Festa da Salsicha (Sausage Party, 2016) – crítica

Festa da Salsicha tem momentos de profunda idiotice e de alguma genialidade.

Gênero: Animação/Comédia
Direção: Conrad Vernon, Greg Tiernan
Roteiro: Ariel Shaffir, Evan Goldberg, Kyle Hunter, Seth Rogen
Elenco: Alistair Abell, Bill Hader, Brian Dobson, David Krumholtz, Edward Norton, Ian Hanlin, Ian James Corlett, Iris Apatow, James Franco, Jonah Hill, Kristen Wiig, Maryke Hendrikse, Michael Cera, Michael Daingerfield, Michael Dobson, Paul Rudd, Salma Hayek, Seth Rogen, Sugar Lyn Beard
Produção: Conrad Vernon, Evan Goldberg, Megan Ellison, Seth Rogen
Montador: Ellery Van Dooyeweert, Kevin Pavlovic
Trilha Sonora: Christopher Lennertz
Duração: 83 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 06/10/2016 (Brasil)
Distribuidora: Sony
Estúdio: Annapurna Pictures / Nitrogen Studios Canada / Point Grey Pictures / Sony Pictures Entertainment (SPE)
Classificação: 16 anos

Sinopse: Frank é uma salsicha que tenta descobrir uma terrível verdade: os humanos não são deuses, mas sim devoradores de alimentos. Será que os demais produtos do mercado irão se convencer que não existe um paraíso fora daquele estabelecimento e se revoltarão contra essa terrível opressão ou a manter a crença é mais confortável?

                                Nota do Razão de Aspecto:
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Já parou para refletir sobre os sentimentos e anseios dos produtos do mercado? Provavelmente não, né? Eu sei que vocês são insensíveis… Talvez com Festa da Salsicha isso mude. O longa animado é uma peculiar mistura de Toy Story e Zootopia com American Pie, Cheech & Chong e Todo Mundo em Pânico. Essa orgia cinematográfica dá certo? Em partes… Há um subtexto (anti)religioso que funciona. Mas a primeira confusão se dá na censura do filme. As piadas parecem feitas por um adolescente de 12 anos que acabou de descobrir palavras de cunho sexual, ao mesmo tempo há uma explicitação sexual cara à trupe de Seth Rogen, tanto que a recomendação é para maiores de 16 anos.

A história aqui é calcada na crença dos produtos – notadamente alimentos – que comemoram a ida para a terra prometida, o grande além, ou seja, serem chamados pelos deuses para deixarem as prateleiras. O que eles não esperam é que os ditos deuses somos nós os humanos, as feras que se alimentam torturando aqueles pobres coitados.
O filme se divide, portanto, em duas partes indissociáveis: a busca pelo paraíso e hormônios, muitos hormônios – ah, e palavrões, também muitos palavrões. A primeira temática se assemelha a um filme da Pixar, e beira a genialidade. Os cenários, ações e personagens tem empatia e carisma. Discussões morais que podem causar sinceras reflexões são postas em tela. Já a outra parte é apenas um sequência de palavrões gratuitos, insinuações (indo bem além disso) de penetração e sexo oral e uso de drogas. Ou seja, além do aviso “esta não é uma animação para crianças”, escrito no cartaz do filme, vale a dica de que se você não é afeito a piadas que podem decorrer de uma bisnaga em formato de vagina, então talvez este filme não seja a melhor opção em cartaz.
Se por um lado temos piada com tudo –  esbarrando em um Deadpool aqui e tropeçando em um South Park acolá, boa parte delas não funciona para o público cuja censura foi estipulada. A maioria é corajosa pelo tema (ainda mais considerando o público conservador e por frisar com alguma constância símbolos americanos, como a bandeira e o 4 de julho), porém fraca na execução. O signo mais óbvio, claro, é o do protagonista, uma salsicha. Vemos o dito cujo pendurado na altura da cintura tal qual um pênis, fazendo movimentos que simulam o vai e vem sexual e todo tipo de gracejo com o formato fálico.
Já o ritmo do filme é preciso nas transições entre os cenários e micro narrativas – praticamente todas bem confluentes com a principal. Tem um mini arco que atende mais às questões de diversidade de gênero que propriamente um fim narrativo, mas não chega a minar a coesão do texto. A sacada, simples, porém eficaz, de mudar a fotografia para representar o mundo dos homens e dos alimentos foi bem-vinda. Já os musicais inseridos em alguns momentos (inclusive na abertura) estão ali mais como uma paródia do que como algo de valor. Não consegui esboçar um riso naquelas partes.
Muita suspensão de descrença (para além dos alimentos falarem. E quem disse que eles não falam?), principalmente no arco final. Parece que os roteiristas cansaram. Quando o filme está mais concentrado só com os exóticos personagens principais a coisa toda tem mais sentido e ajuda na imersão. A virada era, talvez, necessária, todavia ocorreu de forma abrupta e ilógica. Pensando um pouco os acontecimentos ali eram improváveis… e o longa não entra naquela categoria obscura de “filmes para desligar o cérebro”, já que há uma proposta pensante. Essa esquizofrenia incomoda. 
Dessa forma, o ponto mais fraco é a sensação de ideia desperdiçada. O filme cumpre a proposta dos criadores – e os fãs da turma Seth Rogen (tenham Vizinhos como termômetro) vão se deliciar. Mas o que poderia ser um novo Toy Story acaba caindo para um combo de masturbação e apologia juvenil às drogas. Dois Caras Legais é muito melhor realizado neste sentido – apesar de lá o politicamente incorreto também estar presente o tempo inteiro, nunca fica a sensação de nulidade como em Festa da Salsicha.

E caso não tenha ficado claro, tal como Ted não é sequência de Ursinhos Carinhos e Cinquenta Tons de Cinza não é uma ferramenta pedagógica, talvez Festa da Salsicha não seja a melhor opção para levar a criançada (prefira Meu Amigo, o Dragão, se bem que este tem um apelo nostálgico que talvez as crianças não apreciem)… Festa na Salsicha pode ofender os mais carolas, mas não ofende (tanto) quem quer ver um bom filme. 

por Lucas Albuquerque

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