DOUTOR ESTRANHO (DOCTOR STRANGE – 2016) – Crítica SEM SPOILERS


Doutor Estranho é a prova que a Marvel/Disney sabe ganhar dinheiro e sabe também gastá-lo muito bem.



Gênero: Aventura
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Jon Spaihts, Joshua Oppenheimer, Thomas Dean Donnelly
Elenco:  Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Mads Mikkelsen, Rachel McAdams, Tilda Swinton
Produção: Kevin Feige
Fotografia: Wyatt Smith
Trilha Sonora: Christopher Young
Duração: 115 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 02/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: Walt Disney Pictures
Estúdio: Marvel Studios
Classificação: 12 anos
Sinopse: Dr. Stephen Strange é um neurocirurgião de sucesso, tão competente quanto arrogante. Após um acidente de carro, perde a coordenação das mãos e, com isto, tem sua carreira condenada. Obcecado por uma cura aparentemente impossível, o que o leva a sacrificar uma fortuna e suas poucas relações sociais, acaba chegando ao Nepal. Lá ele encontra muito mais que procura, e embarca em uma guerra mística que ameaça todo o planeta
.



Nota do Razão de Aspecto:
——————————————————————–
Embora menos conhecido do grande público
do que outros personagens da Marvel, o Doutor Estranho foi criado na primeira “grande leva” de criações de Stan Lee, nos anos
de 1961-3, junto com o Homem-Aranha, o Homem de Ferro e Vingadores (e meses
antes, por exemplo, de X-Men).  Em vez de
repetir as parcerias com Jack Kirby, desenhista hábil em criar heróis fortes e
cenas intensas, Lee preferiu Steve Ditko, responsável pelo visual do
Homem-Aranha, para criar o Mago Supremo do Universo Marvel.
Se o Homem de Ferro tinha uma levada
tecnológica e militar, o Quarteto Fantástico era carregado de elementos de
ficção científica e Thor flertava com a mitologia nórdica, o Doutor Estranho
abriria um outro nicho para as histórias da Marvel. Inspirado no crescimento de
uma espiritualidade difusa, frustrada com o mundo material, que levaria, ao
final da década, desde a jornadas espirituais dos Beatles ao oriente até ao
consumo de drogas em busca da ampliação das percepções, os embates mágicos e
visual altamente lisérgico das histórias do Doutor Estranho mostraram,
novamente, que a Marvel entendeu muito bem o tempo em que vivia (aliás, reparem
bem o que Stan Lee tem nas mãos em seu tradicional cameo).
Diferente dos outros personagens, o
confronto físico não é a forma mais comum do Dr. Estranho superar seus
adversários, e sim o conhecimento de magia e a inteligência em seu uso (e nisso
o filme foi… cirúrgico!). O visual do personagem nos quadrinhos sempre foi
excessivo, teatral, com cenários de cores fortes, tom psicodélico, e frases de
efeito e um mise en scene dramático para dar uma aura de mistério ao personagem
e à trama.
Uma das grandes dificuldades de se trazer
o personagem para as telas era como transportar essa linguagem visual exagerada
de forma convincente e sólida, que pudesse agradar tanto aos leitores dos
quadrinhos quanto ao público em geral. Felizmente o avanço tecnológico em
efeitos de computação gráfica, aliada à boa direção de atores e de câmera de
Scott Derickson suplantaram com louvor o desafio.
Derickson vem de uma carreira de diretor
e roteirista principalmente de filmes de terror, como O exorcismo de Emily Rose
e A entidade. Seguindo a tradição de apostar em diretores menos conhecidos,
mas com potencial (como Jon Favreau em Homem de Ferro  e James Gunn em Guardiões da Galáxia), a
Marvel entrega em mãos precisas um novo blockbuster, que marca a terceira fase de seu universo
cinematográfico. Apesar das obras anteriores de Derickson
não terem sido grandes sucessos, sempre foram pontuados por boas atuações,
e desta vez não foi diferente.
Embora repita a fórmula geral de
histórias de origem, Doutor Estranho usa bem esse roteiro básico. E mais que
isso, tudo em volta da trama funciona bem. A história é conhecida dos fãs dos
quadrinhos: o cirurgião Stephen Strange, tão genial quanto arrogante, sofre um
acidente de carro no qual perde a coordenação das mãos. Desesperado por uma
cura aparentemente impossível, ele acaba no Nepal, onde é treinado nas artes
místicas.
Parte do sucesso da adaptação
cinematográfica pode ser atribuído a Benedict Cumberbatch, que convence em cada
nuance do Dr. Strange. O personagem efetivamente se modifica, da inteligência
egoísta e materialista ao fascínio do aprendizado mágico, com ceticismo e decadência
no meio. Ator que tem se especializado em interpretar personagens
intelectualmente geniais, mas com problemas de relacionamento social,
Cumberbatch tem como grande mérito não repetir seu Sherlock Holmes ou seu Alan
Turing, (de O jogo da imitação). É um outro tipo de sociopata altamente
funcional.
Já os demais atores principais, Tilda
Swinton, Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor e Benedict Wong tem poucas
exigências, mas por serem bons interpretes cumprem devidamente o que é proposto
e fazem com que a gente sinta empatia imediata. 
Swinton é sempre competente em seus trabalhos, e passa a sabedoria
misteriosa da Anciã. McAdams interpreta a Doutora Palmer, único personagem a
manter algum nível de relação afetiva com Strange, que o roteiro
inteligentemente não deixa escorregar para um relacionamento amoroso piegas. Os
fãs do personagem sabem que veremos mais do Mordo de Ejiofor, momento em que
poderemos acompanhar mais de sua interpretação. Mads Mikkelsen (que viveu
Hannibal Lecter na série de TV) vive o vilão, Mestre Kaecillus. Aqui a Marvel
mostra ainda uma de suas fraquezas. O único vilão inesquecível até o momento é
Loki, com um bom potencial do Thanos que virá por aí. Há, entretanto, um
momento em Doutor Estranho em que o vilão muda de figura e cresce em potencial
narrativo.
A exuberância dos efeitos especiais é um
capítulo à parte, e poderia fazer um diretor ficar preguiçoso e se esconder
atrás deles, mas em nenhum momento temos cenas que parecem estar ali só para
mostrar o CGI ou afogar o espectador em shows pirotécnicos à la Michael Bay. Os
cortes são precisos, os conflitos internos de Stephen Strange recebem o tempo
necessário para se desenvolver, e os efeitos são um complemento à trama, e não
um substituto dela. Sim, há momentos que lembram visualmente A origem
(Inception), com prédios se movimentando e a cidade se dobrando sobre si mesma.
Ainda assim, a razão na história que provoca esses efeitos, a escala a que são
elevados e a interação dos atores com o cenário não deixam uma sensação de
plágio de Inception, e sim de passo à frente. Isso tudo sem que se perca o
entendimento do que está acontecendo na cena, tão típico de diretores inábeis
com cenas de ação.
Se Inception ganhou o Oscar de efeitos,
não vejo motivos para Doutor Estranho pelo menos não estar no bolo. Os cenários
vão desde o urbano – explorando a grandiosidade das metrópoles, passam pelo
Everest e desertos, e chegam em ambientes psicodélicos do multiuniverso –
lembrando algo dos mundos subatômicos do Homem Formiga.
O 3D honra o preço do ingresso e faz
sentido narrativo, uma vez que a parte tridimensional é intrínseca à historia.
Há tempos não  se vê um uso da tecnologia
digital em grande escala – mas totalmente integrada ao filme, sem parecer exibicionismo técnico – como em Doutor Estranho.
O cuidado visual não se limitou aos
efeitos digitais. Além do visual dos personagens e dos cenários ser convincente
e capaz de transportar o espectador para a história, percebe-se um cuidado com
alguns detalhes, que fazem a diferença na avaliação final. Um exemplo é a
presença de um piano na casa de Stephen Strange. Mesmo que esse objeto não
tenha qualquer importância na história, evoca um uso sofisticado das mãos,
exigidos tanto na carreira médica quanto mística do protagonista.
A montagem é ágil, porém sem perder a
consistência. Os momentos de respiro demoram a vir, contudo o longa se sustenta
bem no ritmo mais acelerado. E, quando a coisa acalma, o faz de modo pontual,
sem dar a conhecida sensação de esticada desnecessária na trama. São 115 minutos
que passam muito rapidamente, um grande elogio para esse tipo de filme.
Outro ponto que merece destaque é o humor. Todos os momentos de alívio cômico são engraçados, ainda que haja um
certo exagero na quantidade neles. Há, inclusive, um certo humor físico que
destoa em determinadas cenas e quebram o ritmo. É como se, em algum ponto, os
realizadores se lembrassem “opa, temos de colocar uma cena engraçada
aqui”. Para o bem do longa, esses casos são a exceção, e os atores –
sobretudo Cumberbatch, Wong e McAdams dão plena conta do timing necessário.
Os deslizes de Doutor Estranho passam
também pelo excesso de exposição,  com
diálogos que se repetem e eventualmente explicam o óbvio.  Além disso, quando do início do treinamento
de Strange, há diálogos bem pouco criativos sobre magia e mundo espiritual. Há,
ainda, um problema que, até o momento, não foi superado de forma ideal por
nenhuma adaptação de Doutor Estranho (mesmo nos desenhos): há uma excessiva
fisicalidade na magia – e aqui não há referência sobre as movimentações
interessantes das mãos dos magos. Há sempre um ar de luta marcial, de espadas
ou punhais ou machados mágicos sendo conjurados para atacar fisicamente outras
pessoas.
Doutor Estanho marca o início de uma nova
leva de filmes da Marvel mostrando qualidade. O parentesco com Homem de Ferro
(personagem arrogante e genial que tem muito a aprender sobre a humanidade) é
inegável, mas o resultado visual e de roteiro traz-lhe características
próprias. Mais próximo de Guardiões da Galáxia ou de Homem-Formiga do que de
Capitão América: Guerra Civil, Doutor Estranho, ao mesmo tempo que traz
elementos diretamente ligados ao futuro do Universo Marvel dos cinemas,  não exige grande bagagem anterior dos outros
títulos da empresa, sendo um ponto de entrada ideal para atrair (ainda mais)
novos públicos.
PS: Vale a lembrança de que todo filme da
Marvel tem cenas pós créditos. Aqui não é diferente: são duas cenas, ambas
interessantes e que apontam a continuidade para os personagens que delas
participam.

por Aniello Greco, D.G.Ducci e Lucas
Albuquerque
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