49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO – DIA 2
49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO – DIA 2
O segundo dia do Festival de Brasília foi um dia político. Quem foi ao Cine Brasília pôde conferir a “Mostra: A política no mundo e o mundo da Política”.  Na Sessão Especial, tivemos os filmes “Câmara de Espelhos”, de Dea Ferraz, e “Precisamos falar do Assédio”, de Paula Sachetta. Pouco antes da exibição do filme “Precisamos falar do Assédio”, ocorreu um protesto de um grupo de mulheres no foyer do Cine Brasília, com cartazes com palavras de ordem ligadas ao assédio sexual.
Na Mostra Competitiva, tivemos os curta-metragens “Ótimo Amarelo”, de Marcus Curvelo, e “Quando os dias eram eternos”, de Marcus Vinícius Vasconcelos. Marcus Curvelo e Marcus Vinícius ressaltaram a honra de estarem apresentando seus filmes em Brasília, em um momento tão especial para a política brasileira, e Marcus Vinícius fez questão de ressaltar ser brasiliense de nascimento, apesar de viver em São Paulo.
No final da noite,  tivemos o longa-metragem “Rifle”, de Davi Pretto, filme que relata a situação da região agrária do sul do Rio Grande do Sul, sua profunda desigualdade e concentração da posse de terras.
O tom político do dia deixou a platéia um pouco entusiasmada demais, e no início da exibição de “Quando os dias eram eternos” ocorreu um breve “bate-boca” entre alguns dos presentes, um retrato de nosso momento político atual, mas nada que gerasse grandes consequências.
Comentários do Razão de Aspecto:
 
Aniello Jr:
“Precisamos falar de Assédio” é um documentário simples e direto. Colocou-se uma van nas ruas de São Paulo e convidou-se qualquer mulher a prestar seu depoimento de suas histórias de assédio. Não há nenhuma sofisticação cinematográfica no documentário, e, por vezes, a simplicidade incomoda, bem como alguns erros técnicos desnecessários (como um irritante reflexo no óculos de uma das entrevistadas, ou a excessiva repetição do som de fechar a porta da van). Mas o impacto emocional dos depoimentos e as expressões faciais das vítimas são mais que suficientes para gerar o resultado pretendido. Nota 4/5
O curta “Ótimo amarelo” é interessante, em especial na forma escolhida para o protagonista narrar sua história, através de gravações no WhatsApp para seus amigos. Consegue transmitir a idéia de alguém em conflito com seu passado e desconfortável por voltar a sua terra natal. Mas a história não consegue ser cativante o suficiente, faltando algo de sabor a narrativa, tornando-o um pouco desconexo e cansativo. Nota 3/5
“Quando os dias eram eternos” é uma verdadeira obra de arte. É uma animação com um traço sujo, e o áudio acompanha, com respirações ofegantes, rapar de pés, o ruído do lápis sobre o papel, e uma trilha angustiante e depressiva. A ausência de diálogos, os silêncios alternados com momentos de trilha exuberante, a alternância entre claro e escuro, entre narração e alegoria, é de tirar o fôlego. Nota 5/5.
“Rifle” é um longa-metragem pesado. Pesado na temática, pesado na condução. Apesar das limitações claras de orçamento, a fotografia é excelente, com os cenários participando ativamente da narrativa. A sonoplastia é impactante, e a interpretação do protagonista surpreendente, no seu pouco falar e nos seus silêncios. Davi Pretto sabe usar bem da câmera, mas peca na condução da narrativa, não se decidindo como narrar sua história, ora escolhendo realismo, ora alegoria, ora fantasia. Apesar do bom final, e de construir muito bem o clima, falta unidade dramática. Nota 2,5/5.Maurício Costa:

O curta “Ótimo amarelo” tem uma linguagem narrativa original, que se utiliza dos áudios de whatsapp para a expressão do personagem, combinados com as imagens de transformação da paisagem de Salvador. O curta procura criar uma atmosfera de desconforto com base no mal estar do protagonista e no conflito entre suas memórias e a cidade real. Infelizmente, falta peso dramático, e o público tem dificuldades de criar empatia com o personagem. Nota 2,5/5.

O curta de animação “Quando os dias eram eternos” é perfeito e irretocável. Trata-se de um filme poético e sensível sobre o luto, sobre o amor fraternal e sobre os ciclos da vida. O filme é perfeito visual, dramática, técnica e narrativamente. Trata-se da epítome do cinema: sem nenhum diálogo, o filme apenas nos mostra, nos conduz pela jornada nos personagens, nos envolve e nos faz entender e empatizar com os personagens. Forte candidato a melhor curta metragem do Festival. Nota 5/5.

“Rifle” é um filme perturbador e incômodo.  Todas as pessoas com quem conversei depois da sessão expressaram esses mesmos sentimentos. O público terá dificuldades com este filme, embora essas dificuldades não tirem o mérito do trabalho realizado. O filme retrata uma realidade crua e verdadeira de um dos muitos lugares desolados do mundo, neste caso, no sul do Brasil. A premissa é muito semelhante à de Aquarius, em versão rural, sem o glamour da praia e sem a presença de Sônia Braga, e, ao mesmo tempo, é seu oposto: ao contrário do conforto apartamento de Clara, aqui temos desconforto, desolação, falta de recursos. O filme trata do deslocamento social do homem que não se adapta às mudanças e que se sente afetado em sua relação telúrica. O diretor Davi Pretto mostrou domínio completo da linguagem cinematográfica e como superar as limitações de trabalhar com não atores e com baixo orçamento. Trata-se de um filme com o tom e a cara de diversos festivais internacionais importantes. Um filme que, claramente, foi feito para incomodar. E conseguiu. Nota 4,5/5

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