49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO – Dia 6

O sexto dia do festival foi um dia especial para nós, do Razão de Aspecto, devido a exibição do “#Era dos Gigantes”, dirigido pelo nosso cofundador Maurício Costa.

Além do “#Era dos Gigantes”, a Mostra Brasília contou com os curtas “O luto”, “A festa dos encantados” e “Rosinha”, bem como com os longas “Catadores de História” e “Cora Coralina – Todas as vidas”. 
Na mostra competitiva tivemos os curtas “Confidente”, “Procura-se Irenice”, “Bodas de Papel” e “Demônia – Melodrama em 3 atos”, e os longas “Vinte anos” e “Malícia”. Foi um longo dia, de muito cinema.

Segue uma breve análise de todos os filmes do dia:

O LUTO

O filme de João Gabriel Caffarelli e Saulo Santos é um curtíssima metragem, de 2 minutos, sobre reações emocionais de perda e separação.

Aniello Greco:

É um dos vários filmes que considero fora do lugar no Festival de Brasília. Funcionaria como um concorrente de festivais estilo o “Festival do minuto”, ou como uma esquete do Youtube, mas não é propriamente um curta metragem. A peripécia no final da narração funciona e surpreende, mas a trilha sonora é inadequada, e falta conteúdo para ser um filme de festival. Nota: 2/5


Lucas Albuquerque:

Curtíssimo, bobo e deslocado do festival. Se fosse uma esquete no youtube talvez eu risse. Nota: sem nota. 


Maurício Costa


Trata-se de um filme despretensioso, engraçado e inteligente. A montagem é particularmente interessante. Nota: 3,5/5





#ERA DOS GIGANTES

Documentário que retrata a política externa dos dois mandatos do Presidente Lula, contrastando o depoimento dos principais personagens envolvidos, analistas políticos e opiniões coletadas em redes sociais.

D.G. Ducci:


Veja a crítica completa aqui. Nota 4/5.

Lucas Albuquerque:


Traz um tema sisudo em um documentário longo. Poderia dar errado, mas dá muito certo. A montagem confere um dinamismo aos depoimentos e os entrevistados falam de modo a acrescentar na temática e provocar reflexões. Há alguns bons alívios cômicos involuntários (ou nem tanto), mas o predomínio mesmo é a informação e o debate. A sacada da linguagem utilizar redes sociais e o youtube para servir de plano de fundo também funcionou. Um certo problema na narração, excesso de didatismo, e a falta de mais entrevistados incisivos tiram ponto do filme. Mas no cômputo geral é uma peça para ser usada e referenciada. NOTA: 4/5

A FESTA DOS ENCANTADOS

Uma animação que retrata uma das histórias tradicionais dos índios Guajajara, relatando como um antigo pajé desceu ao mundo subterrâneo para resgatar seu irmão perdido e retornou com o conhecimento dos encantados.

Aniello Greco:

É uma animação pueril, no bom e no mal sentido. História que tem a ingenuidade típica de histórias folclóricas, retratada de forma juvenil, com uma animação simplista, e um final com apelo emocional um tanto estranho para quem não é um índio Guajajara. Merece o respeito como divulgação cultural indígena, mas como filme peca pelo simplismo excessivo. Nota: 2/5


Lucas Albuquerque:


Uma animação bem infantilizada, com uma narrativa simples e um visual ainda mais simplório. Esquecível e fraco tecnicamente. Uma crônica indígena apresentada sem imaginação e apuro cinematográfico. NOTA: 1,5/5



CATADORES DE HISTÓRIA

Documentário que retrata o cotidiano de catadores de materiais recicláveis e a luta para o reconhecimento da categoria profissional, sua importância e seus direitos.

Aniello Greco:

O filme aborda um tema de importância social enorme, e funciona no sentido de alertar que este é um assunto esquecido, ignorado. Mas a importância do tema é o único mérito do documentário. A linguagem é excessivamente institucional e autorreferente, e creio que funcione para catadores que ainda não se organizaram buscarem as organizações que defendem a categoria. Para o público geral, é uma enfadonha repetição de discursos similares, vindas de cooperativas que não sabemos diferenciar umas das outras, pontuadas aqui e ali por breves momentos de relatos pessoais que causam algum impacto. O tema merecia uma abordagem mais estruturada e voltada ao público que não está engajado na questão. Nota: 1/5


Lucas Albuquerque:


O pior documentário que eu já vi. Apelo à emoção, vitimismo, não acrescenta nada de novo e parece um panfleto ideológico. Em um dado momento, no final do filme, o cinema dá lugar a uma espécie de vídeo institucional. Há um depoimento que é muito bom, apenas um. Não nos importamos com os personagens e os discursos ficam redundantes. NOTA 1/5 (pior filme visto no festival)

ROSINHA

Curta metragem que conta a história de um triângulo amoroso que floresce no fim da vida.
Aniello Greco:

Um filme muito sensível e belo, que gera um impacto emocional inegável no público. Os personagens são envolventes, a trilha sonora é cativante, e a sensibilidade do diretor em abordar o amor e a sexualidade na terceira idade é impressionante. Cabe especial destaque a atriz Maria Alice Vergueiro. Impecável. Nota: 5/5

Maurício Costa


Trata-se de um dos melhores curtas de todo o Festival. Roteiro, direção e atuação convergem em um narrativa sutil, sensível e nostálgica sobre o amor, a morte e a perda. E como muito bom humor. Nota: 5/5

Lucas Albuquerque:


Uma delícia. Leve, divertido e retrata o amor de uma maneira genuína. Estabelece os laços entre os personagens e entre eles e o público em poucas cenas. Maria Alice Vergueiro dá um show no protagonismo. A terceira idade muito bem representada por três ótimas figuras. Uma aula de roteiro. Dá vontade de ver, rever e rever.. dificilmente alguém não vai se encantar. NOTA: 4,5/5

CORA CORALINA – TODAS AS VIDAS


Documentário encenado sobre a vida da poeta Cora Coralina, da infância até o fim de sua vida, com depoimentos de familiares e escritores, bem como a participação de grandes atrizes do cinema brasileiro.

Aniello Greco:

Meu favorito para melhor filme na Mostra Brasília. O documentário emociona profundamente mesmo aqueles que não são aficcionados por poesia, como eu. A alternância entre as encenações, as declamações dos poemas e os depoimentos foi feita com primazia. A trilha é singela, a fotografia belíssima, e o elenco é de qualidade inquestionável. Melhor filme nacional que assisti este ano. Um filme que me faz querer dar uma nota acima do máximo. Nota 5/5




Lucas Albuquerque:


Aplaudi de pé, algo que eu nunca tinha feito antes no festival. Obra prima em todos os aspectos. O filme sabe explorar o potencial da personagem e otimiza ainda mais tal elemento. Desde uma fotografia variada e belíssima, passando por uma trilha emocionante sem ser piegas ou melodramática, até atuações viscerais e totalmente carregadas de um peso dramático forte. O lado documental traz informações relevantes e o lado encenado ilustra bem cada fase da vida daquela mulher. Melhor filme da Mostra Brasília. Melhor filme do Festival como um todo. Melhor filme brasileiro que eu vi em 2016. NOTA: 5/5

CONFIDENTE

Curta de cinema experimental, uma metáfora sobre a rotina, a repetição, e a destruição da individualidade.
Aniello Greco:

Cinema experimental não é algo simples de se fazer, e a separação entre uma obra prima e um desastre pode estar em poucos detalhes. Neste caso o filme me pareceu desastroso. Nos primeiros segundos de filme já entendemos a proposta, mas ela não evolui, apenas sobe de volume. O filme realmente causa incômodo, como pretendido, mas não um incômodo do tipo reflexivo, e sim um incômodo pelo cansaço e pela hiperestimulação pura e simples de cenas e sons repetitivos, capazes de gerar ataques epiléticos a quem é propenso, como bem alertou o diretor antes da exibição. Simplesmente desagradável. Nota: 1/5

Maurício Costa:


“Confidente” é um filme experimental, talvez demais para o público do festival. A linguagem visual procura reproduzir a lógica da rotina e da repetição, mas, em vez de instigar, o filme deixa o público irritado. Tem algum valor pela experimentação de linguagem. Nota: 2/5

Lucas Albuquerque:


Tenta explorar uma linguagem experimental, mas acaba pedante e enfadonho. O valor técnico zera o valor de entretenimento. Pode causar epilepsia, como o diretor avisou, mas até em não epiléticos (adendo meu). Sucessão de imagens vazias em uma repetição cansativa. Nem tudo que é original é bom. Às vezes é regular, às vezes é ruim, às vezes é muito ruim…e às vezes é Confidente. NOTA: 1/5



PROCURA-SE IRENICE

Documentário que conta a história de uma atleta olímpica brasileira que a Ditadura Militar tentou silenciar e apagar da história.

Aniello Greco:

O forte deste curta-metragem está no seu tema. A história de uma personagem que tentaram apagar da história é não só importante como interessantíssima. Não é apenas um caso de censura política, mas também de racismo e sexismo, e isto ligado a algo que deveria ser símbolo da integração entre povos e raças: as Olimpíadas. A escolha da imagem em preto-e-branco, a qualidade dos depoimentos, e as encenações breves e alegóricas da atriz que representa a atleta dão um tom especial de encantamento e revolta. Impecável. Nota: 5/5




Lucas Albuquerque:


Um belo exemplo de documentário-denuncia. Pega uma personagem esquecida – que a ditadura apagou – e coloca em relevo. A escolha dos depoimentos de pessoas da época e de mostrar como foi feito o processo de pesquisa se mostrou acertada. Um dos melhores curtas da mostra competitiva e corre por fora na disputa do grande prêmio (já que Quando os Dias Eram Eternos ainda é o favorito), mas entregou um material poderoso e marcante. NOTA: 5/5




Maurício Costa:


Realizar um documentário de curta metragem é desafiador, afinal de contas, é preciso apresentar o personagem (no caso de um documentário biográfico, como “Procura-se Irenice”), desenvolver a fechar o arco narrativo. O filme é bem sucedido em todos os quesitos, se mostra relevante no tema e competente na execução, especialmente na montagem. Nota: 5/5

VINTE ANOS

Documentário que retrata a vida de três casais cubanos ao longo de 20 anos, e como as transformações em Cuba com a queda da União Soviética e posteriormente a retomada de relações com os Estados Unidos transformaram a vida cotidiana na ilha. 

Aniello Greco:

A primeira pergunta inevitável é “o que um filme sobre Cuba faz no Festival de Brasília?”. Não é exatamente uma temática que se encaixa no festival. O filme começa bem, com um ritmo interessante, e nos interessamos pelos personagens e suas histórias, em um mundo tão distinto do nosso. Mas a medida que o filme começa a abordar a geração dos filhos e as mudanças em Cuba, o ritmo se perde, e a narrativa começa a ficar arrastada. O excesso de personagens e a montagem e edição truncada e desconexa faz com que percamos o interesse. Faltou uma estrutura narrativa, ou no mínimo temática, para costurar o bom material coletado em um todo conexo. Nota: 2,5/5


Maurício Costa


Concordo com todos os pontos colocados por Aniello Grecco, mas tive uma experiência melhor com o filme. Nota: 3/5

BODAS DE PAPEL

Uma entrega de pizza que se transforma em um conflito sobre quem irá comer o que.

Aniello Greco:

Este é um filme que eu queria gostar. Bem encenado, bem montado, e com final inteligente. O título faz parte da narrativa, o que é interessante. Mas a cena central é violenta, agressiva, quase pornográfica e glorifica e humoriza o que eu não consigo glorificar. O tema do estupro é complicado de abordar. Talvez eu simplesmente não seja o público alvo do filme. Tecnicamente bom, tematicamente desagradável. Nota 3/5

DEMÔNIA – MELODRAMA EM 3 ATOS

Um conflito amoroso, infidelidade, homossexualidade, religiosidade, e como a internet lida com tudo isto. 

Aniello Greco:

Dividir um curta em três atos não é simples, mas em Demônia gerou um crescendo humorístico maravilhoso, partindo do exótico para o surreal. Leva o público a gargalhadas, graças a um excelente roteiro, boas interpretações e temática moderna. Humor de primeira classe. Nota: 5/5

MALÍCIA

Dono de restaurante tem um processo judicial grave, e tenta escapar da dívida via propina. Uma jovem tresloucada e em depressão está em uma grave crise familiar, e precisa de dinheiro. E no meio disto tudo, um voyeur que hackeou os computadores dos envolvidos. 

Aniello Greco:

Mais um filme que não sei muito bem o que está fazendo no Festival de Brasília. O filme se passa na capital, e tem como um dos temas uma propina judicial, mas são dois elementos quase acidentais na trama, que é muito mais centrada nos relacionamentos familiares e amorosos. Deixando isto a parte, é um bom filme, com excelente elenco, uma trama complexa e intrigante, e uma excelente solução final. Peca um pouco devido a alguns clichês narrativos, uma fotografia despretensiosa e burocrática, e a superficialidade de alguns personagens. Mas ainda assim um bom filme. Nota 4/5

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