SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (SNOWDEN, 2016)
Gênero: Drama
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Anatoly Kucherena, Kieran Fitzgerald, Luke Harding, Oliver Stone
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Nicolas Cage, Scott Eastwood, Shailene Woodley, Zachary Quinto
Produção: Eric Kopeloff, Fernando Sulichin, Moritz Borman, Philip Schulz-Deyle
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Montador: Alex Marquez
Trilha Sonora: Adam Peters, Craig Armstrong
Duração: 134 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 10/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: Walt Disney Pictures
Estúdio: Endgame Entertainment / KrautPack Entertainment / Vendian Entertainment
Classificação: livre
Sinopse: Em 2013, sem fazer alarde, Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) deixa seu emprego na NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) e voa até Hong Kong para encontrar-se com os jornalistas Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e Ewen MacAskill (Tom Wilkinson), além da cineasta Laura Poitras (Melissa Leo), para revelar os programas de vigilância digital do governo dos EUA, cujas proporções eram gigantescas e afetavam governos estrangeiros, grupos terroristas, mas também todos os cidadãos norte-americanos.
Nota do Razão de Aspecto:
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Em mais uma peripécia dos responsáveis pela escolha das traduções/adaptações dos nomes dos filmes para o Brasil, Snowden: Herói ou Traidor recebeu um complemento que nada tem que ver com o conteúdo do filme. Em momento algum o diretor Oliver Stone questiona o heroísmo de Edward Snowden. Não poderia ser diferente: quem conhece apenas um pouco da obra do diretor jamais poderia imaginar que ele realizaria um filme que fizesse concessões às violações cometidas pelos órgãos de inteligência. Feita esta obervação, vamos falar do filme.
Snowden: Herói ou Traidor segue duas linhas temporais: em 2013, durante a entrevista na qual Snowden entregou os dados para os jornalistas Glenn Greenwald Ewen McAskill e para a documentarista Laura Portrais, e de 2004 a 2013, quando acompanhamos o ingresso de Snowden nos serviços de inteligência, a evolução de seu patriotismo conservador para o ceticismo liberal que o levou a denunciar os abusos cometidos contra cidadãos de todo o mundo e as dificuldades de sua vida pessoal, especialmente na relação com sua antiga namorada Lindsay Mills. Se, por um lado, a tentativa de abordar todos os aspectos da vida do personagem pode enfraquecer o conteúdo político e ser considerada dispensável; por outro, é fundamental para humanizar Edward Snowden e para ajudar o público a ter real empatia com o herói (para mim, sem aspas, para muitas pessoas, com aspas).
O ponto alto do filme é, sem nenhuma sombra de dúvidas, a atuação de Joseph Gordon Levitt. A transformação do ator é impressionante: quem viu (e se você não viu, feche agora o navegador e vá ver)  Citizen 4,  documentário vencedor do Oscar 2015, talvez sequer consiga diferenciar o ator do personagem, tamanha a semelhança física, gestual e mesmo psicológica. Zachary Quinto interpreta uma excelente versão de Glenn Greenwald, Melissa Leo está convincente como a documentarista Laura Poitras e o restante do elenco cumpre bem o seu papel, sem maiores destaques.
Tecnicamente, Snowden: Herói ou Traidor é competente, especialmente na fotografia. Há algumas cenas nas quais o enquadramento enfatiza simbolicamente, de forma inteligente, a pequeneza de um homem diante do poder estabelecido, com destaque para um diálogo de plano e contra plano entre Snowden e Corbin, seu antigo mentor, em uma videoconferência. A tela do tamanho de uma parede cria uma assimetria não apenas de tamanho, mas também de poder, além de uma atmosfera ameaçadora.
As locações são lindas e ajudam muito na construção do visual do filme. A direção de arte também merece elogio, por ter realizado uma reconstrução de época e de ambientes totalmente realista. A trilha sonora, por sua vez, é intrusiva, sempre patriótica e heroificadora, alguma vezes como ironia, outras vezes como reforço de uma posição. O filme conta, também, com excelentes animações que fundem o mundo cibernético e a mente humana de duma forma visualmente instigante, o que dá ao filme uma pegada documental – inescapável em uma história dessa natureza.
O roteiro tem seus problemas. O maior deles não é a tentativa de tratar de todos os aspectos da vida de Snowden naquele período, mas, sim, o de fazer o uso de clichês desnecessários para dramatizar determinadas situações. Claro, como a realidade sempre supera a ficção, é possível que algumas dessas situações sejam verdadeiras, mas meu instinto de cineasta me diz que, no cinema, a versão é mais cinematográfica do que os fatos. Além disso, Snowden: Herói ou Traidor seria mais eficiente se tivesse dedicado mais tempo de tela à entrevista de 2013. Claro, é possível que essa escolha tenha sido feita para evitar maiores aproximações com Citizen 4, mas acredito que esta escolhe mais prejudicou do ajudou o desenvolvimento da narrativa.
Snowden: Herói ou Traidor não tem medo de se posicionar e, felizmente, o faz do lado certo da história. Oliver Stone realizou um filme competente, com direção segura, e imprescindível para os tempos em que vivemos, embora sua importância temática seja maior do que seu mérito cinematográfico. Ainda assim, esta comparação é feita em altíssimo nível.Confira a nossa live após a sessão do filme!

 

 

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