NERVE: UM JOGO SEM REGRAS (NERVE, 2016) – CRÍTICA
 
Gênero: Suspense
Direção: Ariel Schulman, Henry Joost
Roteiro: Jessica Sharzer
Elenco: Arielle Vandenberg, Brian ‘Sene’ Marc, Danielle DeWulf, Dave Franco, Dillon Mathews, Ed Squires, Emily Meade, Emma Roberts, Jonny Beauchamp, Juliette Lewis, Kelsey Lynn Stokes, Kimiko Glenn, Machine Gun Kelly, Marc John Jefferies, Marko Caka, Miles Heizer, Rosemary Howard, Samira Wiley, Toshiko Onizawa
Produção: Allison Shearmur, Anthony Katagas
Fotografia: Michael Simmonds
Montador: Jeff McEvoy, Madeleine Gavin
Trilha Sonora: Rob Simonsen
Duração: 96 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 25/08/2016 (Brasil)
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: Allison Shearmur Productions
Classificação: 12 anos
Sinopse: Uma estudante do Ensino médio se encontra imersa em um jogo de verdade ou desafio, onde seus movimentos começam a ser manipulados por uma comunidade anônima de espectadores.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Nerve é um jogo on line que se define como uma versão de verdade ou consequência, sem a parte da verdade. Os participantes são os seguidores, que propõe desafios, e os jogadores, que aceitam realizar os desafios no mundo real em troca de dinheiro. Ao longo das 24 horas, os jogadores são observados ao vivo, muitas vezes filmados pelos seguidores nas ruas de Nova Iorque.
Nerve tem uma premissa interessante e relativamente bem desenvolvida, mas, acima de tudo, é um filme adolescente. Consequentemente e paradoxalmente, o ponto forte e o ponto fraco do filme são exatamente o mesmo: a clara definição do público alvo. Trata-se do ponto forte, porque a narrativa e a linguagem visual do filme condizem com as características da geração que nasceu na segunda metade dos anos 1990 e cresceu na era da internet e das redes sociais. Ao mesmo tempo, trata-se de ponto fraco, porque mesmo a geração um pouco mais velha tem empatia com a premissa, mas fica decepcionada com o desenvolvimento da trama e dos personagens.
Para o público adulto, os desafios podem parecer tolos: peidar nas pessoas, beijar um desconhecido aleatoriamente, caminhar seminu pela rua e coisas do gênero. Se se tratasse de um filme dirigido a um público mais velho, certamente os desafios envolveriam, em algum momento, assassinatos e crimes violentos em uma narrativa muito mais sombria. Nerve, entretanto, opta pela ênfase na ação, na adrenalina, e no desenvolvimento raso dos personagens. Em tese este seria um grave problema no roteiro, mas não podemos esquecer que a profundidade não é exatamente a característica mais comum nos adolescentes, já que depende de experiência para ser alcançada. A maioria dos adultos não tem profundidade alguma, portanto, não existe razão para exigirmos que os adolescentes de Nerve sejam diferentes da geração que representam. Ao mesmo tempo, a superficialidade desses desafios não atrapalha o ritmo do filme: com aqueles personagens, naquele jogo, tudo funciona perfeitamente bem.
Nerve tem uma linguagem visual interessante, que consegue transpor para a tela do cinema a dinâmica das telas de computadores, smartphones e tablets de forma orgânica e muito eficiente. Este é um ponto muito positivo, uma vez que há poucos filmes que procuram integrar essa nova dinâmica visual ao cinema, e menos filmes ainda que o fazem com alguma eficiência. Nos últimos anos, apenas Amizade Desfeita – um filme de terror adolescente – fez algo parecido, embora Nerve use a dinâmica dos jogos nas redes sociais, e Amizade Desfeita use a lógica dos aplicativos de conversa por áudio e vídeo. A fotografia do  filme é muito inteligente no uso da linguagem, ao transitar entre a câmera dos dos celulares do jogo transmitido ao vivo e a filmagem tradicional, que transmitem o senso de urgência e o nervosismo inerentes ao jogo.
Como estamos discutindo cinema e como cinema é uma arte audiovisual, essa linguagem visual é, também, linguagem narrativa – é neste ponto que o roteiro tem seus principais problemas. Nos dois primeiros atos, Nerve mantém um ritmo acelerado, que prende a atenção do espectador. A jornada de transformação de Vee, interpretada com competência por Emma Roberts, de adolescente tímida e reprimida à jogadora mais popular de Nerve tem o começo e o desenvolvimento interessantes. O processo de autodescoberta e as consequências de cada desafio cumprido para a personalidade da protagonista são convincentes e empolgantes, mesmo que não estejamos exatamente identificados com a velocidade e a volatilidade dos sentimentos dos personagens adolescentes.
Infelizmente, no terceiro ato, o filme perde completamente a capacidade de envolver o público adulto. O desfecho é superficial e, em alguma medida, infantil, a ponto de lembrar um episódio de Scooby Doo. A narrativa culmina em uma solução clichê, com discurso moralista sobre a irresponsabilidade, a superficialidade e a falta de sentido daquilo que as pessoas fazem quando estão protegidas pelo anonimato na rede. Ao mesmo tempo, para o público adolescente desta geração, o desfecho pode ser considerando envolvente e bem realizado, e a mensagem clara sobre a hipocrisia e a falta de ética nas redes sociais pode ser considerada necessária. Basta um breve passeio pelo Facebook e pelos comentários nos sites de notícias para entendermos o que o filme pretende fazer.
Nerve é um suspense interessante, eletrizante na maior parte do tempo, baseado na ação. Não vai tornar-se um clássico do cinema mundial, mas é suficientemente inovador na linguagem visual, um dos pioneiros na integração da linguagem das redes sociais às grandes produções de cinema. Para o público adulto, pode proporcionar uma boa diversão, e nada mais. Para o seu público alvo, pode ser um filme memorável.por Maurício Costa

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