49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO – Dia 7

O último dia da Mostra Competitiva do festival de Brasília encerrou o evento com chave de ouro.
Na Mostra “Cinema Agora!” tivemos os filmes “Recado pro mundão” (que o Razão de Aspecto não pode conferir por limitações de pessoal),  “Eles vieram e roubaram sua alma”, e “Os pássaros estão distraídos”. Tivemos também a sessão especial de Beduíno.
Na mostra competitiva, foram exibidos o curta-metragem “Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos” e o longa “Deserto”, aplaudido de pé por todos do Razão de Aspecto.
Segue uma breve análise de todos os filmes que o Razão de Aspecto conseguiu assistir neste dia.

ELES VIERAM E BUSCARAM SUA ALMA

Um jovem com uma câmera VHS na mão e uma idéia difusa na cabeça tenta ordenar sua vida e ao mesmo tempo realizar um filme com a ajuda de seus amigos.
Aniello Greco:

Fazer um filme é com certeza um dos temas cinematográficos mais abordados. Um filme metalingúistico, que fala sobre fazer filmes, é algo meio clichê, mas ao mesmo tempo um tema com potencial. “Eles vieram e buscaram sua alma” aborda o tema sob a ótica de um jovem que ainda está em busca de sua voz como diretor, que ainda não se encontrou nem como artista nem como ser humano. O uso da mudança da Razão de Aspecto entre widescreen e 4:3 e a mudança de resolução de imagem e som marca muito bem quando estamos no filme dentro do filme, e quando estamos na narrativa principal. O personagem central é bem trabalhado, um jovem um tanto “emo”, e a trilha colabora e muito neste sentido. As cenas de paisagens urbanas de Porto Alegre são muito bonitas, e as cenas de frustração amorosa são tocantes. Mas o filme peca na edição de som, os personagens coadjuvantes são superficiais, e não há um avanço no conflito do personagem central, que termina no mesmo ponto onde começa. Nota: 3/5

OS PÁSSAROS ESTÃO DISTRAÍDOS


José Mauro, um senhor de terceira idade com alguns problemas advindos da idade, está nervoso com a necessidade de mudar de casa. Hilda tenta lhe auxiliar na mudança, e juntos encaixotam móveis e objetos que representam décadas de vida.
Aniello Greco:

O filme é bem realista, isto é inegável. Os diálogos entre Jose Mauro e Hilda, e destes com os demais personagens, seguem a falta de ritmo, o excesso de repetições, o ruído de comunicação, o excesso de linguagem enfática, etc, típicos de conversas cotidianas de pessoas de terceira idade.  Isto poderia ser um mérito, mas se torna um defeito por tornar os diálogos enfadonhos e irritantes, e dificultam ao espectador fixar sua atenção a tela. O tom de voz de José Mauro é especialmente sonífero. Há um esforço em usar do apartamento como espaço narrativo, e a câmera gira pelos móveis e objetos a exaustão. A trilha sonora destoa muitas vezes do que está sendo narrado, sendo cómica em cenas tristes, movimentada na lentidão, etc. Uma coleção de boas intenções, e execução questionável. Não sei quanto aos pássaros, mas este crítico teve que se esforçar para não ficar distraído. Nota: 2/5

BEDUÍNO

Uma colagem de várias cenas entre o real, o encenado e o surreal envolvendo um casal que vive a arte em seu relacionamento.
Aniello Greco:

Um típico filme de Júlio Bressane. Teatral, alegórico, repleto de metáforas, com figurinos, cenários e diálogos normalmente encontrados em palcos de teatro e não em frente a câmeras de cinema. Alessandra Negrini e Fernando Eiras estão excepcionais em suas interpretações. O excesso de teatralidade e a obviedade de algumas metáforas no entanto frustam um pouco e se tornam cansativas. Mas o impacto visual e dramático sustentam o filme. Não vai agradar a qualquer público, mas para quem gosta do estilo, é uma ótima experiência. Nota: 3,5/5

OS CUIDADOS QUE SE TEM COM O CUIDADO QUE OS OUTROS DEVEM TER CONSIGO MESMOS

Um filme sobre a superação da tristeza e do luto, sobre a importância do apoio do próximo, e da entrega a seus sentimentos.
Aniello Greco:

O título do filme é maior que o filme, em vários sentidos, em especial o título sugere uma sutileza temática que não aparece no filme. A depressão é exposta em neon, a união gerada pela exclusão comum a todos os personagens é gritada, a inclusão do mundo pessoal dos personagens no contexto atual é forçada garganta abaixo. Por outro lado, a trilha sonora, o timing, a apresentação e construção dos personagens é excelente. A catarse final convence, apesar de todos os desequilíbrios narrativos. Nota: 3,5/5


D.G.Ducci


O curta se passa dentro de um apartamento, e faz colagem de várias cenas que mostram como os quatro personagens interagem e se preocupam uns com os outros. Bem intencionado, mas um pouco pretencioso. Nada demais. Nota 2,5/5 

Lucas Albuquerque


O comprimento do título não condiz com a grandeza do filme. Há respeito à diversidade, mas falta viço em torno da mera representação em tela. Falta sutileza no arco de um personagem. O clímax é antevisto e o ator também não ajuda no ápice dramático. Esse mesmo personagem, contudo, demonstra uma divertida autoconsciência. Tal como o titulo prolongado, o curta não sabe a hora de acabar. Nota: 2/5


Maurício Costa


Um filme sensível sobre a exclusão, a amizade, a convivência, as dificuldades de expressar sentimentos. Tem uma estrutura narrativa simples, mas bem executada. Em alguns trecho, é comovente. Nota 3,5/5

DESERTO

Uma trupe de artistas itinerantes em decadência vagam por um país deserto em busca de um público para se apresentar. Ao encontrar um vilarejo abandonado, precisam decidir se continuam migrando ou assumem para si a vila. E passam a enfrentar o desafio de que papel representar quando o público do espetáculo se tornam eles mesmos.
Aniello Greco:

O último filme da mostra competitiva e a obra prima do festival. Um filme quase irretocável, com excelente fotografia, ótimas interpretações, maquiagem e figurinos excepcionais, interpretações inspiradas e diálogos maravilhosos. E isto tudo formando um conjunto que nos fala da estrutura da sociedade brasileira, das injustiças que aceitamos, dos papéis que não questionamos, da insanidade do cotidiano. Um exemplo de realismo fantástico no cinema, que consegue nos falar mais da realidade que nossos próprios espelhos. Nota: 6/5


D.G.Ducci.
Obra-prima. Leia a crítica completa aqui. Nota 5/5, com gostinho de 6. 

Lucas Albuquerque

Não tarda para reconhecermos que estamos diante de uma obra prima. A prima obra do diretor Guilherme Weber é um jovem clássico. Uma cruel, divertida e rica metáfora da nossa sociedade, análogo ao que vimos em o Auto da Compadecida. Atuações que carregam um necessário peso dramático. Fotografia capaz de narrar o filme a partir do jogo de luz e sombras. Direção que faz a câmera sumir e dá voz àquelas personas. Em síntese: a otimização do clichê “A vida imita a arte E a arte imita a vida”. Nota 5/5 (com louvor).


Maurício Costa


Imagine uma adaptação de “O Auto da Compadecida” dirigida por Lars Von Trier. Este é “Deserto”, filme de estreia do ator Guilherme Weber como diretor. Tudo no filme é tecnicamente primoroso: atuações, fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem, roteiro e direção. Sem nenhuma sombra de dúvidas, o melhor filmes deste festival, um dos melhores filme do ano, um dos melhores filmes brasileiros do século XXI. Queria eu poder dar mais que a nota máxima. “Deserto” quebrou o contador do Razão de Aspecto, no melhor estilo “Gangnan Style”. Nota 5/5

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