ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM (2016) – CRÍTICA
Animais fantásticos aqui habitam, em um filme não tão fantástico assim…


Gênero: Aventura
Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Dan Fogler, Katherine Waterson, Ezra Miller, Colin Farrell, Alison Sudol, Carmen Ejogo, Christine Marzano, Fanny Carbonnel, Gemma Chan, Jason Newell, Jason Redshaw, Jenn Murray, Joe Malone, Jon Voight, Lasco Atkins, Lobna Futers, Lucie Pohl, Peter Breitmayer, Ron Perlman
Produção: David Heyman, J.K. Rowling, Lionel Wigram, Neil Blair, Steve Kloves
Fotografia: Philippe Rousselot
Montador: Mark Day
Trilha Sonora: James Newton Howard
Duração: 133 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos / Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 17/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Warner Bros.
Classificação: 12 anos
Informação complementar: Baseado no livro homônimo de J.K. Rowling
Sinopse: Nos anos 1920, durante visita aos Estados Unidos, o bruxo  e zoólogo Newt Scamander tem lidar com a fuga de alguns dos animais que transporta, e acaba vivendo aventuras que envolvem a comunidade mágica norte-americana e uma terrível ameaça.
Nota do Razão de Aspecto:
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Não é possível falar de literatura infanto-juvenil contemporânea sem mencionar no nome de Joanne “J.K.” Rowling, criadora do universo de Harry Potter. Com mais de 400 milhões de cópias vendidas no mundo todo, trata-se da série de livros mais vendida de todos os tempos. Para além da questão comercial, o sucesso da obra de Rowling realimentou um filão de literatura de fantasia que, embora já existente, foi intensamente catalizado. Se hoje é possível encontrar, em qualquer livraria não-especializada, uma sessão de fantasia recheada de opções (de vários tipos de qualidades), deve-se, em grande medida, agradecer à autora escocesa, que provou que o gênero vende, e muito. Além disso, qualquer escritor(a) que faça um jovem de 13 anos ler um livro de 700 páginas merece o respeito eterno.
A série de oito filmes baseada nos livros de Harry Potter foi igualmente bem sucedida (embora algo irregular, com quatro diretores diferentes no comando), e, ao seu final, deixou aparentemente órfã uma legião de fãs – em especial depois que Rowling afirmou que não retomaria as histórias do personagem. Aparentemente, após ter provado sua qualidade escritora fora da literatura de fantasia (assinando com o pseudônimo de Robert Galbraith), o gosto pelo universo mágico e o tilintar das moedas que o acompanham trouxeram a autora de volta, com a peça-que-virou-livro “A criança amaldiçoada” e o recente Animais fantásticos e onde habitam.
Tendo a própria Rowling no comando do roteiro e David Yates (o mesmo dos quatro últimos filmes da série Harry Potter e do recente A lenda de Tarzan, cuja crítica você pode ler aqui), Animais tem como inspiração um livrete lançado por Rowling em 2001, com objetivo de arrecadar fundos para a fundação britânica Comic Relief, que trabalha em prol da erradicação da miséria. O opúsculo não contém propriamente uma história: trata-se da emulação de um livro didático adotado na escola de magia de Hogwarts – onde Potter estuda, que reúne descrições de diversas espécies mágicas.
E aí começam os problemas da adaptação cinematográfica do livro. Superando Peter Jackson em sua capacidade de multiplicar as horas de filme baseadas em material literário, Rowling anunciou uma pentalogia que terá por protagonista Newt Scamander (Eddie Redmayne), magizoólogo autor do livro que batiza o filme. Na verdade, temos um roteiro original de Rowling, passado no mesmo universo potteriano, mas cerca de 70 anos antes do confronto entre Potter e Snoke Voldemort. 

Logo na abertura do filme, os espectadores são apresentados a uma série de manchetes de jornal (recurso algo preguiçoso, mas que ainda funciona) que procuram ambientar a narrativa: enquanto o mágico Gellert Grindelwald amedronta a Europa com uma série de ataques, nos Estados Unidos o sentimento de intolerância contra os bruxos cresce, e tem sua representação maior no grupo dos Segundos Salenianos (que pregam uma purgação da sociedade nos moldes da Salem do século XVII). A voz mais ouvida deste grupo é a de Mary Lou Barebone (Samantha Morton), que adota crianças para usá-las na disseminação de suas ideias racistas. Seu principal “filho” é Clarence (Ezra Miller), esquisitão introvertido timburtoniano. Para agravar a tensão, uma série de episódios de destruição pela cidade têm sido creditados a ação de bruxaria, o que atrai a presença de Percival Graves, auror do MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos da América).
É nesse contexto que Scamander chega a Nova York, e acaba, inadvertidamente, se envolvendo em toda a confusão. Sua maleta mágica, cheia de animais fantásticos coletados em seus estudos de campo pelo mundo afora, acaba sendo trocada pela de um humano não-bruxo (muggle/trouxa na terminologia inglesa, no maj nos EUA), Joacob Kowalski (Dan Flogler). Completam o elenco central Tina Goldstein (Katherine Waterston), uma ex-auror que se intriga com o visitante inglês, e sua irmã Queenie (Alison Sudol), capaz de ler mentes, que ajudarão o protagonista a recapturar espécimes que escaparam da maleta.
Para os fãs, em especial, estão ali referências ao universo conhecido, como palavras mágicas (“alohomora”!) e citações a Hogwarts e a um certo professor Dumbledore. Mesmo para os que já decoraram detalhes das produções anteriores, há todo um universo novo a ser descoberto, como o MACUSA ou os animais de Scamander. Além disso, aqui não temos adolescentes inseguros quanto ao uso da magia:  Scamander, Tina, Graves, são todos magos experientes, e usam seus conhecimentos tanto nos momentos de ação quanto no cotidiano. 
Com tantas variáveis e personagens, pode-se dar a impressão de que o filme oferece uma trama complexa. O que acontece, na verdade, é exatamente o contrário. Por trás de cenas divertidas e de um visual que funciona na maior parte do tempo, o filme tem um apenas um fiapo de trama, e se apoia muito mais no deslumbramento causado pelos itens, animais e ambientes mágicos. Tudo isso embalado pela boa trilha sonora de James Newton Howard (que ao mesmo tempo evoca o estilo das trilhas de Harry Potter e acrescenta novidades, como o típico jazz dos 1920s, aplicado aqui à temática bruxa). Enxugado do verniz bem feito, entretanto,  o filme revela alguns problemas não triviais de ritmo e foco.
 
Entre identificar os animais que escaparam, recapturá-los, enfrentar a grande ameaça que assola Nova York e resolver seus percalços com o MACUSA, Scamander corre de um lado para o outro e, ainda assim, tem-se a sensação de que o filme é longo demais, com cenas inseridas aqui e ali mais para mostrar algo do que para contar algo.
Em termos de elenco, curiosamente, não é Redmayne quem se destaca. O competentíssimo ator inglês, com um visual de sobretudo-colete-gravata-borboleta que lembra um amálgama de vários Doutores (Who?) entrega um Scamander meio desajeitado e instrospectivo, e consegue transmitir sua profunda empatia pelos animais, ameaçados pela “espécie mais perigosa da Terra”, os humanos. Por outro lado, soa por vezes um personagem meio genérico, sem o carisma-com-um-ator-pior Harry Potter. Aliás, Redmayne e Waterson tem seu filme roubado pela divertidíssima dupla criada por Sudol e Fogler – este, disparado, o maior acerto do filme, capaz de fazer o espectador se identificar com e torcer por ele desde as primeiras cenas. Morton e Miller defendem seus personagens com a estranheza que eles merecem, e Colin Farrell convence como um Graves obstinado e impiedoso. Já a nanoponta de Johnny Depp só serve para mostrar que o cinema precisa de alguns anos de folga de sua escolha para papéis como o dele neste filme.

Mesmo os aspectos visuais funcionam bem, mas não em todo o tempo. A Manhattan da década de 1920 é reconstruída com qualidade, embora, em algumas cenas passadas à noite, dê a impressão de artificialidade e estúdio. Os “animais fantásticos” do título, todos encantadores, oscilam entre o realismo em algumas tomadas e a falta de peso e volume em outras (mas o ornitorrinco mágico é puro charme!).  Por outro lado, o design dos ambientes – seja no MACUSA ou num pequeno apartamento, é feito com esmero e merece elogios.

Por fim, o que o filme tem de melhor é a continuidade de temas que a saga de Harry Potter já tratara, como a intolerância e o absurdo do radicalismo, acrescidos, desta vez, de um componente ambientalista. Em algumas escolhas, temos pequenas indicações do olhar atento de Rowling, Yates e dos outros realizadores: temos um ministério norte-americano capaz optar por sentenças de morte; temos a intolerância étnico-religiosa dos Segundos Salenianos; temos uma presidente mulher e negra na liderança dos bruxos nos EUA; e não por  acaso, temos um grupo de heróis composto por um físico paralítico, uma garota dinamarquesa, um homem franzino, um obeso e duas mulheres.

Sem trazer grandes inovações em termos de direção (mas nem era esperado…), David Yates realiza um Animais fantásticos e onde habitam carente de uma trama mais densa, fascinante em seus aspectos mágicos, irregular em interpretações e em visual, e importante pela consciência social. Que os próximos filmes da franquia partam deste bom, mas não ótimo, filme, e ofereçam um pouco mais do que saudades de Hogwarts.
ps1:  não há cena após os créditos.
ps2: atenção para a ponta de Ron Perlman no filme, vejam se o reconhecem !
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