O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (THE BIRTH OF A NATION, 2016)
Um filme imprescindível para quem gosta de cinema e para que possamos entender o sentido da barbárie que muitas pessoas tentam relativizar.
 
Gênero: Drama
Direção: Nate Parker
Roteiro: Jean McGianni Celestin, Nate Parker
Elenco: Aiden Flowers, Aja Naomi King, Armie Hammer, Aunjanue Ellis, Colman Domingo, Cullen Moss, Dwight Henry, Gabrielle Union, Griffin Freeman, Jackie Earle Haley, Jeryl Prescott, John Archer Lundgren, Katie Garfield, Kelvin Harrison Jr., Mark Boone Junior, Nate Parker, Nicole Davis, Penelope Ann Miller, Roger Guenveur Smith, Steve Coulter, Tom Proctor, William Mark McCullough
Produção: Aaron L. Gilbert, Jason Michael Berman, Kevin Turen, Nate Parker, Preston L. Holmes
Fotografia: Elliot Davis
Montador: Steven Rosenblum
Trilha Sonora: Henry Jackman
Duração: 120 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 10/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Bron Studios / Mandalay Pictures / Phantom Four / Tiny Giant Entertainment
Classificação: 14 anos
Sinopse:  Quando ainda criança, e escravo, o pequeno Nat Turner aprende a ler para estudar a bíblia e pregar para seus companheiros. Quando seu senhor o leva para uma pequena turnê, em que tenta arrancar dinheiro usando sua fé, ele decide iniciar uma rebelião para libertar os  afro-americanos da escravidão na Virgínia, nos Estados Unidos. 

Nota do Razão de Aspecto:
 
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Em 2016, o ator, diretor, produtor e roteirista Nate Parker teve a coragem de lançar O Nascimento de uma Nação, um filme sobre a revolta de escravos na Virgínia, em 1832, um século depois que D.W Griffith lançou o primeiro grande épico da história do cinema, filme homônimo com conteúdo racista, que fazia propaganda aberta para a Ku Klux Klan. Se se pode afirmar que cada filme é um retrato de sua época, o mundo parece ter evoluído muito nesses cem anos – ou nem tanto, como demonstram os desdobramentos políticos de 2016.
Tive a oportunidade de estar presente na première mundial de O Nascimento de uma Nação no Festival de Sundance 2017, quando fiz este vídeo comentando a sessão. A sessão de lançamento O Nascimento de uma Nação foi eletrizante, com um clima de tensão inesperado no ar. Para o público brasileiro, essa situação pode parecer um pouco exagerada, mas, no contexto da sociedade estadunidense, de e sua história e das narrativas sobre a escravidão, o tema do racismo e o da segregação racial sempre ganham contornos mais radicais do que podemos imaginar. É possível ter uma pequena ideia do clima no vídeo  de perguntas e respostas com a equipe do filme na sessão de estreia.
O filme causou tamanha comoção e tanto debate que resultou na maior contrato de distribuição celebrado na história do Festival de Sundance: US$ 17,5 milhões pagos pela Fox, após os produtores recusarem uma oferta de US$ 20 milhões da NETFLIX. Se, em um primeiro momento, parece estranho aceitar uma proposta financeiramente menos vantajosa, tudo fica claro quando o que está em jogo é a disputa pela indicação ao Oscar. O Nascimento de uma Nação começou o ano liderando as bolsas de apostas para o Oscar 2017.
 
Como narrativa, O Nascimento de uma Nação constrói a jornada de Nat Turner, de um escravo que, involuntariamente, colaborava para o reforço do cativeiro dos negros para o líder de uma revolta violenta e sangrenta, que resultou na morte de algumas dezenas de proprietários de escravos. Nate Parker (o diretor, não o personagem – os nomes são fáceis de confundir) investe no misticismo como elemento formador da personalidade do protagonista e da predestinação daquele jovem a “liderar sua tribo”.  Ao longo do processo de transformação do personagem, a experiência mística de Nat Turner retorna como catalizador de um processo de tomada de consciência ou como gatilho de uma epifania. Trata-se de um recurso eficiente e envolvente para o público.

 

O processo de transformação de Nat Turner é muito bem construído. Como escravo que teve o “privilégio” de se alfabetizar e o “privilégio” de crescer com proprietários bondosos, Turner tornou-se um pregador da palavra de Deus para os escravos. Devido ao seu “talento”, ele começa a ser alugado por seu proprietário para pregar para os negros cativos nas fazendas da vizinhança e, dessa forma, ajudar a recuperar o prestígio da família de seu proprietário e, quem sabe, salvá-lo da falência. Nessas visitas, Turner presencia os mais diversos tipos de crueldade e humilhação a que os negros eram submetidos pelos proprietários que não eram “benevolentes” e sente o chamado do destino para libertar aqueles seres humanos de seus grilhões. Esta é uma jornada dramática e intensa, desenvolvida de forma convincente.
O êxito de O Nascimento de uma Nação depende fundamentalmente das excelentes atuações de Nate Parker,  no papel protagonista Nat Truner – o ponto alto do filme, para além do roteiro e da direção de sua autoria -, Armie Hammer e Penelope Ann Miller, como o casal de proprietários Samuel e Elizabeth Turner, e Aunjanue Ellis, no papel de Nancy, a esposa do protagonista. A intensidade das atuações e a dramaticidade do arco de cada personagem dão ao filme o tom certo para o envolvimento do público.
Tecnicamente, O Nascimento de uma Nação é bem executado, principalmente se considerarmos seu “limitado” orçamento de US$ 10 milhões (quase nada para os parâmetros de Hollywood, mas o suficiente para realizar uns 4 ou 5 excelentes longas metragens brasileiros). Cabe destaque para a fotografia e a direção de arte, que, ao fazerem uso de uma paleta de cores frias, enfatizando o marrom das madeiras e o cinza dos ambientes abertos – mesmo em dias de sol -, reforçam a ambientação claustrofóbica, paradoxalmente presente em ambientes abertos: uma excelente forma de transmitir os efeitos psicológicos do cativeiro. Nada é idílico, nada é lúdico, as plantações não têm lindos feixes de luz do sol nos dorsos atléticos de escravos negros. Tudo é triste e cinzento.
Mesmo no Festival de Sundance, a comparação de O Nascimento de uma Nação com 12 Anos de Escravidão foi inevitável. São filmes que tratam de escravidão, mas com abordagens muito distintas: enquanto o primeiro se concentra na transformação do personagem e trata a violência contra os escravos como uma motivação para a transformação, o segundo se concentra em retratar a violência e os absurdos cometidos contra os negros no sul dos EUA, no século XIX. Haverá quem diga que O Nascimento de uma Nação tem seu ponto fraco na opção do desenvolvimento do personagem, mas acredito que este é seu ponto forte: o filme nos mostra a formação de um líder revolucionário que ousou desafiar e matar os proprietários de escravos, dando um grito de liberdade jamais visto até então. Nat Turner merece entrar para a história com o tratamento que lhe foi dado por este excelente filme.
Se não prevalecer a polêmica em torno da antiga acusação de estupro contra o ator, produtor, diretor e roteirista de O Nascimento de uma Nação, Nate Parker – e não entrarei no mérito da questão -, o filme merece a indicação ao Oscar de Melhor Filme em 2017, além de outras possíveis indicações. Este é um filme imprescindível para quem gosta de cinema e para que possamos entender o sentido da barbárie que muitas pessoas tentam relativizar nos dias de hoje.
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