Por um punhado de dólares – Per un pugno di dollari (1964) – Crítica – 5º Festival Internacional de Cinema de Brasília – Mostra Sergio Leone
Por um punhado de dólares é o filme que solidifica o sub-gênero “faroeste italiano”, e ao revisitar arquétipos literários clássicos cria vários clichês para o faroeste moderno e até para outros gêneros.
Gênero: Faroeste
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Clint Eastwood, Duccio Tessari, Fernando Di Leo, Jaime Comas Gil, Peter Fernandez, Sergio Leone
Elenco: Aldo Sambrell, Antonio Prieto, Benito Stefanelli, Bruno Carotenuto, Carla Calò, Clint Eastwood, Daniel Martín, Gian Maria Volonté, José Calvo, Joseph Egger, Margarita Lozano, Marianne Koch, Sieghardt Rupp, Wolfgang Lukschy
Produção: Arrigo Colombo, Giorgio Papi, Peter Saint
Fotografia: Federico G. Larraya, Massimo Dallamano
Trilha Sonora: Ennio Morricone
Duração: 100 min.
Ano: 1964
País: Itália
Cor: Colorido
Sinopse: Um pistoleiro se envolve em uma disputa entre dois grupos rivais de contrabandistas em um pequeno vilarejo. Fazendo um perigoso jogo duplo ele tenta destruir as duas gangues e trazer justiça, e, se possível, alguns punhados de dólares para seu bolso. 
Nota Razão de Aspecto:
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O primeiro dia do 5º Festival Internacional de Cinema de Brasília encerrou-se com a exibição do filme Por um punhado de dólares, do cultuado diretor Sergio Leone, o homenageado desta edição do festival. E com um detalhe raro, o aúdio exibido foi a dublagem original em italiano, e não a redublagem em inglês feita para o público internacional. Infelizmente não encontrei o trailer com aúdio em italiano e legenda em português, para acompanhar melhor o que foi exibido.
Sergio Leone foi talvez o diretor mais importante para a história dos filmes de faroeste, sendo o principal representante da estética que ficou conhecida como Spaghetti Western, ou Faroeste Italiano, termo mais popular no Brasil. Ao contrário dos filmes de faroeste americanos clássicos, este novo estilo trazia protagonistas com ambiguidades morais, de poucas palavras, cenários e figurinos simples, pobres e sujos, e uma ênfase na comunicação por closes extremos em expressões faciais. Este subgênero não apenas transformou o faroeste na época, como gera impacto até hoje em filmes como Django Livre, Os oito odiados e Rastro da Maldade.

Apesar de Por um punhado de dólares não ser o primeiro faroeste italiano, foi o primeiro a ser um grande sucesso comercial, cimentando definitivamente o caminho para uma longa geração de filmes no mesmo sub-gênero. E foi o primeiro filme da “trilogia dos dólares”, junto com Por uns dólares a mais e Três Homens em conflito (ambos serão exibidos na Mostra Sergio Leone e analisados pelo razão de Aspecto), trilogia que contou com a participação de três ícones do cinema: Sergio Leone, Ennio Morricone e Clint Eastwood.
Eu nunca fui um grande fã de faroestes, e nunca tinha assistido um filme do Sergio Leone (talvez trechos na Rede Globo na minha infância, não descarto a hipótese). Eu esperava ver a origem de uma série de clichês do gênero, e, apesar dos clichês estarem presentes, fui positivamente surpreendido.
Sem querer criar uma teoria elaborada sobre cinema, vou diferenciar aqui três tipos de elementos que se repetem em certos gêneros: os arquétipos, os clichês e os estereótipos.
O estereótipo é aquele personagem ou conceito que, devido ao excesso de uso, nos causa uma certa repulsa e dificulta a suspensão de descrença, tornando a situação artificial. Exemplo: o vilão que aprisiona o herói, não o mata e conta todo o plano maléfico. Quase sempre a presença de um estereótipo é ou um erro grave ou um elemento de paródia.
O clichê é um recurso narrativo típico do gênero, que está presente na estrutura clássica deste. Exemplo: o par romântico que se apaixona, entra em conflito, se separa, e depois volta a se entender e realiza a união amorosa. Clichês existem por que funcionam, mas são facas de dois gumes, que podem gerar tanto identificação com o tema como previsibilidade e falta de originalidade.
Já o arquétipo é o elemento que serve de referência a nosso inconsciente, não importando o estilo da narrativa. O conceito de herói, de bem, de mal, de superação, etc. Quando uma história se utiliza de arquétipos de modo adequado, ela nos toca de modo mais profundo, nos fala de imagens e figuras de linguagem além da história e do consciente.
E é aí que reside o grande mérito de Por um punhado de dólares. Temos alguns clichês bem marcados, e infelizmente alguns estereótipos. Contudo o personagem de Clint Eastwood é totalmente arquetípico, e segue um arquétipo de herói raro de se ver no cinema, e que, espero, seja comum no faroeste italiano.
O pistoleiro de Clint Eastwood é um herói, mas não um herói típico do cinema americano, e sim um arquétipo de herói grego, onde a virtude que ele carrega não é a busca do bem e ajudar o próximo, mas a certeza de seu valor interno e de sua capacidade de superar as maiores adversidades.
E para tal seu principal instrumento não é a inegável rapidez no gatilho, mas uma astúcia enganosa e trapaceira. Não é apenas inteligência de estar dois passos a frente dos outros, mas sim a capacidade de manipular, enganar, iludir. Recursos que estamos acostumados a considerar mais vilanescos que heróicos, mas que no gringo (principal apelido do personagem) gera simpatia e admiração.
E tudo isto é passado sem diálogos elaborados, sem explicações detalhadas, mas por imagens e ações, de forma inteligente e simples. É neste ponto que Sergio Leone mostra sua maestria: as ações e suas consequências falam mais que os personagens.
O uso da câmera fechada nas expressões faciais, nas armas, no chão (ressaltando botas e esporas), e a secura e sujeira visual e comportamental dão a atmosfera pesada e desesperada que caracterizaram o gênero. E como reforço enorme, os efeitos sonoros e a trilha de Ennio Morricone, sufocante e dramática.
A presença de vários clichês (alguns deles, importante ressaltar, se tornaram clichês por causa deste filme), a ingenuidade de alguns personagens, alguns momentos de dramalhão e a baixa qualidade de alguns cenários podem incomodar alguns espectadores em poucos momentos, mas Por um punhado de dólares supera facilmente o teste do tempo, se mantendo como um dos clássicos do cinema.
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