The Wailing ( O Lamento, 2016) – Crítica
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.”
H. P. Lovecraft



Gênero: Terror

Título original: Goksung
Direção: Na Hong-jin
Roteiro: Na Hong-jin
Elenco:   Kwak Do-Won, Hwang Jung-Min, Chun Woo-Hee, Jun Kunimura   
Produção: Suh Dong-hyun, Kim Ho-sung
Fotografia: Hong Kyung-pyo
Trilha Sonora: Jang Young-gyu
Duração: 156 min.
Ano: 2016
País: Coréia do Sul
Cor: Colorido
Distribuidora: 20th Century Fox Korea
Sinopse: Um policial investiga uma estranha doença que assola sua cidade, levando pessoas comuns a terem surtos de violência psicótica. Rumores e fofocas associam a epidemia com a chegada de um estranho japonês, e a investigação se torna pessoal quando a filha do policial começa a sofrer estranhos sintomas.


Nota do Razão de Aspecto:

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Eu não cito H. P. Lovecraft em vão. O filme começa com uma citação bíblica, então nada mais adequado do que eu começar minha crítica com um dos monstros sagrados da literatura de terror. E apesar de The Wailing não seguir o mesmo universo do escritor americano, tem em comum com ele a sensação de estranheza e insanidade quando pessoas comuns lidam com uma realidade muito além da compreensão humana.
Assim como Invasão zumbi, The wailing é um excelente filme de terror coreano selecionado para o Festival de Cannes deste ano, e também tem cenas com zumbis. Mas não é propriamente um filme de zumbis, e sim um filme com zumbis (ou, dependendo do quanto você é preciosista com o termo, um filme com zumbi, no singular).

E este é um dos grandes méritos do filme. As criaturas monstruosas são difíceis de rotular. São criaturas que não são propriamente zumbis, ou fantasmas, ou demônios, ou vampiros, ou bruxos, e ao mesmo tempo são tudo isto juntos. Pelo menos para este ocidental aqui, que pouco entende de folclore coreano, de mitologia budista e xintoísta, os monstros de The Wailing são totalmente diferentes dos monstros típicos do cinema, seja ocidental, seja oriental.
O título dá uma excelente ideia do clima do filme. Para quem tem um inglês pior que o meu, wailing significa lamento, choro, uivo, grito. É o som que alguém emite quando em profundo pesar e/ou quando em total pânico. E quase o tempo todo alguém no filme está neste estado.

Há um equilíbrio muito delicado entre o primeiro ato e o restante do filme, no que se refere ao policial interpretado por Kwak Do-Won (The man from nowhere). Jong-Gol é um policial incompetente, um tanto abestalhado, ingênuo e supersticioso. Durante o primeiro ato, ele funciona como um alívio cômico, fazendo contraponto as pesadíssimas cenas de crime e as sugestões bastantes desagradáveis do que está por vir. Mas quando sua filha, Hyo-jin (interpretada por Kim Hwan-hee, de Born to sing) começa a adoecer, Jong-Gol se vê obrigado a largar toda ingenuidade e agir de modo radical. A mudança é total, o alívio cômico quase desaparece, mas de forma convincente, gerando empatia total pelo sofrimento do pai. 

Isto se deve principalmente à qualidade da interpretação de Kwak Do-Won. Mas não é ele o ator que rouba a cena. Kim Hwan-hee, com apenas 14 anos, interpreta uma filha que está saindo da infância, que consegue por vezes ser mais madura e equilibrada que seu pai. Também interpreta uma criança em completo pânico e sofrimento e, em algumas cenas, interpreta um verdadeiro monstro. O cinema coreano tem me surpreendido muito com suas atrizes infantis.
A mulher sem nome e o estranho japonês estão entre os personagens mais inumanos e estranhos que já vi no cinema, e Jun Kunimura (do excelente e perturbador Audition, e também de Kill Bill volume 2) é matéria para pesadelos. Detestaria encontrar com ele na rua, à noite.

O filme adota uma paleta de cores frias, a chuva, a lama e o sangue coagulado misturado, os corpos apodrecidos, etc, são uma constante. A atmosfera visual é opressiva, com destaque especial para a casa do estranho japonês, uma das casas mais assustadoras que já vi no cinema. 

Cabe destacar duas cenas que devem, ao meu ver, entrar para a história do cinema. O ritual de exorcismo é uma das cenas mais nervosas e assustadoras que já vi. A linguagem de câmera frenética, alternando entre os três ambientes, a sonoplastia sufocante dos tambores e gritos, a inserção visual da feitiçaria e seus efeitos me deixaram literalmente com a respiração suspensa, e completamente paralisado.
E o final (sem spoilers, não se preocupe) consegue enveredar em uma sucessão de reviravoltas que te deixa completamente sem chão e referência, e torcendo desesperadamente para o policial tomar a decisão certa, mesmo sem você ter a menor idéia de qual seria ela.
É um dos três melhores filmes de 2016, junto com A Bruxa e Deserto, e por isto merece nota máxima, com louvor. Um jovem clássico, que corre o risco de permanecer desconhecido no Brasil.
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