WESTWORLD (1.1): THE ORIGINAL – SÉRIES E TV
ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS DO PRIMEIRO EPISÓDIO DE WESTWORLD.

Leia a fica técnica aqui

 


Nota do Razão de Aspecto: 
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Finalmente, após meses de espera, estreou a série Westworld, baseada no livro de Michael Crichton, que já gerara uma adaptação cinematográfica (cuja crítica pode ser lida aqui). Considerada, mesmo antes de seu lançamento, como “a nova grande série da HBO”, como uma série para rivalizar com Game of Thrones no coração dos fãs, Westworld gerava um misto de expectativa e preparo para frustração.
Também pudera. Criada por uma parceria estelar entre J.J.Abrams e Jonathan Nolan (Lisa Joy Nolan, esposa de Jonathan, completa o trio de roteiristas), produzida pela HBO e recheada de nomes de peso no elenco (Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, James Mardsen, Ed Harris, Thandie Newton, Jeffrey Wright e, por que não, nosso Rodrigo Santoro), tudo levava a crer que teríamos um excelente resultado.

Fala com o J.J. e o Nolan…
A melhor palavra para definir o primeiro episódio (“The original”) é PROMISSOR. Ainda não é possível fazer grandes análises, mas a impressão que ficou foi muito boa.
Para quem sabe pouco sobre a série/o livro/o filme, a trama se concentra em um parque de diversões para adultos, que oferece a seus visitantes uma experiência de imersão total em um cenário do Velho Oeste. Quem interage com os turistas são robôs super tecnológicos, que convencem perfeitamente como humanos, e tem um grau avançado de inteligência artificial, capaz de se adaptar a diferenças de reação dos interlocutores. Como regra básica, ecoando Isaac Asimov, os robôs não podem ferir os humanos. Em compensação, muitos visitantes aproveitam as férias no parque para se libertar de amarras morais, e cometem atos de violência contra e sexo (consentido ou não) com os robôs do lugar.


Ao final do dia, os robôs avariados voltam para reparos em um laboratório sob a responsabilidade de Bernard Lowe (Wright). As memórias são apagadas e ajustes feitos, para que se comece o ciclo do dia seguinte. O grande criador da tecnologia e mentor da ideia do Westworld é o Dr.Robert Ford (Hopkins). Ainda no nível da “realidade”, há Theresa Cullen (a dinamarquesa Sidse Babett Knudsen), que coordena a parte empresarial e administrativa do parque, Elsie Hughes (Shannon Woodward), que cuida de avaliação comportamental dos robôs, e Lee Sizemore (Simon Quarterman), responsável por criar narrativas interessantes para a interação dos visitantes com o cenário e os personagens do Velho Oeste.


Entre esses personagens, destaque absoluto para Dolores Abernathy (Even Rachel Wood), robô programa da para agir como uma jovem ingênua e otimista. Teddy (James Mardsen), um cowboy “do bem”, Maeve (Thandie Newton), uma prostituta, Clementine (Angela Sarafayan) e Hector Escaton (Rodrigo Santoro), um temido ladrão, interpretam os outros principais papéis interpretados por robôs. Por fim, há “O homem de negro”, personagem misterioso em passado e em objetivos, muito bem conduzido por Ed Harris. 

Tudo segue bem em Westworld até que “falhas” e comportamentos estranhos, destoantes das programações esperadas, começam a acontecer. O mais grave acontece com o robô que interpreta Peter Abernathy (Louis Herthum), pai de Dolores, na trama do parque. Após encontrar uma foto de uma turista em uma cidade grande de fora de Westworld, o robô passa a “travar” e a apresentar um comportamento errático, o que acaba fazendo com que ele seja desativado e colocado em um enorme depósito de robôs com defeito (que, sem dúvida, parece antever uma grande reviravolta mais para frente na série, quando esses esquecidos recobrarem a consciência).
 

Em termos de produção, tudo é de alto nível. A abertura que evoca a artificialidade material com paixão, sexo e arte é belíssima e com uma trilha sonora adequada, ainda que não tão assobiável. A fotografia e do design de produção são bem cuidados, e contrastam a aridez do Velho Oeste artifical com a assepsia do laboratório. 

Os personagens são carismáticos. Enquanto Ford e seu pupilo Lowe são fascinados com a questão da inteligência artificial e do aperfeiçoamento cada mais maior de suas criações, Hughes e Sizemore estão mais preocupados com questões práticas, como os custos e o sucesso do parque.  Quanto a Harris e seu Homem de Preto, fica claro que ele será um dos principais antagonistas na trama, e, embora o visual evoque o de Yul Brynner no filme, o personagem é claramente muito mais complexo do que um robô enlouquecido que se torna assassino. Dolores será um personagem de enorme importância na trama, e isso fica mais claro ainda quando o primeiro episódio abre e termina com uma cena sua, e quando é revelado que ela – embora absolutamente avançada – é a mais antiga (daí o título do episódio) robô de Westworld. 

 

A rotina do parque, em que o mesmo dia se repete, meio que em looping com pequenas diferenças, pode funcionar como uma excelente ferramenta de narrativa, mas pode confundir alguns espectadores. Além disso, o primeiro episódio poderia ser um pouquinho mais enxuto em termos de tempo. Uma escolha bastante cool, mas que causou sentimentos ambíguos, foi o uso de clássicos do rock como “Paint it black” e “Black Hole Sun”, em arranjos que evocam trilhas de filmes de faroeste: ao mesmo tempo que diverte reconhecê-las, causa um breve “desligamento” da imersão na história.  


Ao contrário do filme de 1973, a série aparentemente será focada menos nos visitantes e seus desafios contra um parque com defeito e mais na discussão sobre os limites do que é realidade, do que é vida e consciência. Esse é um tema já bastante visitado no cinema. Sem pensar muito, Blade Runner (1982), Inteligência Artificial (2001), Eu, robô (2004) e Ex Machina (2015) já discutiram o assunto. É preciso saber o que Abrams e os Nolan terão para acrescentar a um dos assuntos mais fascinantes de nosso tempo.
por D.G.Ducci
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