CAFÉ SOCIETY (2016) – CRÍTICA
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Anna Camp, Armen Garo, Blake Lively, Corey Stoll, Craig Walker, Don Stark, Edward James Hyland, Gregg Binkley, James Thomas Bligh, Jeannie Berlin, Jesse Eisenberg, Judy Davis, Kaili Vernoff, Kelly Rohrbach, Ken Stott, Kenneth Edelson, Kristen Stewart, Lev Gorn, Liz Celeste, Max Adler, Parker Posey, Paul Schackman, Paul Schneider, Raymond Franza, Richard Portnow, Richard R. Corapi, Sari Lennick, Saul Stein, Sebastian Tillinger, Shae D’lyn, Stephen Kunken, Steve Carell, Steve Rosen, Steve Routman, Tom Kemp, Tony Sirico
Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum
Fotografia: Vittorio Storaro
Montador: Juliet Taylor, Patricia Kerrigan DiCerto
Duração: 96 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 25/08/2016 (Brasil)
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Gravier Productions
Classificação: 12 anos
Sinopse: Jovem rapaz se muda de Nova York para Hollywood com o intuito de ingressar na indústria cinematográfica hollywoodiana ao lado de seu tio, mas acaba se apaixonando pela secretária dele, que por sua vez vive uma conturbada relação com um misterioso homem casado.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Um filme de Woody Allen sempre gera expectativa. Afinal de contas, trata-se de um diretor com um currículo invejável: mais de cinquenta filmes, mais de uma dezena de clássicos, 22 indicações ao Oscar – quatro vezes vencedor-, além das diversas indicações para outros prêmios. Para além do vasto currículo e das láureas, Woody Allen é um diretor versátil, que transita entre a comédia e o drama com fluidez, e que é capaz de captar o “espírito de época” e o “espírito do lugar” como ninguém. Nos últimos quinze anos de sua carreira, Allen realizou algumas de suas obras primas: Match Point (2005); Vicky, Cristina, Barcelona (2008); o incomparável Meia Noite em Paris (2011); e Blue Jasmine (2013). O resultado da alta expectativa é a decepção, que, por sua vez, se reflete em críticas mais duras do que o necessário. Depois de atingir o ápice, qualquer trabalho apenas bom do diretor é tratado como um fracasso, enquanto um trabalho da mesma qualidade realizado por um diretor menos renomado seria considerando de excelente nível. Woody Allen, infelizmente, sofre por ser ele mesmo.
Café Society certamente não se equipara os clássicos do diretor, mas é um filme competente, superior aos dois trabalhos imediatamente anteriores – Magia ao Luar (2014) e O Homem Irracional (2015) e muito superior a alguns dos seus filmes mais fracos, como O Escorpião de Jade (2002).
O protagonista Bobby Dorfman, interpretado por Jesse Eisenberg, é um jovem judeu nova iorquino que se muda para Los Angeles para trabalhar com o tio – um grande agente de estrelas de Hollywood, no final dos anos 1930. Em L.A, Bobby conhece Vonnie, interpretada pro Kristen Stewart, uma jovem de Nebraska, já desiludida com aquele mundo superficial. Os dois jovens acabam envolvendo-se em um triângulo amoroso pouco convencional, com consequências perenes para suas vidas.

 

 

Ao contrário do que o trailer do filme faz parecer, trata-se de um filme sobre o amor, o amadurecimento, o espírito de época e, principalmente, o espírito do lugar: Bobby tem um conflito sobre que estilo de vida quer ter: o glamour de Hollywood ou a simplicidade do Brooklyn? Neste ponto, o roteiro faz um bom trabalho na expressão e na representação de cada estilo de vida e de como afeta a vida do protagonista. Para isso, usa como recurso narrativo o vínculo do jovem judeu exilado em L.A com a família, cujos personagens constituem um eficiente alívio cômico. Além disso, a narrativa se divide em duas etapas: na primeira, o jovem Bobby chega L.A e passa por suas desventuras; na segunda, Bobby está de volta a Nova Iorque, mais maduro e de coração partido. Assim, temos a transição do drama com alívio cômico, na primeira parte, para a comédia com peso dramático, na segunda parte, até que, no ato final, a narrativa culmina em nostalgia e melancolia.
O roteiro de Café Society funciona. Embora não tenha as piadas ou os diálogos mais geniais da carreira de Woody Allen, o público ri quanto deve rir; embora não tenha o peso dramático de seus clássicos dos anos 1980, o público fica emocionado quando deve se emocionar e incomodado quando deve se incomodar. Não se trata de um roteiro perfeito, é claro: a subtrama envolvendo o irmão gângster parece artificial, apesar de contribuir para as piadas com os judeus do Brooklyn, mas não compromete o conjunto. A narração, feita pelo próprio diretor, cumpre um papel orgânico, porém secundário, e não incomoda, quando se presta a contextualizar os personagens.
Jesse Eisenberg faz uma grande interpretação como alter ego do diretor, juntando-se a Kenneth Branagh, em Celebridades (1998), e Owen Wilson, em Meia Noite em Paris (2011), como um dos melhores atores nesta função. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de Kristen Stewart, que, apesar da beleza, teve uma atuação pouco expressiva – o que, convenhamos, compromete uma história de amor que envolve um triângulo amoroso. Emma Stone deixou saudades. O restante do elenco cumpre seu papel de forma eficiente, mas sem grandes destaques.
Café Society é um filme visualmente exuberante. O design de produção de Santo Loquasto, o figurino, e a fotografia de Vittorio Storaro, com a paleta de cores amareladas e os cenários luminosos, para representar a L.A dos anos 1930, e a paleta de cores chapadas e frias, para representar a NY do personagem já maduro, mais do que tornarem o filme uma experiência visual gratificante, cumprem papel narrativo relevante. Trata-se de uma história para a qual a ambientação e a representação da eletricidade dos ambientes e da interação entre as pessoas é fundamental para seu funcionamento- e dá certo.
Café Society é um bom filme, que nos remete a diferentes fases da cinematografia de Woody Allen: com uma clima semelhante ao de A Era do Rádio, um toque de comédia como o de Descontruindo Harry, uma captação do espírito de época de Meia Noite Em Paris, um pouco do espírito de lugar de Vicky, Cristina, Barcelona e com um final que deixa o mesmo gosto amargo e melancólico de Manhattan. Ao mesmo tempo em que remete a grandes trabalhos do diretor, Café Society não se iguala a nenhum deles em qualidade, mas vale a pena ser visto.
por Maurício Costa
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