É Apenas o Fim do Mundo (Juste la fin du monde, 2016) – Crítica
É Apenas o Fim do Mundo pode estar no Oscar de Melhor Filme estrangeiro em 2017

Gênero: Drama

Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Gaspard Ulliel, Léa Seydoux, Marion Cotillard, Nathalie Baye, Vincent Cassel
Produção: Michel Merkt, Nancy Grant, Nathanaël Karmitz, Sylvain Corbeil, Xavier Dolan
Fotografia: André Turpin
Montador: Xavier Dolan
Trilha Sonora: Gabriel Yared
Duração: 97 min.
Ano: 2016
País: França
Cor: Colorido
Estreia: 24/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: Califórnia Filmes
Estúdio: MK2 Productions / Sons of Manual / Téléfilm Canada
Classificação: 14 anos
Sinopse: Longe de casa há doze anos, o escritor Louis (Gaspard Ulliel) vai ao encontro da mãe, da irmã, do irmão e da cunhada para informá-los que irá morrer em breve. No entanto, o roteiro da curta reunião, idealizado por Louis, sai de seu controle assim que as mágoas, as memórias, as brigas e as lágrimas do passado ressurgem de maneira implacável.
Nota do Razão de Aspecto:

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Vale o alerta: É Apenas o Fim do Mundo incomoda, tem muitos diálogos e se propõe a ser mais intimista. O tempo inteiro vemos a câmera fechada, sufocando os atores e o público. A história tem signos e alegorias – nada como um Homem Duplicado, mas sim há coisas que exigem atenção. Então, caso aceite o desafio, a angustia e o tom, vocês ficarão diante de uma peça e tanto – valendo talvez as menções honrosas nas listas de melhores filmes de 2016.

Na primeira cena já entendemos que É Apenas o Fim do Mundo não quer passar despercebido. Há uma narração do protagonista. Um belo discurso que culmina na anunciação da própria morte que ele terá que contar para a família. Os entes que ele está há 12 anos separado. O reencontro promete ser recheado. E de fato o é. Mas antes, a cena de transição – onde vemos Louis (Gaspard Ulliel) na posição de observador e até um pouco de observado. Imagens fálicas e um desconforto com os olhares permeiam esse fugaz instante.

Quando vamos para a casa da família de Louis temos o choque. Um certo caos, personas extravagantes e diversas. Louis que tinha algo extremo a ser dito é engolido por uma tempestade de novidades e por aqueles tipos dos irmãos, cunhada e mãe. O longa passa então a um curioso estudo de personagem. Onde construímos as nossas impressões sobre aquela gente que está em constantemente construído Louis – reverberando a cena descrita anteriormente.

Não por acaso ele é um escritor. E menos por acaso ainda ele se comunicava com a família, naquele tempo afastado, usando cartões-postais – recortes distantes, imagens estáticas, duas ou três palavras… O que se manteve: poucas palavras no decorrer da relação, mesmo com Louis já de corpo presente. Ele mais absorve de forma passiva do que se impõe. Todavia, essa quase afasia jamais soa como apatia. Sentimos a presença dele em meio à ausência vocal.

Os atores cumprem bem cada papel. Como o longa tem muito diálogo, o quesito interpretação era fundamental. A estridente e de certo modo senil mãe (Nathalie Baye), o vigoroso e antipático Antonie (Vincent Cassel), a depressiva Suzanne (Léa Seydoux) e a tímida Catherine (Marion Cotillard) compõem o resto do cenário humano. E essa expressão cabe aqui dado que mal vemos a casa em boa parte do longa. O foco é realmente nas pessoas. Novamente o recurso da câmera fechada justifica, pois sem a amplitude o que se promove é tal condição, a de percebemos a família antes do ambiente. 

Ademais a relação com o espaço é curiosa. O claro objetivo de apagá-lo pode ser percebido em diversos níveis. Por exemplo quando Louis pede para visitar a antiga casa e logo é rechaçado pelo irmão que argumenta que a casa está velha, a mãe também intervem e diz que a tal casa não está à venda e que ele não poderia entrar. A mãe, em um momento de lucidez inconsciente, faz um belo discurso afastado dos demais e da casa principal. As lembranças de Louis, reconstruídas com flashbacks, são quase lúdicas. Sobre onde ele mora atualmente, Louis declara que se mudou “daquela favela gay”, como define a mãe e se recusa a dar o endereço para ela. 

Na parte técnica, destaco uma montagem picotada abusando de planos e contraplanos nos diálogos. Mesmo com essa aparente agilidade, as cenas são desenvolvidas em uma cadência mais lenta. Em um desses momentos Louis destaca: “não estou entediado”. Ele claramente fala isso para Catherine e para o público. A fotografia sabe alternar o clima e é mais fria na cena inicial – ali ficamos sabemos de uma notícia triste – e estoura para uma mais quente no ápice da tensão. Acrescenta-se o uso de luz e sombra, com um cuidado nos olhos de Louis – estes encobertos em parte do filme. A trilha se faz muito presente. Salvo um ou dois momentos que são alívios cômicos, no geral ela destoa muito e tenta reforçar algo evidente, ficando invasiva e sendo a nota negativa de É Apenas o Fim do Mundo.
As constantes falas poderiam denotar uma constante comunicação. O que vemos é o oposto. Ruídos, falta de alteridade e até excesso dela. Interessante como cada um dos membros da família tem os 5 minutos de fama, menos Louis – já que ele é o epicentro daquilo. E parece preso naquele redemoinho sentimental e familiar – mas que ao mesmo tempo é tão estranho. O estridente É Apenas o Fim do Mundo é, tal como nosso protagonista, contido. As desventuras fraternais e maternal, o apagamento do locus, o tempo, que distancia e aproxima, e a transformação daquelas figuras quase monotônicas tornam É Apenas o Fim do Mundo brilhante. 
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