O MESTRE DOS GÊNIOS (GENIUS, 2016)
Gênero: Biografia
Direção: Michael Grandage
Roteiro: John Logan
Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Laura Linney, Guy Pierce, Dominic West, Andrew Byron, Angela Ashton, Atul Sharma, Bern Collaco, Demetri Goritsas, Erick Hayden, Gioacchino Jim Cuffaro, Greg Canestrari, Jane Perry,  Katherine Kingsley, Kumud Pant, Mark Arnold, Sophia Brown, Vanessa Kirby
Produção: James Bierman, John Logan, Michael Grandage
Fotografia: Ben Davis
Montador: Chris Dickens
Trilha Sonora: Adam Cork
Duração: 104 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos / Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 20/10/2016 (Brasil)
Distribuidora: Diamond Films
Estúdio: Desert Wolf Productions / Michael Grandage Company / Pinewood Pictures / Riverstone Pictures
Classificação: 12 anos
 Nota do Razão de Aspecto:
flertando com 4,5
Na literatura estadunidense, a década de 1920 foi um período de aguda criatividade. Desde o início do século XX, autores como Henry James e Gertrude Stein já transbordavam a influência europeia para criar uma sensibilidade e uma voz própria dos Estados Unidos. Essa consolidação se deu com a geração de Ernest Hemingway, F.Scott Fitzgerald, Thomas Wolfe, entre outros. Além do talento e da morte precoce (no caso de Fitzgerald e Wolfe), liga esses autores o nome de Max Perkins, editor dos três.
A editora em que trabalhou – a Charles Scribner’s Sons – já era uma empresa respeitada, no mercado há mais de 60 anos e tendo em seu catálogo nomes como o de Henry James e de Edith Warton quando Max Perkins foi contratado em 1910. Perkins buscou ativamente por jovens talentos norte-americanos. Nesse caso, o raio caiu não apenas uma, mas três vezes no mesmo lugar: foi Perkins quem abriu o mercado editorial para Fitzgerald, Hemingway e Wolfe. 
É exatamente sobre a relação de intensa amizade e conflito entre Perkins (Colin Firth) e Wolfe (Jude Law) em que se concentra O mestre dos gênios (Genius, no original), primeiro longa do veterano diretor de teatro Michael Grandage, com roteiro de John Logan (Penny Dreadful, os dois últimos 007, A invenção de Hugo Cabret, O último samurai, e vários outros sucesso), baseado em livro de A.Scott Berg (que já se debruçara sobre a literatura americana no documentario Sallinger, de, 2013, sobre o autor de “O apanhador no campo de centeio”).

Diretor de arte da companhia teatral que leva o seu nome, Grandage transporta a seu filme o apuro no visual. Assim, a reconstituição da Manhattan do final da década de 1920, os figurinos e a direção de arte são pontos fortes de O mestre dos gênios. Mas a chave para a qualidade (e mesmo para os eventuais deslizes) do filme são as interpretações.
Firth e Law, atores ingleses até o tutano, interpretam norte-americanos quase arquetípicos, e completamente diferentes entre si: enquanto o Perkins de Firth é um homem metódico, dedicado e incansável no que diz respeito a seu trabalho e, até certo ponto, frio, o Wolfe que nos mostra Law é um sulista bronco, com uma daquelas personalidades tão geniais quanto insuportáveis, sempre falando alto, procurando ser o centro das atenções e incapaz de conter sua compulsão por escrever mais e mais, para desespero de seu editor que busca uma obra mais concisa e comercialmente viável. Mas uma coisa os dois tinham em comum: a facilidade com que abandonavam a todos e a tudo a sua volta para se dedicar, cada a seu modo e com seu talento, à produção literária.
 
E é aí que mora um dos possíveis deslizes do filme. Mesmo levando em conta a personalidade excêntrica de Wolfe, em alguns momentos do filme ele não parece uma pessoa normal. E, creio, a culpa não é de Jude Law, e sim de alguns dos diálogos, literários demais, e o tempo todo. É como se Wolfe fosse incapaz de falar frases um pouco mais simples, mesmo em situações triviais. 
Completam o elenco central Nicole Kidman, como Aline Bernstein, famosa figurinista da época com quem Wolfe manteve um caso por quatro anos e Laura Linney interpreta Louise, esposa e mãe de família de um Perkins cada vez mais distante para se dedicar ao trabalho e à Wolfe. Tem-se ainda Guy Pierce como um Fitzgerald decadente, e Dominic West, em uma cena como Hemingway. Nenhum deles compromete ou tem uma atuação particularmente excepcional. E ainda prefiro do Hemingway de Clive Owen em Hemingway & Marta (2012), em que contracena justo com Kidman.

Há outros dois pequenos incômodos no filme: primeiro, alguns diálogos e cenas expositivas demais na ambientação do início do filme (como um travelling na estante de livros de Perkins, para mostrar ao espectador quais livros ele já tinha editado, ou cenas, sem muita necessidade, e na sequência, com diálogos em que alguém chama o personagem de “Sr.Perkins”e “Max”, como que para ter certeza que o nome do protagonista seja aprendido desde cedo. O cacoete se repete quando os dois protagonistas se encontram e brota a frase-muleta “você deve ser Thomas Wolfe”. Por fim, também no início do filme, a trilha não-diegética (composta por Adam Cork) concorre um pouquinho com cenas em que talvez devesse sumir ou ser minimalista (como na leitura de um trecho de livro em um trem, não necessitaria da emoção na música em um momento em que o texto já emociona. Por fim [pun intended], a última-última cena do filme é bastante desnecessária – aparentemente faltou um Perkins na vida do diretor.
Esses momentos, entretanto, são facilmente compensados por boas escolhas do roteiro: acima de tudo, o foco na relação de dois personagens, e não a tentativa de contar a vida toda de Perkins ou Wolfe; além disso, o filme passa longe da hagiografia em que se tornam certas cinebiografias; por fim, para voltar às questões musicais, há uma cena em um clube de jazz em que a trilha diegética serve não só à narrativa, mas à toda uma metáfora das diferenças e semelhanças dos personagens principais.
Indicado para o Urso de Ouro do Festival de Berlim, O mestre dos gênios entretem pela força de seus protagonistas, pela reconstituição de época e por um olhar nos bastidores da produção literária. Um filme sobre os limites da amizade e sobre o aprendizado de que mesmo a genialidade literária não se impõe sozinha nem dispensa aperfeiçoamento.
por D.G.Ducci
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