana: “Se você cantar novamente me avisa para eu sumir”, frase bem pontuada e quase catártica para aqueles que estavam enjoando dos números musicais. Outro momento, ainda com Maiu, é dele questionando as atitudes do oceano e da necessidade de colocar a menina em risco- algo que pode ser pontuado como furo de roteiro, ou pelo menos uma convenção para ter uma história.

Algumas referências podem ser apreendidas. Desde a jornada do herói, passando por outras produções clássicas do estúdio (os diretores, John Musker e  Ron Clements, fizeram juntos coisas como: Aladin, Pequena Seria e o já citado Hércules). Além disso, pode ser coincidência, mas uma cena da Moana no barco me lembro a resolução de Doutor Estranho e também a relação dele com a capa.

Leia também a nossa crítica sobre Doutor Estranho

Apesar de todos os elogios, há cenas – como a do siri- que demoram demais. Os arcos, por vezes soam episódicos e até descartáveis, pense na necessidade dos piratas ou do famigerado porco. As quase duas horas acabam pesando mais do que precisavam. Como dicas adicionais: o 3D não acrescenta muito e há cena pós-créditos. Moana é menos e mais do que poderia ser. Essa sensação agridoce não afasta a ponto de tornar uma obra desprezível, muito pelo contrário, Moana inclusive deve ir para o Oscar.

Antes de encerrar vale o destaque para o curta Trabalho Interno, que antecede Moana. Uma divertida e simpática história, que lembra muito Divertida Mente – de forma bem mais simplificada. Vemos os órgãos internos reagindo e, principalmente, propondo a movimentação de um homem. Questões sobre razão x emoção, medo da morte e trabalho são postas em tela, a última cena deixa um pouco a desejar. A nota para ele é também 3,5/5

Posts relacionados
  • 29 jan 2016
  • 0
O incansável Maurício nos traz mais 4 filmes: Jaqueline (Argentine), Cemetery of Splendor, Resilience e o terror Carnage Park.
  • 21 dez 2016
  • 0
Blue Jay é uma pérola de sensibilidade e sutileza como narrativa de um romance fracassado. Mark Duplass e Sarah Paulson têm a química perfeita como...
  • 10 dez 2015
  • 0
Califórnia é um filme doce, sensível e comovente. Uma abordagem inovadora de uma estrutura narrativa comum. Vale demais. O cinema brasileiro está mandando bem em...