A criada (The handmaiden, 2016) – Crítica
Romance, sexo, trapaças, conflito entre classes sociais, perversão. Risos, tensão, desconforto, alegria, euforia, erotismo. A criada é um dos filmes mais polissêmicos dos últimos anos, que te leva a cada cena para uma direção inesperada. Uma demonstração de como a sétima arte pode ser uma experiência complexa, rica, e ao mesmo tempo, entretenimento da melhor qualidade.

Gênero: Drama, thriller erótico
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Chan-wook Park, Seo-kyeong Jeong
Elenco: Eun-hyung Jo, Ha-dam Jeong, Ha-na Han, Hae-suk Kim, Jin-woong Jo, Jung-woo Ha, Min-hee Kim, Si-yeon Ha, So-ri Moon, Tae-ri Kim
Produção: Chan-wook Park, Syd Lim
Fotografia: Chung-hoon Chung
Montador: Jae-Bum Kim, Sang-beom Kim
Trilha Sonora: Yeong-wook Jo
Duração: 144 min.
Ano: 2016
País: Coréia do Sul
Cor: Colorido
Estreia: 12/01/2017 (Brasil)
Distribuidora: Mares Filmes
Estúdio: Moho Films / Yong Film
Classificação: 18 anos
Sinopse: Na época da ocupação japonesa na Coréia, uma jovem de baixa classe é contratada como criada de uma rica aristocrata japonesa. Mas por trás desta contratação há uma complicada trama de interesses, onde nada é o que parece ser.
Nota do Razão de Aspecto:
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2016 pode não ter sido um ano que tenha deixado boas lembranças para a maioria, mas para o cinema sul-coreano é um ano que vai deixar saudades. Além de emplacar dois em nossa lista de 10 melhores filmes de 2016 (Invasão Zumbi e O lamento), a Coréia do Sul nos trouxe no ano passado ainda o sensacional A criada, que provavelmente entraria em nossa lista de melhores de 2016 se tivesse estreado uma semana antes no Brasil.
Chan-Wook Park é provavelmente o mais famoso diretor sul-coreano, conhecido principalmente por sua “trilogia da vingança” (Sympathy for Mister Vengeance, Oldboy e Lady Vengeance) e é conhecido por sempre trazer filmes tensos, com temáticas com boa dose de violência psicológica. E por ter algum problema com tesouras (quase todo filme dele tem cenas bem incômodas com tesouras).
A criada com certeza se encaixa neste perfil, mas é também o filme mais romântico e sensível do diretor. De um jeito meio doentio, mas sim, há um belo romance no filme. Isto no meio de uma trama macabra de manipulação e enganação, junto com estranhas perversões, e pura ganância material. Apesar da história central ser uma história de amor, o filme não te deixará com uma imagem muito boa do que é o ser humano.
E Chan-Wook demonstra sua maestria ao nos mostrar sua história. Temos uma trama complicadíssima, com vários plot-twists que não apenas surpreendem o espectador, mas dão novo significado ao que já vimos antes. E estas peripécias narrativas são expostas de modo tão orgânico e são tão bem conduzidas que em nenhum momento temos dificuldade de acompanhar as mudanças, tampouco nos sentimos enganados ou trapaceados pelo diretor. Pouco ou quase nada é contado pelos personagens, mas sim mostrado pelas cenas.
Cada cena parece planejada milimetricamente. Enquadramentos específicos, com ângulos nos mostrando não apenas os eventos, mas como certos personagens estão enxergando o que acontece. A fotografia, a cenografia, o figurino, tudo compondo uma delicada e rica rede de suporte a trama. As referências visuais, os temas e rimas que se repetem, mas sempre de modo diferente, causa uma completa imersão na trama.
As interpretações estão primorosas. O trio de atores principais conseguem não apenas trazer uma poderosa química entre eles, como interpretar de tal forma que uma ação ou diálogo possam ser lidos e interpretados das mais diversas formas a medida que a história avança. O destaque vai para as cenas eróticas entre Min-hee Kim e Tae-ri Kim, que carregam uma carga emotiva e psicológica para cenas quase de sexo explícito. Sem esta qualidade de interpretação muitos poderiam ver o filme como um thriller erótico. Mas mesmo contendo cenas extremamente quentes, em nenhum momento o filme tenta excitar sexualmente o telespectador. A carga dramática não o permite.
Assistir A criada é uma experiência forte e complexa,  dinâmica e intensa. Como a maioria dos filmes coreanos, a duração é maior do que estamos acostumados (2 horas e 24 minutos), e o terceiro ato talvez pudesse ser um pouco mais enxuto, mas é muito, muito difícil escolher qual cena poderia ser cortada, pois não há um único frame que não tenha sido pensado e construído com carinho, arte e uma obsessão digna de um Stanley Kubrick. E graças a qualidade e quantidade de plot twists é quase certo que você queira ver o filme pelo menos duas vezes.

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