5º Brasília International Film Festival – Oitavo dia – Jovens, Loucos e mais rebeldes.

O oitavo dia de festival era um dos mais aguardados por mim, por causa da pré-estreia de Jovens, loucos e mais rebeldes (Everybody wants some!!). Só o fato de ser um filme de Richard Linklater já é motivo para se ter boas expectativas. É um dos diretores mais interessantes da atualidade, tendo em seu currículo filmes dos mais diversos estilos, como os experimentais É impossível aprender a arar lendo livros e Slacker, aos psicodélicos Waking Life e O homem duplo, a cultuada trilogia romântica Antes do amanhecer, Antes do por do sol e Antes da meia-noite, bem como o aclamadíssimo Boyhood.

Mas mesmo com um currículo tão invejável, uma comédia simples e despretendiosa se destaca em sua filmografia. Jovens, loucos e rebeldes (Dazed and confused, uma clara citação a música do Led Zeppelin) foi o longa-metragem que colocou Linklater no mapa dos diretores a prestarmos atenção, e também foi o primeiro filme de destaque de uma série de atores de sucesso, como Ben Affleck, Matthew McConaughey, Jason London, Milla Jovovich, entre outros. Esta comédia fala de uma turma de estudantes de high school que, no ano de 1976, ao aproximar de sua formatura, resolvem ir para a farra com muito álcool, drogas e sexo. 
Isto pode parecer uma receita para uma comédia clichê estilo American Pie 35, mas o grande diferencial que Jovens, Loucos e rebeldes traz é uma estrutura narrativa que não se preocupa em contar alguma grande história sobre um herói que pega a garota, ou de como o nerd perdeu a virgindade, ou de como era gloriosa a juventude dos anos 70. No filme temos jovens em busca de uma experiência, pura e simplesmente. Juntando isto com uma exemplar trilha sonora, grandes atores, e uma direção despretensiosa e direta, nasceu um filme que, apesar de ter sido fracasso de bilheteria, se tornou cult nos anos posteriores, sendo considerado por muitos diretores e críticos como uma das melhores comédias de estudantes já feitas, rivalizando talvez apenas com American Graffiti neste quesito.
Então quando Linklater anunciou que iria filmar uma “continuação em espírito” de sua clássica comédia adolescente, as expectativas não poderiam ser maiores.
Jovens, Loucos e mais rebeldes – Mostra Grandes Pré-estréias
Comédia, 117 min, EUA, 2016
Direção:Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Zoey Deutch, Blake Jenner, Tyler Hoechlin, Ryan Guzman
Produção: Annapurna Pictures, Detour Filmproduction, Paramount Pictures
Produtor: Megan Ellison, Ginger Sledge, Richard Linklater
Fotografia: Shane F. Kelly 
Sinopse: Dentro e fora do campo, um grupo de jogadores de beisebol da faculdade traça o seu caminho diante das novidades e loucuras da vida adulta que se inicia. Encarando as liberdades e as responsabilidades dessa fase da vida, eles crescem e se conhecem.
 Nota Razão de Aspecto:
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Continuação espiritual é o termo mais correto para descrever a relação entre Jovens, loucos e rebeldes e Jovens, loucos e mais rebeldes. Ao contrário do que os títulos nacionais podem sugerir a alguns, o filme não é uma continuação propriamente dita, não usa nenhum personagem em comum, nem tem relação narrativa. O parentesco é apenas no tipo de história contada e como se constrói a narrativa. 
No primeiro filme temos adolescentes saindo da high school nos anos 70, no segundo temos jovens entrando na universidade nos anos 80. E a narrativa de ambos filmes se centra não em uma história propriamente dita, mas em um retrato da época, tanto no sentido da década, quanto no sentido etário. Jovens, loucos e mais rebeldes é um retrato de como seriam os jovens universitários nos anos 80.
Linklater novamente conseguiu escalar atores de talento, mesmo que não muito conhecidos. Graças a qualidade das interpretações, bem como do roteiro, a comédia não escorrega para um besteirol estilo Porky’s, pois o humor sempre aparece a partir dos personagens, e não de situações forçadas ou escatológicas. 
A reconstrução de época nos figurinos, cenários, carros, e principalmente na música é primorosa, causando uma nostalgia comovente. A alternância entre os diversos estilos musicais da época é ponto importante para a história, inclusive. A busca dos atletas por mulheres sai do disco, passa pelo country, pelo punk e pelo psicodélico, e esta jornada de ambientes e grupos acaba por nos dar uma panorâmica da época.
O modo como os jovens universitários tentam se afirmar como “macho alfa” em um ambiente competitivo é o tema principal para o humor, tanto na diversidade de modos de cada qual se afirmar como nos anacronismos de época. Muitos dos trejeitos e posturas “machonas” da época se transformaram hoje em ícones do visual homossexual. Linklater sabe que hoje vemos o visual dos anos 80 de outra forma, e brinca muito bem com isto.
O único ponto destoante do filme é que é um filme 100% masculino. É um filme sobre camaradagem e competição entre homens, onde todos tentam ser primus inter pares, conquistando o maior número de mulheres, dando a tragada mais profunda no baseado ou vencendo um concurso de peteleco. De certa forma isto também está presente no Jovens, loucos e rebeldes, no American Graffit e em quase toda comédia colegial e universitária, o que pode incomodar parte do público, em especial nos dias de hoje.
Mas a leveza, a beleza e a sensibilidade com que Linklater conduz seu retrato de época, e como ele constrói personagens tão arquetípicos nos deixa um inegável gosto de alegria e nostalgia na boca. Saímos do cinema um pouco mais jovens e loucos, e sorridentes.

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