WESTWORLD (1.5) – CONTRAPASSO – SÉRIES E TV
Acompanhe do Razão de Aspecto comentários sobre todos os episódios !

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS DO QUINTO  EPISÓDIO DE WESTWORLD.


Leia a ficha técnica aqui

Nota do Razão de Aspecto: 
Westworld chega à metade de sua primeira temporada apostando em capítulos densos, e com avanços lentos, que dão um certo gosto de desvelamento de pequenos mistérios sem entregar ainda quais são de fato seus protagonistas e antagonistas – e melhor ainda será se todos puderem ser considerados assim, dependendo do momento e de quem analisa – e qual, de fato, é sua trama de fundo.
Em Contrapasso, o quinto episódio da série, Ford parece reflexivo ao conversar com o velho Anfitrião Billy. Ele conta a história de um cachorro da família que destroça um gato na primeira vez que é solto e depois não sabe exatamente o que fazer. Estaria Ford se referindo a si mesmo, que oscila entre o cansaço dos anos de criação do parque e o seu projeto de nova (última?) história?

Dolores e William chegam a Pariah, uma cidade bastante diferente de Sweetwater, com poucas regras, muita sensualidade, e muito a se ganhar e a se perder, dependendo dos contatos que se tenha. Enquanto Dolores tem suas confusões mentais, geradas aparentemente por memórias que retornam e por uma voz que a instrui mentalmente, Logan tem um diálogo revelador com William: a empresa no qual os dois trabalham mantém advogados pesquisando sobre Westworld, com a potencial atenção de comprá-lo e fazer algo “mais grandioso”.  Ele acrescenta que um sócio de Westworld se suicidou em pleno parque, mas que não se consegue saber nada sobre ele – não se consegue recuperar sequer uma foto. Adensa-se o mistério de Arnold, e mostra-se aqui que a linha temporal onde se encontram é posterior à grande confusão que o parque viveu no passado.
O Homem de Preto mata Lawrence e usa seu sangue para recuperar Teddy Flood. Aparentemente, ele se enganara sobre quem seria sua parceria ideal em busca do labirinto. Na cena, ele menciona uma frase que “an old friend” dizia, de que “todos têm um destino”.  Essa frase remete tipicamente a Dolores, o que reforça uma relação antiga dos dois (o quê já tinha sido indicado anteriormente na temporada). Em um outro comentário simbólico para a série, ele fala da versão atual dos anfitriões, “triste e realista”, muito menos interessante do que as primeiras versões, repletas de peças  artificiais lindas.  Esse doloroso processo dos Anfritriões se tornarem “tristes e realistas” é, claro um dos fios condutores da série. A dor da humanidade.

Para confusão geral dos espectadores, o famoso criminoso El Lazo, a quem Logan queria contactar desde o episódio anterior, se revela ninguém menos que Lawrence – o que leva a três hipóteses: a) reaproveitaram o robô-Anfitrião (o que parece improvável, devido ao curto período de tempo desde sua morte nas mãos do Homem de Preto); b) existe mais de um Anfitrião com a mesma aparência (o que uma cena posterior com Dolores parece corroborar); ou c) as linhas temporais são diferentes mesmo, e o Lawrence-Lazo vive anos antes de Lawrence-morto.
Durante um desfile do Dia de los Muertos em Pariah – inserido espertamente pelos realizadores em um episódio exibido na véspera do Halloween – Dolores continua a se questionar sobre seus próprios sentimentos e pensamentos recentes. Ela se questiona sobre a possibilidade de fazer escolhas a cada passo – em novo passo ao abandono total de seu loop – e estranha a referência de William ao “mundo real”. Ao enxergar outra pessoa exatamente com suas feições e roupas em meio ao desfile, e persegui-la sem sucesso, Dolores desmaia, o que leva…

… a uma cena reveladora nos bastidores do parque. Em uma conversa entre Dolores e Ford, ele pergunta a ela sobre seu interesse de “take a bigger role” na trama, fora de seu pequeno loop. Ford pergunta, igualmente se Dolores se lembra de Arnold, e ela informa que o último contato com o ex-sócio de Ford foi há 34 anos, no dia em que ele morreu. A última coisa que Arnold teria dito foi que ela o ajudaria a destruir “este lugar”. Pelo comentário de Ford, de que Dolores é a única que resta daquela época, e de que não restou ninguém que estivesse lá, mostra o alcance da morte de Arnold em termos de destruição. Se tomarmos o comentário de Dolores como base, fica claro que ela e Ford não são exatamente “old friends”. Mais importante que isso tudo, Dolores comenta com a voz em sua cabeça que “he [Ford?] doesn’t know” e que ela “didn’t tell him anything“.
Nos laboratórios da Delos, Elsie permanece intrigada com o comportamento errático de alguns dos Anfitriões. Ao chantagear um dos técnicos da área de destruição robôs, ela descobre que Westworld vem sendo espionado via satélite. 
De volta a Pariah, El Lazo condiciona sua intermediação do encontro entre Logan e um grupo de mercenários ex-Confederados ao roubo de um carregamento de nitroglicerina. Logan, William e Dolores são bem sucedidos, mas vemos pela primeira vez Dolores mudar bastante de atitude – o que é refletido, inclusive, por uma inédita mudança de figurino. Na sequência, em uma enorme orgia que celebra o sucesso da empreitada, Dolores encontra uma vidente, que, em certo momento, parece ser ela própria, e a diz para seguir o labirinto. Em uma visão, ela encontra um fio em seu braço (resultado de alucinações de sua memória?), mas antes de ter a catarse de se descobrir artificial, desperta. Enquanto isso, a tensão entre Logan e William – que transborda a diferença de comportamento dentro do parque e chega até a carreira profissional de ambos – chega a um pico que provavelmente separará em definitivo a dupla. 
 
Ao descobrirem que a nitroglicerina recebida era falsa – a verdadeira havia sido contrabandeada por El Lazo – os ex-Confederados partem para a vingança. William deixa Logan à própria sorte, enquanto Dolores pensa “em uma vida em que não precise ser a Donzela” e mata sem piedade todos os que os perseguiam. Tal qual o cão de Ford, sua liberdade vem com um enorme potencial para violência. Fugindo de Pariah no mesmo trem de El Lazo, com quem estabelece uma aliança temporária, Dolores vê o símbolo do labirinto no caixão do cadáver recheado de nitroglicerina. Ela conta a William que uma voz em sua cabeça a diz o que fazer, e estar com William é o que precisa ser feito no momento. 
Em um momento forte do episódio, os antagonistas(?) Ford e Homem de Preto se encontram. Enquanto o criador de Westworld se mostra curioso sobre quais são os objetivos da jornada do outro, desdenhada como “de auto-conhecimento”, e o que ele pretende encontrar no labirinto, este afirma que sempre acreditou que faltasse um grande vilão no parque. Não basta o prazer e a violência oferecidos por Westworld: ele quer a verdade. Ficamos sabendo, ainda, que o Homem de Preto foi responsável por salvar Ford quando da morte de Arnold. Os dois se despedem com Ford desejando boa sorte ao Homem de Preto em sua empreitada, sem desencorajá-lo, como seria esperado. Será que, uma vez revelado o segredo do labirinto, o Homem de Preto se sentirá perdido, como o cão de Ford?

O fim do episódio nos mostra que Maeve chegou a um novo nível de controle de consciência. Tendo sido levada para manutenção, ela desperta, para choque de Felix, técnico da sessão que vêm praticado clandestinamente a codificação de Anfitriões com um passarinho. Consciente de sua situação de Anfitriã, ela pretende tomar providências quanto à sua condição e a dos Anfitriões… Se sua recém conquistada liberdade a levar à mesma atitude do cão da infância de Ford, podemos esperar muitas mortes humanas daqui para a frente…
Este provavelmente o episódio mais intenso em informações sobre a trama da série. Foi também o episódio em que Dolores teve sua catarse definitiva de fuga de sua programação. Em termos de estruturação, Contrapasso não foi tão bom quanto os primeiros episódios: a quantidade de tramas e subtramas a tratar acabou deixando-o menos coeso – a despeito da metáfora do cão de Ford unir tematicamente vários acontecimentos.
Parece claro que, ao final da série, todos os episódios terão de ser revistos – para alegria dos patrocinadores – para que determinadas cenas sejam vistas novamente após termos a(s) chave(s) de entendimento. Brincar com a percepção do espectador é típico dos roteiros de Nolan, basta ver Amnésia ou O Grande Truque.
Além de reforçar – pela presença de dois Lawrence – a teoria de que   série se passa em duas linhas temporais diferentes, Westworld se aprofunda nos temas de regras versus liberdade. O próprio parque propõe esse tipo de reação ao permitir aos visitantes assumirem papéis completamente diferentes do quem são na “vida real”. É curioso perceber que matar e fazer sexo com os Anfitriões é parte das regras do parque, e mais interessante ver estabelecida a parceria entre William (o certinho fora e dentro do parque) e Dolores (que trilha o caminho de se libertar das regras que lhe são impostas pela programação. 
Tal qual Ford, que não deu ouvidos ao pai quando ele lhe disse para se contentar com o lugar que a vida lhe dera, humanos e Anfitriões parecem despertar para esse chamado: Elsie burla regras para conseguir informações, Maeve burla sua programação para se tornar consciente e iniciar sua vingança. 
O Contrapasso do título do episódio se refere à lei que rege as punições no inferno de Dante Alighieri. Segundo essa regra, os pecadores são punidos ou por analogia ou pelo oposto de sua ação em vida: assim, no primeiro caso, um alcoolatra seria condenado a beber até explodir; no segundo, uma pessoa acomodada em vida é punida com atividades frenéticas no inferno.
Quem serão os punidos de Westworld?  Os Anfitriões, pela ousadia de desafiar suas programações? Os humanos, pelos anos de abusos sobre os Anfitriões?). Seres artificiais podem ser vítimas de abuso? A punição virá por violar regras ou por respeitá-las? 
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