49o FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO – DIA 3
No terceiro dia de Festival, foi exibido, em sessão especial hors concours, o documentário “A destruição de Bernardet”, com direção de Claudia Priscilla e Pedro Marques (ficha completa aqui). Na sequência,  o segundo dia da Mostra Competitiva assistiu a “Martírio”, documentário de Vincent Carelli sobre os índios Guarani  Kaiowá. 
A DESTRUIÇÃO DE BERNARDET

Tendo realizado recentemente sua estreia mundial no prestigioso Festival de Locarno, ‘A destruição de Bernardet’, teve sua primeira exibição brasileira em Brasília. O filme propõe uma biografia pouco convencional de Jean-Claude Bernardet, um dos mais importantes nomes do ambiente cinematográfico brasileiro, professor, ensaísta e crítico de cinema que decidiu, aos 70 anos de idade, largar tudo para se tornar ator. Os realizadores propõem um jogo em que Jean-Claude encena passagens ficcionais e conversa com pessoas essenciais na sua trajetória, sobre a qual reflete de maneira muitas vezes irônica.
D.G. Ducci: 
Assim como seu personagem principal, o documentário é ousado, estranho, inteligente e irônico. Para destruir/desconstruir Bernardet, os realizadores fazem uma espécie de hagiografia ao contrário: ao sugerir um crítico/escritor/ator em fase de decadência física – com direito a cenas de exames laparoscópicos, para que literalmente o espectador conheça o biografado por dentro -, e de personalidade difícil, o filme serve como veículo (numa cumplicidade total entre roteiro, direção e biografado) de uma “autoficção”, chave para entender a obra, e entregue pelo próprio Bernardet numa das cenas em que entrevista si próprio. Algumas metáforas – como a da exploração na mata e a das borboletas – são meio óbvias demais, e o fascínio dos realizadores pelo tema impediram alguns cortes que deixariam o filme mais enxuto. Para quem gosta de discutir a arte da narrativa e os limites entre realidade e ficção, é um prato cheio. Nota 4/5


MARTÍRIO

Documentário sobre as tentativas de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá por meio de filmagens de Vincent Carelli – tanto da década de 1980, quando registrou o nascedouro do movimento – até a década atual. Tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio, um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio.
Indigenista, Vincent Carelli iniciou, em 2009, uma trilogia de documentários que trazem seu testemunho de casos emblemáticos vividos em 40 anos de indigenismo no Brasil: naquela ano, lança “Corumbiara”, sobre o massacre de índios isolados em Rondônia; “Martírio” é o segundo filme, e a série se encerrará com a realização de “Adeus, Capitão”, trabalho em fase de desenvolvimento.  


D.G. Ducci: 

Se a análise da obra se resumisse a seu conteúdo, a nota máxima estaria garantida. O tema da questão indígena no Brasil é de uma relevância gigantesca. O problema da obra é que ela tenta fazer coisas demais ao mesmo tempo: apresentar uma revisão sobre as políticas (ou falta de) voltadas para as comunidades indígenas + apresentar uma denúncia da situação recente/atual dos Guarani Kaiowá no embate com fazendeiros + seguir casos pessoais de líderes indígenas + mostrar hábitos e costumes das comunidades, em especial no que diz respeito à força de seus cânticos + chamar atenção para as perversidades da bancada ruralista em sua ação no Congresso Nacional. Essa tentativa de abraçar o mundo gera um documentário muito longo, com depoimentos e argumentações repetitivas, e claras possibilidades de maiores cortes, o que acaba perdendo a força no que poderia ter de melhor, que é a denúncia. Do ponto de vista formal, é bastante conservador, sendo conduzido didaticamente em voice over pelo diretor – o que faz lembrar muito a linguagem televisiva. Nota 3,5/5



Lucas Albuquerque:

Um documentário de quase três horas pode assustar. De fato tornam- se quase inevitáveis barrigas e sugestões de um corte mais enxuto. Contudo, o peso temporal aqui não é tão sentido graças a uma narrativa poderosa e dinâmica conduzida pelo diretor Vincent Carelli. Apesar de faltar uma certa unicidade, o pedido para ele desmembrar a obra poderia soar quase criminoso. Outros méritos notáveis são: o sentido de pertencimento, explorar certos contrastes de uma forma ate bem humorada e uma boa contextualização politico-histórica. Contudo, peca-se muito no maniqueísmo e questões que são complexas viram, simplesmente, quase uma luta de bem x mal. Há um importante debate no plenário da Câmara dos Deputados, que é posto a exaustão e destoado ritmo da narrativa. “Voltar” para o filme depois daquilo foi difícil.  Nota: 3/5.




Maurício Costa

Martírio tem importância inquestionável como registro histórico diacrônico e sincrônico sobre a questão indígena no Brasil. Do ponto de vista documental, a combinação entre pesquisa histórica, as imagens de arquivo e as próprias filmagens realizadas pelo diretor, há 25 anos, formam uma narrativa consistente e coerente. Infelizmente, a clara paixão do diretor pelo tema prejudicou o desenvolvimento do filme, com uma montagem pouco eficiente, por vezes redundante, que acaba enfraquecendo aquele que deveria ser o conteúdo central da narrativa: a denúncia da situação de miséria e de violência a que estão submetidos os Guarani Kaiowá. Ao longo filme, pensei que teria sido mais eficiente realizar uma série documental – e não coloco esse ponto como crítica, mas, sim, como reconhecimento da importância daquele material para o documentário brasileiro. Um longa metragem um pouco mais curto, com foco na denúncia, teria maior efeito, e não excluiria a realização da série documental para aprofundar a discussão. Como ponto forte, Carelli soube como explorar as contradições entre o suposto progressismo do governo Dilma, o tratamento da questão indígena e a aliança com o agronegócio. Nota 3,5/5

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