RIFLE (2016) – CRÍTICA
O crítico Lucas Albuquerque, do Cinem(ação), faz sua primeira participação no Razão de Aspecto com crítica sobre o primeiro longa metragem da mostra competitiva do Festival de Brasília 2016, o filme gaúcho Rifle.
 
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Gênero: Drama
Direção: Davi Pretto
Roteiro: Davi Pretto, Richard Tavares
Elenco: Dione Avila de Oliveira, Evaristo Pimentel Goularte, Andressa Pimentel Goularte, Elizabete Farinha Nogueira, Lívia Nogueira Goularte, Andreize Silva Ribeiro, Sofia Ferreira e Francisco Fabricio Dutra dos Santos
Produção: Paola Wink
Fotografia: Glauco Firpo
Montador: Bruno Carboni
Direção de arte: Richard Tavares
Figurino: Richard Tavares
Música original: Davi Pretto, Marcos Lopes e Tiago Bello
Produtora: Tokyo Filmes
Duração: 85 min.
Ano: 2016
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 21/09/2016 (Exibido no Festival de Brasília)

 

Sinopse: Dione é um jovem misterioso que vive com uma família em uma região rural e remota. A tranquilidade da região é afetada quando um rico fazendeiro tenta comprar a pequena propriedade na qual Dione e a família vivem.
Nota de Lucas Albuquerque:
 
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Rifle abriu a mostra competitiva do 49º Festival de Brasília. O longa evidencia uma realidade crua, mas tem uma execução inconsistente e inconstante.

 

 

O jovem diretor Davi Pretto (28 anos) já tem uma quantidade considerável de curtas e documentários no currículo. Rifle é o segundo longa, o primeiro de ficção. Contudo, a mão documentarista de Pretto ainda é bem sentida aqui. Em alguns momentos, principalmente na primeira metade do filme, a balança tende para esse viés com mais força. Ele deixa a câmera filmando um pouco além, com movimentos delicados ou parada. O uso de alguns não atores dá uma verdade documental na fala e no cotidiano do recorte estabelecido – uma região rural do interior do Rio Grande do Sul. Notadamente, o elenco vivencia aquela realidade e transita com desenvoltura por aquele ambiente.
Uma cena nos primeiros minutos de exibição, juntamente com a sinopse, lembram o que foi visto em Aquarius. O protagonista Dione faz com um cartão o mesmo movimento de Clara no longa de Kleber Mendonça Filho. Até pensei que o filme enveredaria para uma ênfase no confronto da referida cena. Outra boa comparação, dado alguns momentos mais casuais e cotidianos, é com Boi Neon – este com uma linguagem mais universal e palatável. É possível enxergar semelhanças entre os protagonistas, mas Dione é um tanto mais bronco e taciturno. Ele profere poucas palavras, porém, igual a Iremar, no filme de Gabriel Mascaro, tem uma expressão segura e marca presença – méritos também de Dione Avila De Oliveira, o ator que parece, não só pelo nome, interpretar uma história bem familiar e cara.
Apesar de possuir um uso intencional de alívios cômicos involuntários – por sinal funcionando muito bem, como na descrição de umas fotos – a proposta aqui é crua e com um tom mais sóbrio. O “personagem” título tem grande destaque, gerando até alguns jumpscares. Quando o rifle está prestes a disparar, nós sabemos o que vai acontecer e, ainda assim, o susto vem. Interessante notar que o tiro ecoa de forma seca, resultando em uma boa rima sonora para a narrativa.
Mesmo com essas características meritórias em relevo, não podemos nos furtar a realçar os pontos negativos – que, infelizmente, tiveram grande destaque. O diretor tem mais habilidade na condução da câmera do que em contar a história. Talvez um documentário de uma hora pudesse servir para o propósito de forma mais eficaz. Parece que, mesmo dando voz a um Brasil que precisa ter voz e fazendo uma representação fidedigna, franca e suja (uma sujeira boa, realista), falta um corpo narrativo, um direcionamento mais consistente – parte do tempo sentimos um certo vazio na construção dos caracteres.
Uma certa insegurança é evidenciada no excesso de lentidão. Mesmo o filme sendo curto, 85 minutos, a sensação que passa é ter bem mais tempo. Logicamente que, dado o contexto, não esperaríamos cortes rápidos e uma história fluida. A lentidão faz parte do DNA em Rifle. Todavia, em grande parte do filme, tal fator deixa a experiência pouco acessível e pode afastar o grande público. A mensagem, portanto, fica bem comprometida. Especialmente na transição do primeiro para o segundo arco, o longa quase ruiu para mim.
O som também deixa a desejar. Alguns sons ambientes estão bem nítidos e a presença deles é constante. Mas a fala de muitos personagens tem uma difícil apreensão. O sotaque, regionalismos e tom de voz, além do não apuro interpretativo, poderiam ter sido alvo de uma maior preocupação na captação do sonora. Por sorte, a sessão tinha transcrição para deficientes auditivos e confesso que vez ou outra tive que recorrer a esse recurso. Sem ele, a experiência com Rifle seria ainda mais prejudicada.

 

Por uma narrativa com um ritmo um pouco fora do tom, uma história que não consegue se fazer tão interessante quanto ela é, uma direção que precisa trabalhar mais e diálogos inaudíveis, Rifle desperdiça um potencial. Sem dúvidas que Pretto tem talento, e espero ter contato com produções futuras dele. Mas aqui não gerou a empatia desejada.por Lucas Albuquerque

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