Passageiros (Passengers, 2016) – Crítica
Passageiros peca em não definir a própria identidade.

Gênero: Romance, ficção científica, aventura, 
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Jon Spaihts
Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia
Produção: Michael Maher, Neal H. Moritz, Ori Marmur, Stephen Hamel
Duração: 1h56
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 05/01/2017 (Brasil)
Classificação: 12 Anos

Sinopse: Durante uma viagem de rotina no espaço, dois passageiros são despertados 90 anos antes do tempo programado, por causa de um mal funcionamento de suas cabines. Sozinhos, Jim (Chris Pratt) e Aurora (Jennifer Lawrence) começam a estreitar o seu relacionamento. Entretanto, a paz é ameaçada quando eles descobrem que a nave está correndo um sério risco e que eles são os únicos capazes de salvar os mais de cinco mil colegas em sono profundo.


Nota do Razão de Aspecto: 

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Esta critica tratará de temas que podem ser spoilers moderados. Não contarei o final e nem revelarei algo para além do trailer. Mas quem prefere ter todas as surpresas só na hora do filme, volte aqui após assistir. 

Quando vemos Chris Pratt e Jennifer Lawrence no elenco não imaginamos uma produção “cabeça”, com discussões nível A Chegada. Os dois atores são mais conhecidos por entregarem papéis leves e voltados para um público mais jovem (vide Guardiões da Galáxia e Jogos Vorazes). No entanto, o primeiro arco de Passageiros vai por outro caminho. E essa positiva surpresa é a pior e a melhor coisa do filme.

Passageiros se passa em um momento que a Terra está superpopulosa (hoje?). As tecnologias permitem uma viagem para outro planeta como forma de fugir deste (diz que é hoje, por favor…). Um homem acorda em uma nave rumo a esse novo planeta. Contudo ele está acompanhado de outras 5000 pessoas. O grande porém é que todas elas estão hibernando. Um mecanismo que preservava o corpo dele falhou e ele acabou sendo desperto décadas antes de todos os presentes. 

Imagine você naquelas condições: quais sentimentos tomariam conta de ti? Solidão? Liberdade? Desespero? Conformismo? Passageiros evoca todos eles muito bem. Seja na fotografia que dosa os tons mais artificiais e quentes, seja no encontro do personagem com o nada e nas decisões que ele toma, ou ainda em detalhes simples como deixar a barba crescer e andar pelado. Neste momento a semelhança com Náufrago é inevitável.

Os dilemas ficam mais fortes quando o plural no título se justifica: Jim Preston (Pratt) encontra Aurora Lane (Lawrence), ela também despertada antes dos demais. A relação dos dois, únicos acordados a bordo, desenvolve-se e acaba sendo o mote da trama. É aí que a coisa pega. O que vinha sendo uma ficção científica inteligente vai caindo em um romance barato. Ao se entregar aos clichês do segundo gênero Passageiros perde consideravelmente a força. O pior: essa esquizofrenia é mantida até o último momento. Em outras produções essa personalidade múltipla poderia ser elogiada, aqui – claramente – é só para agradar a um público específico que poderia estar inquieto com a lentidão da trama. 

Os dois protagonistas tem pouco background apresentado. É interessante essa ausência, mas sem dúvida que enfraquece a nossa relação com eles. Ainda assim entendo que você estar praticamente sozinho em uma nave gigantesca, com a sociedade tão próxima e tão distante, é drama suficiente. Então surpreendentemente darei ponto por esse não aprofundamento. Jennifer Lawrence e Chris Pratt tem carisma, isso é inegável. Os dois separados funcionam muito bem tanto nas cenas cotidianas, quanto no humor e até no fiapo de drama. Ele é meio idiota, um tanto engraçado e ao mesmo tempo sagaz e vigoroso. Ela, escritora, inquieta e madura. Juntos eles são atrapalhados por um texto raso e clichê, apesar que alguns momentos – bem poucos – a dupla vai bem como dupla. 

Visualmente Passageiros transita bem entre a repetição de cenários e um design curioso – curioso no sentido do público e dos personagens irem descobrindo e desbravando as possibilidades daquela nave. Uma cena envolvendo a piscina, mais para o final do longa, é impactante.  Toda a forma como a nave é apresentada também agrada. Não é nada genial, porém eficaz. Já o espaço, fora da nave, fica muito plástico e não consegue imprimir a imensidão desejada.

Há dois outros personagens na história. O primeiro é o robô Arthur (Michael Sheen), sem dúvidas a melhor coisa do filme. Ele faz um barman engraçadíssimo na função de conselheiro. Praticamente todas as cenas com ele funcionam no sentido cômico e são justificadas narrativamente – ótimo artifício do roteiro. Já o outro personagem entra no final do segundo arco. A partir da entrada dele os problemas do filme se potencializam e o ar formulaico, simplificado e melodramático se ressalta. O que poderia ser um frescor naquela dinâmica acaba se tornando uma sequência de absurdos. 
Passageiros nos engana no pior sentido e se torna óbvio quando não devia. Joga fora a chance de explorar um romance, uma ficção científica e um drama. Tenta (ele tenta?) ser tudo e acaba sendo uma nulidade nesses quesitos. As boas cenas e o design de produção, aliados à premissa e ao carisma dos atores, ajudam o desastre não ser completo. 
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